A redação da MAGG é muito variada, apesar de ser composta maioritariamente por mulheres. Há apenas quatro homens: o nosso diretor-geral, o gestor de redes sociais, o videógrafo e eu. Temos backgrounds diferentes, vimos de sítios diferentes e gostamos de coisas também elas muito diferentes. Imagine-se até que há pessoas aqui que gostam de “Friends” ou que detestam sushi com queijo Philadelphia. Mas está tudo bem. Somos todos amigos. De verdade.

Mas é um facto que nesta redação há mais mulheres do que homens. Coloquem-se no meu lugar, caros leitores, só por uns minutos: quando a MAGG foi lançada, a 19 de fevereiro de 2018, era um puto que tinha acabado de trocar a área da programação informática pela da comunicação e que, no primeiro dia, se viu rodeado de mulheres num contexto novo e no qual não se sentia confortável. O facto de ser naturalmente tímido também não ajudou.

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Na primeira reunião de equipa, o tema que sugeri envolvia falar sobre barbas. Numa revista feminina que tem como objetivo ir ao encontro das preocupações diárias do público feminino. Boa Fábio, excelente começo. Vais longe, miúdo.

Era a primeira experiência como jornalista e a primeira vez que trabalhava maioritariamente com mulheres. Na última empresa de informática onde estive, e onde só havia homens, os temas de conversa andavam sempre à volta da santíssima e aborrecidíssima trindade dos assuntos: futebol, política e mulheres giras.

Nós, homens, revelamos menos, seja por medo ou insegurança, e isso torna-nos chatos. Há exceções, como em tudo, mas somos chatos. Pronto, está dito. É por isso que ouvia com muita atenção e curiosidade tudo aquilo que as minhas colegas diziam entre si.

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E eram conversas que, apesar de me incluírem, terminavam sempre da mesma forma: “Desculpa, Fábio”. Precisamente porque, à partida, podia ser constrangedor falar de certos assuntos ao pé de um homem. Os exemplos são vários e eu registei alguns.

  • “Ontem veio-me o período e fiquei toda assada. Desculpa, Fábio.”
  • “Sinto que tenho uma mama mais torta do que a outra. Desculpa, Fábio.”
  • “Já alguém teve daquelas dores nos ovários mesmo incapacitantes? Desculpa, Fábio.”
  • “Vocês nem sabem o que me aconteceu ontem com o meu namorado. Desculpa, Fábio, mas tenho mesmo de contar.”
  • “Lembram-se de quando falámos de como um cocó saudável devia ser? Agora olho sempre para a sanita depois de fazer. Desculpa, Fábio.”

Trabalhar com elas é ouvi-las falar de cremes, loções (aparentemente este é um termo muito utilizado por homens que, como eu, precisam de estudos extra para perceber este tipo de coisas), batons e todos aqueles acessórios que elas acham serem absolutamente indispensáveis para o seu dia a dia. Ou nenhuma destas coisas, também temos mulheres que percebem tanto de maquilhagem como eu.

É vê-las maquilharem-se ou a ajeitar o cabelo antes de tirar uma fotografia — da mais profissional à selfie básica a comer um gelado.

É tê-las a reparar, e a dar opinião, sobre tudo o que é roupa nova ou uma qualquer mudança de visual, por mais subtil que seja. Trabalhar com as minhas colegas é estar a almoçar e saber que, de repente, uma delas (que já estava na sala) se começa a despir atrás de mim porque não tinha tido tempo de trocar de roupa antes.

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Imaginem levar uma garfada de qualquer coisa à boca e ouvirem o seguinte: “Fábio, não te vires agora que eu vou-me despir. Ok?”. Não virei, não vi nada, fiquei quieto e olhei sempre em frente enquanto os olhos tremiam de vergonha e desconforto. Hoje, acho só hilariante.

Trabalhar com elas é, também, estar sempre a ser apanhado em falso ao mais pequeno deslize ou incoerência. A última vez aconteceu esta quinta-feira, 21 de março, quando disse que não gostava de um dos meus apelidos (Conde) e uma delas saltou de dedo em riste: “Mas tens Conde no nome de utilizador do Instagram. Tu gostas do nome e assumes isso, admite.”

Expliquei que a combinação dos meus outros nomes com Conde era a única disponível nas três redes sociais que uso (Facebook, Instagram e Twitter). A utilização de um nome comum às três tornava mais fácil a unificação e o acesso às contas. Não serviu de muito. “O Fábio não é uma pessoa, é uma marca”, riram-se. E eu com elas.

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São mulheres como todas as outras e com preocupações várias, das mais banais às mais sérias. São pessoas que temem quando o computador teima em não funcionar, que se preocupam com o que vestir, que choram quando o trabalho lhes rouba a atenção que preferiam dar aos filhos e que tremem quando as relações mais próximas se parecem desmoronar.

Elas (ainda) não sabem, mas ajudaram-me muito. E devo-lhes tudo. São uma equipa incrível.