É talvez um dos casos mais mediáticos dos últimos anos que pareceu ficar resolvido em 2005, quando Michael Jackson foi absolvido de todas as acusações de abuso sexual de menores. Porém, um novo documentário vem reacender a discussão ao mostrar depoimentos de duas pessoas que, apesar de terem defendido o músico em tribunal, acusam-no agora de violação e de terem sido obrigados a mentir durante anos.

Falamos de “Leaving Neverland”, o documentário polémico que já levou a família do músico a reagir e a processar a HBO devido a uma violação no contrato. Em causa está aquilo que a produção está a mostrar sobre a vida de “alguém que já não está aqui para se defender”, como explicou um representante da família do rei da pop.

Numa entrevista exclusiva ao “The Telegraph”, o realizador Dan Reed (“The Paedophile Hunter”) diz não ter dúvidas de que agora vai ser preciso “reavaliar a forma como olhamos para Michael Jackson.”

“A mentira que Jackson manteve enquanto era vivo, que defendia ser um grande defensor das crianças, e a forma feroz como todos o defenderam, só significa que a sua queda vai ser muito mais dolorosa. As pessoas vão ter de ouvir a sua música sabendo que ele era um prolífero violador de crianças”, revela.

Camas escondidas, casamentos a fingir e vidros espelhados. Assim era o rancho de Michael Jackson

Depois de se saber que Neverland, o rancho privado e luxuoso do cantor, estava repleto de camas escondidas e compartimentos com vidros espelhados, há mais revelações chocantes sobre o documentário que estreou no domingo, a 4 de março, nos Estados Unidos na HBO. Esta segunda-feira estreia a segunda e última parte.

“Leaving Neverland” só chega à HBO Portugal na próxima sexta-feira, 8 de março, mas a MAGG já viu o documentário e mostra-lhe como o músico terá manipulado as crianças e as suas famílias para, alegadamente, tirar proveito delas sem que nunca alguém o apanhasse.

Michael Jackson isolava as crianças dos pais

Segundo James Safechuck, 40 anos, uma das alegadas vítimas, as violações começaram desde muito cedo quando ele tinha apenas 7 anos. Depois de ter sido selecionado para um anúncio de publicidade da Pepsi onde tinha de dançar com o cantor, os dois foram ficando cada vez mais próximos e Safechuck recorda uma relação normal até ao momento em que Jackson o ensinou a masturbar-se.

“Ele preparou aquilo tudo ao dizer que me ia mostrar uma coisa que toda a gente fazia e adorava. De certa forma, fez-me sentir como se estivéssemos a criar um laço forte. Foi o início de uma relação sexual como as que existem entre casais”, conta no documentário.

A história de Wade Robson, 36 anos, é semelhante e o contacto com Michael Jackson começou quando o pôde conhecer depois de um concerto em Brisbane.

Em 1990, os dois voltaram a encontrar-se durante as férias em Los Angeles, Estados Unidos, e terá sido aí que o cantor convenceu a mãe de Robson a deixar o filho consigo enquanto o resto da família ia visitar o Grand Canyon.

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Foi nesse momento, segundo revela Robson em “Leaving Neverland”, que Jackson o beijou e lhe fez sexo oral. “Eu e tu fomos juntos através de Deus. Fomos feitos para estar juntos e é desta forma que demonstrarmos amor”, terá dito o cantor.

Mas à medida que a relação com as crianças se tornava cada vez mais próxima, os pais deixavam de ter acesso aos filhos. É que apesar de o músico permitir que eles viajassem com a família durante longas tournées, ficavam sempre em quartos separados nos hotéis.

No rancho Neverland, podia acontecer dormirem em pisos diferentes ou numa casa de hóspedes — que ficava muito longe do quarto onde Michael Jackson e as crianças dormiam.

Joy Robson, mãe de Wade Robson, revela no documentário que o afastamento com o filho começou de forma gradual depois de um pedido do músico para que ela deixasse o filho viver com ele durante um ano. Apesar de ter recusado, o artista argumentou que aquela mudança iria trazer “muitas coisas boas à carreira do filho”, que era dançarino.

“Podia trabalhar com ele e podíamos fazer muitas coisas juntos. Seria maravilhoso para ele se pudesse ficar aqui [em Neverland] comigo”, terá dito o cantor a Joy.

Chegava a manipular as famílias para que confiassem nele

“Leaving Neverland” mostra também como Michael Jackson se aproximava da família das crianças que escolhia para ter ao seu lado. A ideia passava por levá-los a confiar em si ao ponto de ninguém questionar a proximidade entre o músico e os miúdos.

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Joy Robson e Stephanie Safechuck admitiram que, durante muitos anos, sentiram como se Michael Jackson fosse filhos deles. Além de os visitar, jantar com eles e os convidar para vários eventos e concertos, o músico fazia ainda questão de lhes comprar presentes caros.

A irmã de Robson diz que, a certa altura, Michael Jackson a levou a sair e entrou com ela em lojas luxuosas. “Podes escolher tudo o que quiseres”, disse-lhe.

Segundo a família das duas alegadas vítimas, era assim que Michael Jackson conseguia fazer o que queria com as crianças sem nunca levantar suspeitas — já que não havia nada no seu comportamento que denunciasse um segredo obscuro.

Michael Jackson fazia jogos com Safechuck para evitar ser apanhado em flagrante

Quer estivessem em hotéis ou em Neverland, Safechuck conta que o cantor fazia jogos estranhos com ele que, agora percebe, tinham um significado muito importante para o músico.

Era uma espécie de desafio em que Michael Jackson se fazia passar por outra pessoa e fazia de conta querer entrar no quarto. Enquanto isso, Safechuck, que estava totalmente nu, teria de se tentar vestir o mais rapidamente possível sem fazer barulho. O objetivo? Evitar que alguém visse o que Michael Jackson fazia com ele.

“Não ser apanhado tornou-se numa parte fundamental daquela relação. Era um segredo. Ele dizia-me que se alguém descobrisse, as nossas vidas acabavam. Era uma coisa que ele repetia várias vezes nos vários encontros que tínhamos”, conta.

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A experiência de Robson foi muito semelhante e, no documentário, conta como Jackson lhe disse muitas vezes que se alguma vez fossem apanhados “seriam afastados um do outro e nunca mais se poderiam ver.”

Robson viu-se substituído por Macaulay Culkin

Macaulay Culkin, a estrela de “Sozinho em Casa”, foi uma das crianças que viveu com o rei da pop no rancho Neverland e que o defendeu em tribunal em 2005.

Segundo Robson, a aproximação dos dois despertou-lhe vários sentimentos de revolta e ciúme ao ver que tinha sido substituído por outra criança. O videoclipe da canção “Black or White”, lançado em 1991, conta com a participação de Culkin mas Robson diz que era para ser ele a dançar com Michael Jackson — mas que tal nunca aconteceu porque depressa foi relegado para segundo plano.

“O Macaulay estava onde eu já estive. Sempre ao lado de Michael em todos os momentos e, na altura, eu fui posto de parte e já não era o amigo favorito do Michael. Foi uma altura muito confusa porque ele e o Michael tinham uma ligação especial, tal como eu tinha. Senti muitos ciúmes, dor e confusão”, revela.