Uma em cada 11 mulheres em Portugal terá cancro da mama ao longo da sua vida e este é o tipo de cancro com maior taxa de incidência no nosso País. De acordo com dados do Fundo iMM-Laço, anualmente surgem mais de seis mil novos casos e a incidência da patologia aumenta de ano para ano.

É a forma de cancro mais frequente na mulher, surge raramente antes dos 30 anos, aumentando significativamente a partir dos 45 e principalmente depois dos 60. E embora seja menos frequente, o cancro da mama também atinge mulheres jovens — cerca de 10% das mulheres com menos de 40 anos também sofrem com esta doença, e o número de casos em mulheres mais jovens tem tido um discreto aumento nos últimos anos.

E se até aqui falámos de números, falemos agora de pessoas. Em 2017, Vera Nabeiro passou a mão pela mama direita e sentiu um caroço. Foi ao médico de imediato, que suspeitou que se tratasse de uma inflamação da glândula mamária. Mas o cenário era outro.

Depois de uma ecografia mamária e de uma biópsia, a 10 de agosto o cancro da mama foi confirmado, três semanas depois da primeira consulta: tinha quatro nódulos na mama.

Patrizia Bréchot. “O cancro mata-nos porque lhe damos tempo para o fazer”

“Achei que era engano, que aquilo não era meu”, conta à MAGG a cabeleireira de 37 anos natural do Entroncamento. “Depois pensei que se me tinha calhado a mim, era porque eu era capaz”.

Receber o diagnóstico de cancro é sentir o chão a desaparecer debaixo dos pés

Catarina Meneses soube que tinha cancro da mama por uma amiga. Com 40 anos e mãe de dois rapazes, de 9 e 5 anos, a educadora de infância sempre fez as vigilâncias normais e a próxima mamografia estava até marcada para breve quando sentiu uma “pedra” grande na mama direita.

“Comentei logo com o meu marido e ele, depois de sentir, concordou que era enorme. Eu nunca tinha reparado naquilo e pensei logo que devia ser um quisto. Nem imaginei outra coisa. Pensamos que só acontece aos outros”, lembra.

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Estávamos em julho de 2018 e, mesmo depois da menstruação, a “pedra” não desaparecia — pelo contrário, Catarina Meneses sentia-a cada vez maior e, além disso, começou também a ter dores. Sem conseguir dirigir-se à sua médica habitual, que estava de férias, a educadora de infância pediu ajuda a uma amiga, técnica de imagiologia, para lhe agilizar um exame.

Os desafios da mulher jovem com cancro da mama

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Para celebrar o 12.º aniversário da Unidade da Mama CUF, a primeira unidade do setor privado dedicada ao cancro da mama, o grupo CUF vai realizar, em 2019, cinco encontros sob o tema “Os desafios da mulher jovem com cancro da mama”.

Nestes eventos, em formato de conferência com especialistas de cancro da mama e com a participação ativa de mulheres jovens com cancro da mama, serão partilhados testemunhos e dúvidas sobre temas como a qualidade de vida conjugal e sexualidade, maternidade, imagem corporal, impacto no trabalho e a vida depois do cancro.

O primeiro acontece já dia 28 de maio, no Hospital CUF Descobertas, em Lisboa. Para mais informações, consulte o site oficial.

 

“No dia 25 de julho, fiz uma mamografia com uma médica e com a minha amiga, que acompanhou o exame enquanto técnica, e percebi pela cara delas que não era só um quisto. Não me diagnosticaram, mas a médica confirmou a existência de uma massa grande e disse-me para ser vista pela minha médica o mais rápido possível.”

Mais tarde, em privado, Catarina Meneses confrontou a amiga e perguntou-lhe diretamente se tinha cancro da mama: “Ela chorava à minha frente, mas não me dizia nada. Lá me respondeu que tudo indicava que sim, mas que não me podia dizer se era maligno. Senti o chão a sair debaixo dos pés e a primeira frase que me saiu foi ‘não tenho tempo para ter estas coisas’. Tenho pilhas, uma vida agitada, e não me via a ter uma doença destas e a ter de parar”.

Depois de mais exames, Catarina Meneses teve a confirmação. Tinha um carcinoma invasivo de grau 2 na mama direita, bastante grande, que ocupava o quadrante todo da mama.

“A fase do diagnóstico é uma fase que dói muito, é uma dor de alma. É descobrir que se tem cancro, mas sorrir à noite para os filhos. É estar a brincar com eles na praia e saber que daí a dois ou três dias se vai fazer uma mastectomia”, recorda Catarina Meneses.

“Mãe, estás tão feia”. Lidar com a doença, a perda de cabelo, as mastectomias e o terror das quimioterapias

Catarina Rodrigues dos Santos, cirurgiã oncológica, explica que “40% das doentes com cancro da mama ainda faz uma mastectomia [cirurgia de remoção total ou parcial da mama], seja por necessidade, ou por opção”, mas ressalva que “hoje em dia, especialmente nas mulheres jovens, é muito frequente que a primeira abordagem não seja a cirurgia, mas sim a quimioterapia”.

Catarina Rodrigues dos Santos é cirurgiã oncológica no IPO de Lisboa e no Hospital CUF Descobertas

De acordo com a especialista, iniciar o tratamento do cancro com quimioterapia tem dois objetivos principais: “Um é reduzir o tamanho do tumor, e com isso poder evitar uma mastectomia, e outra tem a ver com as características biológicas do tumor. Atualmente, sabemos que a possibilidade de se avaliar a resposta ao tratamento inicial da quimioterapia quando o tumor ainda está na mama pode ter aspetos relevantes para a definição da terapêutica futura. No entanto, muitas vezes começamos com a quimioterapia mesmo tendo já assente que vamos efetuar uma mastectomia”.

Tanto Vera Nabeiro como Catarina Meneses fazem parte dos 40% de mulheres com cancro da mama que realizaram uma mastectomia, ambas da mama direita, mas Vera fez a reconstrução da mama na mesma cirurgia, enquanto que Catarina deixou essa opção de lado.

“Quando me vi ao espelho, não me fez impressão absolutamente nenhuma. Confesso que até me prefiro agora, não tenho nenhuma cicatriz visível e passei de uma copa D para uma B. Acho que até ficou mais bonitinho”, diz Vera Nabeiro, que escolheu ter sempre uma atitude positiva quanto à doença.

Depois da mastectomia, Vera começou com as sessões de quimioterapia, um processo que considera “violento” e que assume que foi a parte mais complicada da doença: “Fazia as sessões às sextas-feiras e começava a reagir lá para domingo, segunda-feira. Mesmo a tomar corticoídes para ter menos reações, passava os dias com vómitos, diarreia e cheguei a ser internada duas vezes”.

Após a primeira sessão de quimioterapia, começou a perder o cabelo. “Além de causar alguma dor no couro cabeludo, é o nosso aspeto físico que é afetado”, explica a cabeleireira, que resolveu rapar o cabelo todo no final de um almoço de família.

“Estava a almoçar e senti uma areia na patilha. Quando a puxei, veio o cabelo. Fiquei com as pernas a tremer e disse logo ao meu marido que queria ir para casa ver um filme e ficar quieta. Adormeci no sofá e cada movimento que fazia caía-me uma mecha de cabelo, descolava simplesmente”, conta Vera.

A cabeleireira recorda que “o primeiro toque da máquina é arrepiante” e que teve medo do espelho. “Mas depois, quando me vi, pensei que não era assim tão mau e resolvi encarar este processo como uma nova fase”.

Para Catarina Meneses, o processo da quimioterapia e consequente perda de cabelo também foi desafiante, até porque teve de lidar com a rejeição do filho mais velho.

“A primeira sessão de quimioterapia foi a primeira vez que pensei em desistir, em não fazer mais nenhum tratamento, porque é um terror. Os efeitos secundários são horríveis, são sensações pavorosas, em que passava dias cheia de dores e a vomitar”, conta a educadora de infância.

Catarina Meneses perdeu o cabelo logo após a primeira sessão, mas a decisão de rapar não foi imediata. “Precisava de o sentir a cair, se não ia achar sempre que se calhar tinha rapado e o meu não ia cair. É uma patetice, ia sempre perdê-lo, mas acabei por fazer desta forma”.

Quando finalmente decidiu rapar, o filho de 9 anos disse: “Mãe, estás tão feia”. A educadora de infância explicou ao filho que era uma necessidade e que dali para a frente ia usar uns lenços bonitos.

“Disse-me que não queria que eu fosse à escola dele assim, que não queria que os amigos me vissem e perguntou-me se eu não tinha vergonha de andar na rua sem cabelo. Expliquei-lhe que não tinha feito nada de mal e que por isso não tinha motivo para ter vergonha de nada e que nada daquilo estava a acontecer por minha vontade”

No dia seguinte, o marido de Catarina Meneses apareceu em casa de cabelo rapado, para espanto do filho e explicou à criança que o tinha feito por opção, ao contrário da mãe, que o fez por necessidade e que era missão da família respeitar e ajudar Catarina neste processo. “Foi como se o meu filho tivesse tido um flash. A partir desse dia começou a colaborar na escolha dos lenços e até a pedir-me para levar o preferido dele quando o fosse buscar à escola”, relata a educadora de infância.

A reconstrução da mama na mesma cirurgia que a mastectomia é aconselhada pelos médicos — mas há quem não o faça

A reconstrução imediata da mama é um procedimento comum para grande parte das mulheres que faz uma mastectomia. “Diria que mais de 80% faze logo a reconstrução”, afirma a cirurgiã Catarina Rodrigues dos Santos, que também salienta que essa é uma recomendação na maior parte dos centros hospitalares.

“É claro que há situações em que isso pode não estar indicado, mas acabam por ser as mulheres mais velhas que optam por não o fazer, para não acrescentar riscos à cirurgia”, explica a especialista.

Há também quem não o faça por opção, mas Catarina Rodrigues dos Santos alerta para os potenciais riscos psicológicos: “Ver-se sem uma mama pode ter um forte impacto visual e psicológico, principalmente nas mulheres mais jovens. É claro que é legítimo que a pessoa queira colocar à frente o tratamento da doença, que deve ser sempre prioridade, mas hoje em dia podemos evitar esse mesmo impacto”.

Para além dos efeitos psicológicos, a cirurgiã também reforça que existe um benefício médico associado à reconstrução imediata. De acordo com a especialista, “a mastectomia consiste em retirar a glândula malária, não necessariamente, ao contrário do que era clássico, tirar todo o tecido da mama ou o complexo anelo-mamilar” e uma reconstrução imediata permite preservar “o invólucro, a pele e o complexo, fazendo logo um preenchimento da glândula mamaria que já não existe — isto vai dar uma reconstrução fácil, natural e funcional do que uma que parta do zero, de uma cicatriz ou de uma parede torácica lisa”.

Cientistas garantem ter a cura para o cancro dentro de um ano

No entanto, Catarina Meneses optou por não fazer a reconstrução na cirurgia em que retirou a mama e, até à data, ainda não a fez: “O meu foco naquele momento era a minha cura e ainda havia um processo pela frente. Na minha maneira de estar na vida, a reconstrução é outra fase, em que posso ir embelezar, mas naquele momento só me queria ver livre daquela situação. Fazer a reconstrução representava mais horas de cirurgia e eu tenho um problema de coagulação e, fazer as duas coisas poderia, eventualmente, atrasar o processo de cicatrização”.

Ao decidiu não avançar, Catarina contrariou os conselhos da equipa médica que temia que Catarina Meneses não conseguisse lidar psicologicamente com a sua nova imagem.

“Quando acordei da operação, lembro-me de ir com a mão ao peito e sentir o adesivo. No dia seguinte, quando fui a primeira vez à casa de banho para fazer a minha higiene, tive um choque ao ver-me ao espelho. Mas foi um choque de meia hora, quase como uma birra. Conversei com uma enfermeira, que foi incrível, e passado uma hora já estava a tomar banho”.

Catarina Meneses admite que lida bem com o seu corpo e com o espelho. Não houve nada que deixasse de fazer por não ter uma mama e continua a vestir-se da mesma forma. “Não é um cenário bonito, mas não me sinto feia, nem menos mulher. Sou eu e isto foi uma coisa que fez parte da minha vida”, explica.

A educadora de infância ainda não pensa em fazer a reconstrução, que pode fazer a qualquer altura, mas admite que o verão vai ser um grande teste: “Tenho de ver como me sinto com um fato de banho, que terá de ser adequado à minha prótese de silicone”.

Vera passou por um divórcio, Catarina teve medo de não conseguir ser mãe dos seus filhos

À mastectomia, às sessões de quimioterapia e à queda do cabelo, Vera Nabeiro juntou um divórcio. O casamento de 13 anos acabou durante o período em que esteve doente.

“Era uma situação que já estava frágil e que depois caiu. O apoio é realmente muito importante e quando o apoio falta, começamos a ver as coisas de outra maneira”, salienta Vera Nabeiro.

Vera Nabeiro viu o seu casamento de 13 anos terminar enquanto lutava contra um cancro da mama

A separação do marido acabou por ser feita em nome do seu bem-estar e Vera Nabeiro não demorou muito tempo a voltar a si. “Passei 15 dias em casa dos meus pais mas a seguir arranjei logo uma casinha para mim e para a minha filha. Tem de se andar em frente”, garante a cabeleireira.

Para Catarina Meneses, os filhos foram uma fonte de preocupação, por se ver impedida de cuidar deles como era habitual, e, ao mesmo tempo, a sua fonte de energia.

“Tive medo de morrer e de não conseguir ser mãe dos meus filhos. E continuo a ter esse medo. Eles são muito pequenos, precisam de mim. Não conseguir estar lá para os meus filhos muito difícil. Na altura do internamento e durante os tratamentos, eles ficavam com os avós, enquanto o meu marido cuidava de mim. Não podia estar presente como eu queria e tinha medo que o meu papel fosse passado para as avós e que eu perdesse um bocadinho o meu papel de mãe.”

No entanto, tanto Vera Nabeiro como Catarina Meneses optaram por não esconder a doença dos filhos e, segundo a psicóloga Renata Chaleira, é este o procedimento correto. “Deve-se dizer a verdade às crianças, com uma linguagem apropriada, claro, e elas devem ser bem acompanhadas”, explica a especialista.

Vera Nabeiro sempre deixou a filha vê-la sem cabelo e tomava banho de porta aberta, porque sabia que a criança ia espreitar: “Fui criando truques subtis para ela estar a par de tudo, mas ao ritmo dela. Não queria criar fantasmas à Joana, mas era importante que ela estivesse a par da realidade. Porque hoje sou eu, mas amanhã pode ser ela”.

Também Catarina Meneses foi honesta com os dois filhos e disse-lhes diretamente que estava doente, sem medos de utilizar as palavras corretas.

“Disse a palavra cancro e falei preto no branco. O meu filho mais velho, por exemplo, quis ver-me a seguir à cirurgia e, inicialmente, eu não deixei. Mas ele andava muito inquieto, falei disto à minha médica e ela disse-me para mostrar, sem medos. Acabei por lhe mostrar como tinha ficado e ele acalmou”, conta Catarina Meneses que admite que nada foi escondido aos miúdos. “Não se conta tudo ao detalhe, mas conta-se”.

O cancro muda as mulheres?

Apesar de o cancro da mama ser uma doença muito comum entre o sexo feminino, acaba por atingir mais mulheres a partir dos 60 anos. Mas quando esta patologia acontece em mulheres mais jovens, a forma de lidar com a doença é diferente?

“Eu diria que sim, até porque existem outras contingências como a relação conjugal, os filhos, a vida profissional, etc.”, afirma a psicóloga Renata Chaleira. “As pessoas mais jovens sabem que é uma coisa que pode acontecer, mas acham que é sempre uma coisa que só acontece aos outros e podem ter mais dificuldade em aceitar”.

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Por outro lado, muitas vezes acabam por enfrentar a doença com mais força. “As mulheres mais jovens têm acesso a mais informação e estão mais atualizadas e sabem que um diagnóstico de cancro já não é sinónimo de morte certa, ideia que foi tida como verdade durante muito tempo”, salienta a especialista.

Atualmente, Vera Nabeiro já terminou todos os tratamentos e encontra-se apenas com uma menopausa induzida por medicação. Depois da doença, que a “despertou para a vida”, assume que é uma mulher completamente diferente.

“Relativizo muito mais as pequenas coisas, tenho muito menos dificuldades em lidar com as pessoas no geral, e fiquei com mais ambição, com horizontes mais abertos e uma pessoa mais liberal”, assume a cabeleireira, que hoje se dedica mais à formação e não tanto ao atendimento ao público. Além disso, começou a ler e a informar-se cada vez mais sobre a doença e participa ativamente em iniciativas ligadas ao cancro da mama.

Catarina Meneses ainda não regressou ao trabalho, dado que sente que ainda não consegue “estar lá para as crianças” e que o seu poder de concentração ainda está aquém do habitual.

Depois da doença (Catarina já terminou a quimioterapia e está atualmente a fazer umas injeções para eliminar as hormonas, dado que o seu tumor era 100% hormonal), a educadora de infância assume que a sua relação com o marido ficou ainda melhor —“estamos mais companheiros” — e que amadureceu imenso. “Este processo fez-me dar valor a coisas que me passavam completamente ao lado. Vivo um dia de cada vez e tento aproveitar tudo de bom que esse dia tem”.