Narcolepsia, sexónia, distúrbios alimentares noturnos, síndrome de hipoventilação alveolar congénita ou hipersónia ideopática. São algumas das muitas doenças menos frequentes do sono — algumas raras e até estranhas — que são desconhecidas da maioria.

De acordo com Joaquim Moita, presidente da Associação Portuguesa do Sono e coordenador do centro de Medicina do Sono do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), a medicina do sono tem identificadas, atualmente, cerca de 100 doenças do sono ou doenças que sofrem alterações e agravamento durante o sono.

A perturbação mais comum é o síndrome de apneia do sono que, segundo um estudo europeu de 2015, afeta cerca de metade dos homens e um quarto das mulheres. Ainda nas patologias mais comuns, há a insónia crónica — que é um problema grave e que pode levar ao aparecimento de outros problemas de saúde — e o síndrome das pernas inquietas, que atingem 10% e 5%, respetivamente, da população.

A mesma investigação revela também que os indivíduos com distúrbios respiratórios do sono não tratados apresentam um maior risco de hipertensão, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca, diabetes, acidentes automobilísticos e depressão.

Joaquim Moita considera que os portugueses “continuam a dar pouca importância ao sono”. Citando um estudo da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, o especialista lembra que mais de metade dos portugueses dorme menos de seis horas. A recomendação internacional é que um indivíduo entre os 18 e os 65 anos durma sete a nove horas diárias. Portanto, “os portugueses estão numa faixa crítica.”

E a sesta será assim tão importante?

Para o especialista do sono, a importância da sesta é uma questão que “depende do país e da estação do ano onde estamos, por exemplo. Diria que em Portugal e nos países nórdicos em geral a sesta não é necessária.” Neste casos, uma boa noite de sono de sete a nove horas dispensa a sesta.

No entanto, há uma exceção onde a sesta continua a ser recomendada e a ser praticada: nas zonas quentes, como no Alentejo ou no sul de Espanha. “Aqui a sesta é uma estratégia essencial e que tem um efeito muito interessante, uma vez que o sono arrefece o corpo e, portanto, é um método de contrariar o calor. Por outro lado, numa criança a sesta é fundamental e só deixa de ser necessária depois dos 6 anos.”

Histórias. Doenças raras do sono

No Dia Mundial do Sono, que se assinala esta sexta-feira, 15 de março, Joaquim Moita, profissional na medicina do sono há 30 anos, conta-nos casos reais de pacientes observados na consulta com doenças menos conhecidas, mas que podem retirar qualidade de vida e ser altamente incapacitantes.

Distúrbios alimentares noturnos

“Nos últimos seis meses, a situação mudou. Começou a ter dificuldade em adormecer. Algum tempo depois passou a levantar-se, a comer todo o tipo de alimentos, inconsciente, e sem memória do que faz. Já teve várias queimaduras ao tentar cozinhar. O último recurso foi mesmo fechar a cozinha”. Esta é a história de um taxista de 40 anos.

Foi a atividade profissional que, aos 30 anos, o levou a ter ansiedade. A partir daí, começou por desenvolver compulsão para comer durante a noite, que acontece normalmente por volta das duas da manhã. Inicialmente, o indivíduo tinha consciência do que estava a fazer e recebia apoio da companheira para confecionar a comida. O aumento do peso — que tal como a obesidade são comuns nesta perturbação — acabou por acontecer: o taxista de profissão está atualmente com 95 quilos.

Os distúrbios alimentares noturnos configuram uma interrupção no jejum noturno que é uma característica do sono. Existem dois tipos: o síndrome do comer noturno e o distúrbio alimentar relacionado com o sono. No entanto, há casos mistos entre estes dois tipos.

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No síndrome do comer noturno, o apetite para comer surge durante a noite e não na hora habitual para jantar. Há uma tendência para a ingestão de alimentos de alto valor energético, como doces. O doente acorda, chega a cozinhar, tem consciência do impulso incontrolável para comer. No dia seguinte tem memória do que aconteceu”, explica o médico do sono Joaquim Moita. Já no distúrbio alimentar relacionado com o sono, “o doente não tem consciência nem memória do evento que ocorre a partir de sono profundo. Podem ocorrer acidentes relacionados com a preparação da comida ou pela ingestão de substâncias tóxicas ou não comestíveis.”

Os distúrbios alimentares noturnos estão incluídos na categoria das parassónias. “As parassónias são movimentos e comportamentos anormais durante o sono”, explica Joaquim Moita. O sonambulismo é o distúrbio mais conhecido e que raramente persiste na idade adulta.

Sexónia ou perturbação sexual durante o sono

A sexónia é uma outra parassónia, descrita mais recentemente, que constitui uma perturbação rara e que é mais frequente em adolescentes ou em adultos jovens. Nestes casos, os indivíduos têm uma atividade sexual “inapropriada” durante o sono profundo — frequentemente em “forma de masturbação” — e não têm consciência ou memórias do sucedido no dia seguinte.

“Durante a gravidez do segundo filho iniciou comportamentos anormais durante o sono — a masturbação. Este comportamento é incomodativo para o marido, mas não é percetível para a própria, mesmo quando acordada durante ele, sem memória de sonho associado”, conta o médico do sono Joaquim Moita, referindo-se a uma enfermeira de 28 anos, que trabalha por turnos.

A profissional de enfermagem, no entanto, adormece com facilidade, tem um sono contínuo e acorda com uma sensação matinal de ter tido um sono reparador. Neste caso, a sua situação melhorou com a prescrição de medicação apropriada e, principalmente, com o término da disfuncionalidade do casal.

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A perturbação da sexónia é mais comum em períodos de muita ansiedade ou de privação do sono. De salientar que os casos de sexónia não estão associados a sonhos de conteúdos erótico e que, muitas vezes, é um motivo de vergonha para o doente e de preocupação para o parceiro e familiares.

Narcolepsia

“Sonolência diurna excessiva desde os 14 anos, adormecia nas aulas e os colegas chamavam-lhe soneca. Usava despertador no autocarro e no comboio para sair nas estações de destino.” Este é o quadro clínico de um jovem de 24 anos. Uma sonolência permanente, com ataques de sono completamente incontroláveis, fazem parte dos relatos do mecânico de automóveis de profissão. Sempre que tem oportunidade — o que é raro — opta por dormir sestas curtas de 10 a 20 minutos que, apesar de o deixarem mais alerta, os períodos não vão mais além das três horas.

A narcolepsia é caracterizada por uma hipersonolêcia diurna, por alucinações no início e no final do sono, pela paralisia do sono (o doente não se consegue mexer ao acordar) e pela cataplexia (emoções como o riso, a fúria, o prazer, a surpresa provocam perda de força muscular, normalmente dos membros inferiores). Foi o que aconteceu a este jovem, que passou por varias situações de cataplexia. “A mais notória ocorreu quando, sendo jogador de futebol júnior, defendeu um golo que permitiu à sua equipa ganhar o jogo. Extremamente feliz, risonho, excitado com os aplausos dos colegas, caiu no campo”, conta o Joaquim Moita, médico do sono.

As suas noites de sono são “pavorosas”: para além de dormir mal, acorda com muita frequência e o sono é sempre muito ligeiro. A péssima qualidade de sono é, precisamente, algo que também define esta doença. Atualmente, o jovem “é uma pessoa ansiosa, triste e com relatos de vários episódios depressivos, uma vez que a doença não lhe permite viver como gostaria. O medicamento que toma — um excitante caríssimo — não é suficiente para controlar a doença.”

A narcolepsia pode surgir em qualquer idade, mas é mais comum na juventude. “Na escola, os narcolépticos são os ‘sonecas’, que adormecem nas aulas. As sestas são reparadoras, mas por um período curto. Há medicamentos eficazes que, infeliz e obscenamente, estão indisponíveis em Portugal.”

De acordo com dados avançados por Joaquim Moita, presidente da Associação Portuguesa do Sono e Coordenador do centro de Medicina do Sono do CHUC, 1 em cada 4000 europeus têm esta doença. Em Portugal, há milhares de casos, sendo que “a esmagadora maioria está por diagnosticar.”

Síndrome de hipoventilação alveolar congénita

Esta é uma doença rara, crónica e que se caracteriza “por respostas diminuídas do centro respiratório, provocando um quadro clínico de hipoventilação durante o sono.” Ou seja, o doente não respira durante o sono, apenas o faz durante a vigília. A idade do aparecimento e a gravidade são variáveis e tem como base uma mutação no gene PHOX2B.

Podemos compensar a falta de sono da semana no fim de semana?

Joaquim Moita apresenta a história de uma mulher, atualmente com 35 anos, que, na sequência de um traumatismo na área do tronco cerebral, onde está situado o centro respiratório, acabou por ser diagnosticada com o síndrome de hipoventilação alveolar congénita.

Aos 17 meses de idade sofreu um traumatismo crânio-encefálico e cervical. “Desde então desenvolve progressivamente sintomas de sonolência, crises convulsivas irritabilidade, défice cognitivo, enurese (perda involuntária de urina). Tinha hipersonolência grave acabando por ser medicada cronicamente com anfetaminas e cafeína injetável sem benefício.” Atualmente, com 35 anos, “faz 16 horas de ventilação, com uma peça bucal durante o dia e mascara à facial à noite, mas desempenha o essencial da sua vida quotidiana.”