As fotos do palácio abandonado no Saldanha que ainda guarda memórias das candidaturas de Soares e Sousa Cintra

Soares discursou desta varanda, Cintra tinha aqui a sede de campanha. Ainda há cartazes. Fotógrafo entrou no espaço e captou tudo.

Além dos ornamentos, teto e chão destruídos pelo tempo, os fotógrafos encontraram ainda muitos vestígios do Sporting

Para um fotógrafo de lugares abandonados que corre o País (e o mundo) atrás de edifícios devolutos, era difícil ficar indiferente a este palacete na Praça Duque de Saldanha, em Lisboa. Abandonado há décadas — a sua última utilização conhecida foi em 1989 —, parecia impossível lá conseguir entrar. As portas e janelas permaneciam sempre fechadas, as ruas cheias de pessoas não permitiam grandes malabarismos.

Só que o desejo de ver o palácio por dentro permanecia. Há três anos, Francisco (nome fictício, já explicamos porquê) enviou um email à Câmara Municipal de Lisboa, com o intuito de lá conseguir entrar legalmente. O pedido foi negado: o imóvel não pertencia à câmara, mas sim a um privado. Não havia nada a fazer.

Tudo mudou quando, há cerca de três meses, começaram a fazer obras de restauro no prédio residencial ao lado, onde por baixo fica um balcão do BPI. Para montarem os andaimes, e procederem à reabilitação do edifício, os empreiteiros tiveram que aceder ao palacete abandonado, abrindo o portão lateral virado para a Avenida da República. Todas as manhãs era aberto, todas as tardes era fechado.

De olho naquelas movimentações, Francisco começou a ficar atento ao portão. Quem sabe um dia alguém se esquecesse dele aberto. Era um jogo de probabilidades difícil, mas aconteceu. A 26 de fevereiro, alguém se esqueceu de trancar o portão.

“Foi mesmo uma coisa casual. Dois amigos tinham chegado a Lisboa nessa tarde e andavam a passear pela Avenida da República quando se aperceberam de que o portão estava aberto”, conta à MAGG.

Eram 18 horas e os empreiteiros já não estavam no local. Os amigos, também fotógrafos de locais abandonados, ligaram para Francisco e, depois de um telefonema para um terceiro, combinaram que aquela seria a noite em que o palacete na Praça Duque de Saldanha voltaria a receber visitas. Às 21 horas, armados com lanternas e máquinas fotográficas, encontraram-se junto ao portão. E sim, continuava aberto.

Francisco não se pode identificar porque o edifício é propriedade privada — por muito que tenha agido por amor à fotografia, a invasão é considerada crime. Em exclusivo para a MAGG, porém, conta tudo o que viu e revela as fotografias extraordinárias de um palacete que ficou esquecido no tempo.

A história desta casa remonta a 1910

Quem passa pelo palacete na Praça Duque de Saldanha, que faz esquina com a Avenida da República, não é capaz de lhe ficar indiferente. Das varandas às colunas, sem esquecer as varandas ou os arcos, o projeto é um dos raros exemplos da arquitetura do início do século XX que ainda hoje perdura na cidade.

Infelizmente, talvez não seja assim durante muito mais tempo. Fechado há quase 30 anos, os últimos registos da sua utilização remontam a 1989, quando José de Sousa Cintra fez campanha para chegar à presidência do Sporting Clube de Portugal. Três anos antes, mais precisamente a 9 de março de 1986, foi desta varanda que Mário Soares celebrou a conquista da Presidência da República, perante uma multidão eufórica. Agora, está devoluto, consumido pelo tempo e, garante o fotógrafo, pode não aguentar muito mais tempo sem uma intervenção.

As obras mais conhecidas do arquiteto José Luís Monteiro

— Decoração do edifício da Câmara Municipal de Lisboa (1887-1891)
— Diversos coretos para o Jardim de São Pedro de Alcântara e Avenida da Liberdade
— Projeto do Liceu Passos Manuel
— Projeto do Parque Eduardo VII (em colaboração com Frederico Ressano Garcia)
— Hotel Avenida (Hotel Avenida Palace pelo menos desde 1933)
— Palacete de veraneio dos Condes de Tomar, Cruz Quebrada
— Casa da rainha D. Maria Pia no Estoril

Mas comecemos esta história pelo início, porque é assim que todas as histórias devem começar. Neste conto, o “Era uma vez” remonta a 1907, altura em que começou efetivamente a ser construído. Depois de uma troca de mãos — o terreno era propriedade de Maria Luiza Salazar Correia mas, após a morte do marido, e estando o prédio ainda nos alicerces, foi comprado por Engrácio Supardo —, o arquiteto José Luís Monteiro iniciou o projeto.

Ficou terminado em 1908. Em vias de classificação, reúne elementos da arquitetura residencial eclética, combinando elementos de inspiração classicizante, neo-renascentista, neo-maneirista e Arte Nova.

Escreve a Câmara Municipal de Lisboa: “Na sua fachada merecem destaque: os atlantes que suportam as varandas do segundo piso; o revestimento azulejar policromático e o trabalho de ferro forjado em malha sinuosa do corpo de menor dimensão; a porta principal, em arco de volta perfeita, com emolduramento em cantaria, ladeada por duas colunas rematadas por capitéis compósitos e encimada por frontão em arco abatido, decorado no tímpano com temática vegetalista; e o recurso ao festão como elemento decorativo do conjunto, localizado no piso superior e no vértice do edifício, composto por dois óculos e três janelas, que se abrem para varanda de planta semicircular e balaustrada.”

Na foto, Helena Rubinstein

De uma casa residencial passou para um cabeleireiro. Só que não era um cabeleireiro qualquer — foi este o local escolhido para abrir um salão de Helena Rubinstein, considerada pioneira na indústria de beleza.

Helena Rubinstein foi uma mulher de estreias. A primeira máscara de pestanas à prova de água? É dela. O primeiro creme anti-envelhecimento puro retinol? Também. O primeiro creme de hidratação consoante o tipo de pele, anti-acne ou cuidados com o sol? Ela, ela, ela.

O primeiro salão abriu em 1902, o Valaze House of Beauty, em Londres. Era esse o objetivo: conquistar primeiro Londres, depois a Europa, depois então o mundo. Seguiu-se Paris, depois o Brasil e os Estados Unidos.

Sobre a estadia em Portugal não há grandes registos, mas foi no rés-do-chão do edifício que se manteve durante alguns anos. A sua presença foi de tal forma importante que ainda hoje há quem conheça este local como o edifício Helena Rubinstein.

A vitória de Mário Soares celebrou-se neste palácio

Ninguém sabe ao certo os caminhos que fez até chegar aos dias de hoje, mas neste momento encontra-se esquecido pelo tempo. Na década de 80, porém, ouviu-se muito falar neste palácio. Foi aqui que foi montada uma das sedes do Movimento de Apoio Soares à Presidência (MASP), e onde Mário Soares celebrou a vitória a 16 de fevereiro de 1986.

No dia seguinte, escreveu o “Diário de Notícias”, Soares disse uma das suas frases mais emblemáticas: “Serei o Presidente de todos os portugueses”. Passavam poucos minutos das 23 horas, e o Presidente recém-eleito discursava para os jornalistas na sede do MASP no Espaço Valbom.

A vitória de Mário Soares

As celebrações aconteceram um pouco por toda a cidade, “mas o grande momento da noite foi, sem dúvida, na Praça Duque de Saldanha, na outra sede do MASP, onde milhares de pessoas aguardavam Soares, que quando chegou, pela meia-noite, foi aplaudido de modo indescritível. Soares dirigiu-se à varanda e sob aplausos ensurdecedores falou: ‘Ninguém pode ter medo da nossa alegria, porque ela é pacífica, é a alegria da gente tolerante, do diálogo, da gente que sabe o preço da segurança, da ordem e da fraternidade’.”

No livro “Soares — Uma Vida”, o autor Joaquim Vieira também recordou esse dia. Escreveu: “Mário Soares assomava à varanda de um velho palacete na esquina da Praça Duque de Saldanha com a Avenida da República, em Lisboa, para ser vitoriado por milhares de apoiantes após vencer, horas antes, uma renhida batalha pela conquista do Palácio de Belém”.

Em 1989, foi também neste palacete que Sousa Cintra montou a sua campanha. Curiosamente, fez apenas seis dias de campanha mas isso foi o suficiente para vencer as eleições. Num período de grande instabilidade, arrecadou 63,6% dos votos a 1 de julho de 1989.

A polémica de 2009

Em janeiro, o Movimento Lisboa com Carmona, da candidatura de Carmona Rodrigues à Câmara Municipal de Lisboa, denunciou o mau estado do edifício. “Desde 1997 (processo municipal nº 23655/97) que esta situação é do conhecimento municipal, sem que no entanto, até esta data, o problema se encontre resolvido”, disseram, conforme ainda se pode ler no blogue oficial. O proprietário do palacete permanecia sem fazer as obras necessárias, apesar de, em 2006, ter sido ameaçado com um processo de contra-ordenação.

“Não obstante o agravamento evidente do estado do edifício, de que constituem prova, por exemplo, os sucessivos pedidos de intervenção do Regimento de Sapadores Bombeiros por inundação do imóvel em momentos de maior pluviosidade, nem o proprietário do imóvel, nem a Câmara Municipal de Lisboa, por via de posse administrativa do imóvel, executaram até esta data qualquer das obras que se exigem.”

Os vereador do movimento propunham então à câmara que desencadeasse “os procedimentos necessários à tomada de posse administrativa do imóvel sito na Praça do Duque de Saldanha, nº 28 a 30, tornejando para a Av. da República, nº 1, tendo a vista a execução urgente, pela via coerciva, das obras destinadas à correção das anomalias detetadas nas vistorias já efetuadas.”

Em fevereiro, a Câmara Municipal de Lisboa rejeitou a proposta, alegando “a falta de uma situação financeira que o permita, bem como num suposto procedimento que iria constituir precedentes indesejáveis.”

Da maqueta de um arquiteto aos cartazes de Mário Soares e Sousa Cintra, é este o estado atual do palácio

“Não ia haver muito mais oportunidades de fotografar aquele palacete”, explica à MAGG Francisco. “Portanto, combinámos encontrarmo-nos às 21 horas. Se o portão ainda estivesse aberto, entrávamos e fazíamos o nosso trabalho fotográfico”.

O sótão está prestes a abater. Meteram umas vigas para tentar segurar o sótão, mas não sei quanto tempo é que aquilo vai aguentar”.

Ainda estava aberto. Às 21 horas em ponto, quatro homens, todos fotógrafos de locais abandonados, entraram pelo portão lateral “sem qualquer dificuldade”. Nas traseiras do palácio, acederam ao palacete por uma marquise “toda partida”. “Foi muito fácil aceder ao palacete, foi basicamente caminhar.”

Francisco ficou surpreendido com o estado do edifício Helena Rubinstein. Extremamente degradado, muitos tetos já cederam e a escadaria principal em caracol, que o fotógrafo se recorda de ver em miúdo, não existe mais. “O sótão está prestes a abater. Meteram umas vigas para tentar segurar o sótão, mas não sei quanto tempo é que aquilo vai aguentar”.

Os fotógrafos visitaram o local durante cerca de uma hora — além de ser de noite, e a única iluminação que tinham advir das lanternas, o estado devoluto do edifício tornava a visita perigosa. Francisco ainda espetou um prego no pé, conta com um sorriso, que logo esmorece para acrescentar: “Está num estado ruinoso, e acho que as minhas fotos mostram isso”.

Além do entulho, lixo e ornamentos, teto e chão destruídos pelo tempo, os fotógrafos encontraram ainda muitos vestígios do Sporting — faz sentido, tendo em conta que foi a sua última grande utilização conhecida. Das faixas aos cartazes da campanha de Sousa Cintra, restam muitos elementos que mostram a passagem do sportinguista pelo local.

“Tenho uma foto muito gira em que se veem os autocolantes do Sousa Cintra nos azulejos, mas por trás consegue ver-se os autocolantes do Mário Soares. Estão ali as últimas duas vezes que o palácio foi utilizado”.

A campanha de Mário Soares e Sousa Cintra confunde-se nas paredes do palacete

Na cave da casa, Francisco também encontrou vestígios da passagem de um arquiteto, nomeadamente maquetas de prédios. “Vi lá o nome de um arquiteto, que não me recordo agora do nome, mas notei que ele deve ter trabalhado ali. Não sei o que aconteceu, mas aquilo ficou tudo na cave”.

Os fotógrafos também se depararam com diários municipais. “Há vestígios de algumas passagens pelo palácio, mas essencialmente do Sousa Cintra. Foi o que encontrámos mais.”

Francisco só não conseguiu entrar no cabeleireiro Helena Rubinstein, que durante muitos anos funcionou no rés do chão do palacete — as portas estavam trancadas.

Veja as imagens do estado do edifício.

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