A conclusão do estudo realizado pela RESOLVE — uma organização ambiental sem fins lucrativos, focada na busca de soluções para a proteção da biodiversidade e da vida selvagem — é clara: os lideres mundiais devem (ou têm) de aumentar o compromisso de protegerem o território e a água, se quiserem manter um clima estável e uma boa qualidade de vida no futuro.

A investigação estabelece uma meta de 30% de território terrestre de cada país a ser formalmente protegido até 2030. A este valor acrescentam-se mais 20%, que correspondem a áreas para estabilização climática — o que totaliza 50% de território que deverá ser mantido em estado natural.

O prazo é curto, a meta ambiciosa, mas é verdadeiramente urgente: o plano deveria estar consolidado no espaço de dez anos, porque, só assim, dizem, é possível manter o crescimento da alteração climática abaixo da “zona perigosa” — abaixo dos 1,5 graus celsius —, prevenindo a destruição dos ecossistemas.

O estudo, chamado “Acordo Global para a Natureza: Princípios, Objetivos e Metas”, foi publicado esta sexta-feira, 19 de abril, na revista científica Science Advanced. Eric Dinerstin, diretor da RESOLVE, considera que “os benefícios de proteger 50% da natureza até 2030 são tremendos”, disse, citado pela “National Geographic”. O documento mostra como estes 30% poderiam ser alcançados em 67% das 846 ecorregiões terrestres, até à data estipulada, caso estas metas se unissem às que foram estabelecidas, em 2015, pelo Acordo de Paris, que visa diminuir a emissão de gases e o aquecimento global.

É fundamental, segundo o mesmo diretor, manter florestas intactas para que haja uma absorção eficiente de carbono, explica. Sem elas é quase certo que parte dos sistemas naturais da Terra desapareçam, o que acaba por pôr em causa a qualidade de vida no planeta. Ao mesmo tempo que a investigação conclui que é urgente proteger o território, também diz que cortar no consumo de combustíveis é fundamental. “Não podemos ter um clima mais seguro sem protegermos 50% da terra e vice-versa”, disse Dinerstin.

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Enric Sala, um explorador da National Geographic e líder do National Geographic Society, que se juntou à Wyss Campaign for Nature, sublinha a relação de dependência entre o homem e a natureza: “Sem eles, não há nós”, diz. “Cada pedaço de comida, cada gole de água, o ar que respiramos é o resultado do trabalho feito por outras espécies. A natureza dá-nos tudo o que precisamos para sobreviver.”

Apesar de o Acordo Global para a Natureza se concentrar na proteção do território terrestre, os autores do estudo apoiam a International Union for the Conservation of Nature, alertando para a necessidade urgente de proteger 30% dos oceanos até 2030. Os corais, que são viveiros de grande parte dos peixes e de outras espécies marinhas — sendo que mais de mil milhões de espécies dependem deles —, já estão a ser prejudicados pela subida da temperatura de 1 grau. Segundo a “National Geographic”, os cientistas temem que poucos sobrevivam, caso a temperatura suba até aos dois graus celsius.

O objetivo de proteger metade do território terrestre iria custar cerca de 100 mil milhões de dólares por ano, estima o estudo.  Sala diz que este valor existe, mas que depende das pessoas. Como disse Justin Winters, diretor executivo da Leonardo Dicaprio Foundation, “o objetivo de proteger metade do Planeta não será atingido sem que haja entendimento e envolvimento público”.

Episódios recentes mostram-nos que isto até pode ser possível, dependendo do esforço de cada país. Sala dá o exemplo do incêndio da Catedral de Notre-Dame, que deflagrou a 15 de abril, em Paris, sublinhado que foram doados quase mil milhões de dólares (889 mil milhões de euros), no espaço de dois dias, após o acontecimento. Em 2009, o resgate dos bancos da Reserva Federal dos Estados Unidos somou mais de 29 biliões de dólares (perto de 27 mil milhões de euros), diz um estudo. É fazer as contas: “Um bilião são mil milhões, logo, este valor daria para financiar 290 esforços de conservação que protegem metade da Terra e ajudam a estabilizar o clima”, aponta a “National Geographic”.

Sala finaliza com um alerta: “Temos apenas dez anos para nos salvar.”