Foi em 2014 que o primeiro serviço de transporte privado, a funcionar por aplicação móvel, chegou a Portugal. A Uber, multinacional americana fundada em 2009, abriu portas ao maravilhoso mundo em que os carros não estão assinalados, em que não há troca de moeda e em que é possível ver, num mapa, a posição exata do motorista — a quem também é possível ligar e mandar mensagens.

Passado seis anos, podemos dizer que chamar um carro a partir do telemóvel passou a ser banal. Tanto é que, conforme o hábito se foi enraizando, mais serviços semelhantes foram surgindo. Hoje, temos também opções como a Cabify, Taxify ou a Chauffeur Privé.

Agora, pergunta para queijinho: qual é o melhor? Provavelmente já debateu o tema com os seus amigos — aqueles que só utilizam uma das apps ou os que têm todas instaladas —, mas o assunto foi encerrado, com todos os intervenientes a cederem pelo cansaço. Não é uma discussão fácil. Afinal, na equação devem ser considerados vários critérios: o tempo que demora a chamar o carro, o tempo que demora a chegar o motorista, o tempo que demora a chegar ao destino, o preço e ainda a simpatia.

Os cronómetros dos quatro jornalistas foram sempre a contar

Foram estes mesmos indicadores que foram analisados por quatro jornalistas da MAGG. Cada um chamou, exatamente à mesma hora, um motorista de um dos quatro serviços. Com partida em Alvalade, rumámos todos às Amoreiras. De lá, trouxemos-lhe as respostas.

Uber (Fábio Martins)

Se quando foi lançada em Portugal, em 2014, era a plataforma que dominava o mercado, desde então que tem vindo a perder a qualidade por que ficou conhecida. A Uber é a única aplicação de ridesharing que faço questão de não utilizar nas minhas viagens regulares. Já me aconteceu de tudo: desde encontrar motoristas semi-nus a carros completamente nojentos, ou que nem sequer deviam estar em circulação.

Tenho para mim que a popularidade que a plataforma foi ganhando ao longos dos tempos colocou em causa os critérios de admissão de motoristas. Neste desafio calhou-me a Uber, e aquela que era suposta ser uma viagem tranquila e simples, teve a sua dose de percalços durante os 11 minutos em que me vi obrigado a estar dentro do carro.

Os problemas começaram logo ao início. É que apesar de não ter havido oferta de bebidas ou rebuçados, o motorista disponibilizou-me todas as entradas de USB do carro para que pudesse carregar o telemóvel. Eram três e nenhuma delas funcionava.

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O segundo problema foi com o trajeto. É que apesar de ter demorado apenas 11 minutos, quando a aplicação previa uma viagem de 20, o condutor enganou-se no caminho, obrigando-nos a seguir pelo Saldanha naquela espécie de jogo divertido e entusiasmante do para-arranca.

A justificação para o engano? Duas pessoas negras montadas em trotinetes da Lime. “Se para usar aquilo [as trotinetes] é preciso cartão de crédito, como é que os pretos conseguem?”. Como não amar aquela dose de racismo diária, não é verdade? Ganhou o prémio de momento mais desconfortável do dia, e o resto da viagem foi feita em silêncio enquanto o senhor fazia questão de reclamar com os restantes condutores que circulavam mais devagar. Onde é que já se viu querer conduzir de forma segura num dia chuvoso como o desta quarta-feira, 30 janeiro? Parvos, mesmo.

No final, e já em frente ao Amoreiras, agradeceu com um sorriso e prometeu voltar a ver-me numa das mais de muitas viagens que faz por dia. Da minha parte, terá sido a primeira e última vez em 2019 que utilizo a Uber.

Quanto tempo até dizer que o motorista vinha a caminho: 13 segundos
Quanto tempo até o motorista chegar: 3 minutos e 36 segundos
Quanto tempo até ao destino: 11 minutos e 30 segundos
Simpatia: 0/10
Preço: 6,29€

Cabify (Catarina Ballestero)

Calhou-me a Cabify, a única aplicação de transporte que não tenho instalada no telemóvel — e esta pequena viagem recordou-me porquê. Em primeiro lugar, não entendo como é que chamando o carro do número 7 (e com essa morada devidamente definida na app), o pin de recolha vai parar ao 13. Pior: a aplicação não me permite mudar o novo ponto de encontro. Ou se permite, eu não cheguei a perceber como é que funcionava.

Mesmo assim, fico atenta à chegada do carro e, apesar dos meus enérgicos acenos, o motorista segue para o número mais à frente. Sem problema, as pernas são para andar, por isso lá fui eu atrás do carro. Esta situação não teria qualquer drama associado não fosse o facto de estar a chover a potes e eu ficar encharcada até aos ossos enquanto perseguia aquele Mégane Preto.

Sim, perseguia. Porque apesar de continuar a acenar, o motorista resolve arrancar para dar mais uma volta ao quarteirão (não faço ideia porquê) assim que estou prestes a chegar ao carro. Debaixo da mesma chuva, regresso para me abrigar à porta da redação, super atenta ao telemóvel, e quase me coloco no meio da estrada para o conseguir parar da segunda vez.

Segredos e truques que provavelmente desconhece da Uber, Cabify e Taxify

Missão cumprida: estou dentro do carro, a caminho das Amoreiras. Mas deixem-me que vos diga que longe vão os tempos áureos em que os motoristas destas apps nos faziam sentir membros de uma qualquer elite. Já não há água para ninguém, não me ofereceram nenhum rebuçado, e muito menos perguntaram se a temperatura do carro ou a estação de rádio estavam ok. É certo que o motorista mudou a estação das notícias para o que me pareceu ser a Smooth FM, mas sejamos honestos, o tempo das mordomias acabou.

Depois de 17 minutos de viagem (o tempo estimado inicialmente era de 15 minutos), cheguei finalmente às Amoreiras, sem nunca ouvir uma palavra do motorista a não ser um carrancudo “boa tarde” no final da viagem. Mas, desta vez, fiquei à porta e não precisei de apanhar chuva.

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Quanto tempo até dizer que o motorista vinha a caminho: 1 minuto e 3 segundos
Quanto tempo até o motorista chegar: 6 minutos e 27 segundos
Quanto tempo até ao destino: 17 minutos e 25 segundos
Simpatia: 2/10
Preço: 6,88€

Taxify (Ana Bernardino)

Não houve oferta de garrafa de água, rebuçados, revistas e ninguém perguntou a preferência pela rádio. Mas nada disso importa quando a conduzir o carro vai um motorista educado e simpático, de seu nome Carlos. As interações foram curtas, mas parece ser um tipo impecável, pelo menos naquilo que se refere ao seu trabalho. No final não houve dúvidas: merecidas as cinco estrelas.

Mas recuemos ao início do processo: a aplicação da Taxify — que nunca tinha utilizado — é simples e intuitiva, sendo da minha inteira responsabilidade o facto de ter demorado quase dois minutos a conseguir chamar o carro.

Os quatro jornalistas chamaram os motoristas ao mesmo tempo. O ponto de partida foi a Rua João Saraiva, em Alvalade, e o de chegada as Amoreiras

O ponto menos positivo foi referente ao tempo de espera: a aplicação indicava uma distância de apenas um minuto, mas o motorista demorou quatro a chegar. Por outro lado, parou à porta do local de recolha, no sítio certo, o que é coisa rara nisto das aplicações de transporte.

O caminho fez-se calmamente, sem buzinas, sem insultos, sem indícios da paciência a extinguir-se, sintoma comum de quem guia. Carlos chegou ao destino com pouco mais de um minuto de atraso, o que não é dramático, sobretudo se considerarmos que o dia é de chuva e Lisboa entope com facilidade. O caminho que escolheu foi surpreendente: de Alvalade seguiu para Entrecampos, apanhou o Eixo Norte-Sul, passou ao lado de Monsanto e entrou na via que dá acesso às Amoreiras, assim como quem vem da A5. O preço também foi simpático: 6,15€.

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Quanto tempo até dizer que o motorista vinha a caminho: 1 minuto e 57 segundos
Quanto tempo até o motorista chegar: 4 minutos e 19 segundos
Quanto tempo até ao destino: 15 minutos e 26 segundos
Simpatia: 9/10
Preço: 6,15€

Chauffeur Privé (Marta Cerqueira)

Desde que a Chauffeur Privé chegou a Portugal, nunca mais usei outra aplicação. Não apaguei as outras, porque nunca se sabe quando é acordam para a lei do mercado e se lançam nos descontos assim que se aperceberem que esta empresa com nome fancy é, de facto, aquela que costuma levar os lisboetas do ponto A ao ponto B de forma mais barata.

Com esta aplicação, o preço não varia com o estado do trânsito e isso é um ponto favor em dias de mau tempo. É que quem vive em Lisboa sabe que meia hora de chuviscos nesta cidade equivale a uma tempestade tropical nas Filipinas, com direito a uma Alcântara inundada e mais ambulâncias do INEM a circular do que numa noite de queima das fitas.

Com este cenário em mente, saí para a rua já de telemóvel na mão, para agilizar o processo. Chamei o carro eram 13h22 e, em poucos segundos, tinha a indicação de que, em dois minutos, a Vanda S. estaria à porta.

Os dois minutos transformaram-se em quase cinco, mas nada que Vanda S. não tivesse compensado pelo caminho. A aplicação sugeria que o trajeto entre Alvalade e as Amoreiras demoraria 16 minutos, mas em 14 minutos e 31 segundos já eu tinha atravessado a cidade.

Não houve direito a água, rebuçados, revistas, nem mesmo a um “a rádio é do seu agrado?”. Levei com a Antena 2 o caminho todo, com respostas curtas às minhas tão adoradas tentativas de saber mais um pouco sobre a história de cada motorista que me calha na rifa mas, no final, Vanda S. despede-se com um “tudo de bom para si” dito com emoção. Cinco estrelas para a Vanda e para os trocos que poupei nesta viagem.

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Tempo até dizer que o motorista vinha a caminho: 1 minuto
Tempo até o motorista chegar: 4 minutos e 58 segundos
Tempo até ao destino: 14 minutos e 31 segundos
Simpatia: 7/10
Preço: 6,20€

Então e afinal quem é que ganha?

No que diz respeito ao preço, o primeiro lugar vai para a Taxify: a viagem custou 6,15€. Foi a aplicação que ofereceu o percurso mais barato, sem descontos e promoções ao barulho. Logo a seguir ficou a Chauffeur Privé, que só custou mais 0,05€ (6,20€).

Nos três critérios relacionados com o tempo, porém, a grande vencedora foi a Uber — foi a mais rápido a colocar um motorista a caminho, a chegar ao ponto de encontro e por fim ao destino final. Ainda assim, esta só é uma boa opção para quem dispensa simpatia. A Uber foi a que obteve a pior nota neste campo, com os primeiros lugares atribuídos à Taxify e Chauffeur Privé.