Anna tirou esta comida toda do lixo — estava “estragada”

Há supermercados a deitar comida fora, ainda que boa para consumo. Anna recolheu legumes suficientes para si, para os amigos e vizinhos.

Na foto contamos 35 alhos franceses e 21 cocos. Tudo em condições para consumo.

Com o que tirou do lixo no sábado, 26 de janeiro, Anna Masiello já fez um estufado de legumes, uma sopa de brócolos e alho francês, um bolo de banana, manteiga e leite de coco, arroz com abóbora e pimentos e nas próximas semanas, se conseguir que durem até lá, não vai precisar de comprar fruta. E e por isso que a palavra lixo do título está entre aspas.

Anna é italiana, tem 25 anos e está em Portugal a tirar um mestrado em estudos do ambiente e da sustentabilidade. Entretanto, dedicou a sua conta pessoal no Instagram à luta pelo desperdício zero. Está, por isso, mais sensível às questões ligadas à forma como o lixo é tratado em Lisboa e aceitou o desafio dos colegas de casa de fazerem uma ronda para ver aquilo que os supermercados põem na rua para ser levado pelos serviços de limpeza.

Ainda que tenham encontrado vários sacos de comida na rua, perceberam, em contacto com funcionários dos supermercados, que existem dias fixos nos quais esses produtos são postos na rua de maneira a serem levados pelos serviços de limpeza. “Decidimos, por isso, voltar no dia seguinte, sabendo que aí íamos apanhar tudo antes que o camião do lixo passasse”, explica.

O alvo dessa noite foi o Miosótis, um supermercado onde são vendidos apenas alimentos biológicos. De lá trouxeram quilos e quilos de maçãs, laranjas, abóboras, alho francês, brócolos, pimentos, tomates, cocos, pão e sobremesas sem glúten. “Não faço ideia das quantidades, mas ainda fui a tempo de contar 35 alhos franceses e 21 cocos”, refere, lembrando o caminho tortuoso até casa, com paragens forçadas tendo em conta o peso dos sacos.

Depois do choque inicial de perceber que tudo aquilo iria para o lixo, Anna e os colegas decidiram publicar nas redes sociais fotografias do que tinham conseguido resgatar do lixo para que pudesse ser partilhado com quem quisesse. “Recebemos a visita de vizinhos, cozinhámos tudo o que conseguimos mas, mesmo assim, é difícil não deixar que alguma coisa se estrague tendo em conta esta quantidade absurda”, conta Anna, que está já a pensar numa forma de fazer algo contra este desperdício alimentar. “É inadmissível que isto continue a acontecer”.

Que fim têm os legumes e frutas dos supermercados?

Neste caso, Anna resgatou produtos do lixo da Miosótis, quando, segundo o gerente explica à MAGG, esse é mesmo o último recurso.

O facto de terem um restaurante inserido no supermercado faz com que tudo o que já não seja apetecível ao público seja aproveitado para as refeições. “É normal que uma couve flor, se tiver umas folhas amareladas, já não seja escolhida pelo cliente. O que não quer dizer que não esteja boa. O que fazemos é retirar essas folhas estragadas e usamos o resto como ingrediente”, refere Pedro Barroso.

A proibição de vender produtos fora do prazo de validade faz com que o supermercado acabe por doar a instituições os produtos frescos, como os lácteos, assim que se aproximam da data final. Quando a indicação é de “consumir de preferência até”, aí continuam à venda, com uma etiqueta própria e com um desconto que pode chegar aos 50%.

Ainda que com estes cuidados, há produtos que acabam por não ser vendidos nem reaproveitados no restaurante. Nesse caso, os legumes e fruta são doados para consumo animal, lembrando que, mesmo assim, há produtos que acabam por ir para o lixo. Mesmo assim, esses sacos — como aquele que Anna encontrou —, são identificados com uma etiqueta verde e não são misturados com produtos impróprios para consumo para que, quem quiser, possa aproveitar.

Também o Bio Mercado, em Lisboa, aproveita o facto de ter um espaço de restaurante para usar aquilo que à partida iria para o lixo. Isabel Vidal, supervisora de loja, explica que há legumes e frutas que, por não terem o melhor dos aspetos, acabam por não ser escolhidos pelos clientes. “São esses que aproveitamos como ingredientes. Uma maçã, por ter um lado amassado, não tem que ir para o lixo e, no restaurante, depois de retirada essa parte, serve para sumos ou saladas de frutas. O mesmo acontece com as folhas amarelas dos espinafres, que são retiradas para que as boas possam ser usadas numa sopa, por exemplo”.

Ainda assim, o que não é aproveitado para refeições acaba por ir para o lixo e, neste caso, é posto em contentores com cadeado, uma opção da Câmara Municipal e não do supermercado, como nos explica a responsável. “O cadeado serve, por um lado, para evitar que a comida se espalhe se o contentor cair e, por outro, para evitar que a comida seja retirada por mendigos”, acrescenta.

O mesmo acontece com os produtos deitados ao lixo pelos supermercados Go Natural. Ainda que nem todos os supermercados usem cadeados, os legumes e fruta não são colocados de forma separada e acessível a quem os queira aproveitar e fazem parte do lixo orgânico a ser recolhido pelos serviços de limpeza da Câmara Municipal, explica à MAGG Marisa Almeida, diretora de Operações Healthy Nutricion Retail do grupo.

A responsável garante que os produtos vão para o lixo “por critérios de qualidade e segurança alimentar e não por critérios relacionados com aspetos estéticos ou de calibre”. Além disso, parte dos que podem ser ainda consumidos são doados a instituições de Solidariedade Social.

Reaproveitamento de comida

Ainda que a Go Natural garanta que a decisão de deitar um produto ao lixo parta da qualidade e não do aspeto, falta perceber o que acontece no processo de escolha do que vai fazer parte das prateleiras dos supermercados.

Nesse caso, a Fruta Feia veio lembrar que é muitas vezes o aspeto, e não a qualidade, que dita aquilo que é posto ou não à venda. Esta cooperativa salvou, desde que foi criada há quase seis anos, mais de mil toneladas de hortícolas que teriam como destino o lixo pela sua aparência.

Atualmente, a Fruta Feia tem uma rede de 158 agricultores como parceiros, que conseguem assim escoar as frutas e legumes que não são aceites pelos supermercados convencionais por não terem o peso ou o aspeto esperado. Esses produtos são acondicionadas em cabazes e vendidos em vários pontos do País.

Outra dos projetos que mais veio mexer na ferida do desperdício alimentar em Portugal partiu de quem nos via de fora. Hunter Halder, um alemão a viver em Lisboa, decidiu que não fazia sentido continuarmos a deitar comida fora com tanta gente a precisar. A Refood, que começou em 2010 com uma pessoa de bicicleta a recolher comida nos restaurantes, transformou-se num grupo de sete mil voluntários e mais de dois milhões de refeições servidas só no ano passado com os “desperdícios” dos restaurantes e supermercados de Portugal.

A luta contra o desperdício tem vindo a tomar várias formas em Portugal e, tal como acontece no Miosótis, e também na rede da Soane, são já vários os supermercados a etiquetar com preços mais baixos os alimentos com datas de validade próximas do fim, para que sejam escoados mais rapidamente.

No entanto, há um supermercado que foi mais além e se dedicou a vender apenas produtos próximos do prazo de validade ou até com essa data já ultrapassada — a Good After.

A lei criou duas datas, uma indicada normalmente pelas palavras “consumir até” e que corresponde à data a partir da qual os produtos não podem ser consumidos ou comercializados. Fala-se aqui de carne, peixe, iogurtes e todos os outros frescos que, por razões óbvias, não fazem parte do menu da Good After.

Já a expressão “consumir de preferência até” abre o leque a que este supermercado com sede no Porto, mas que vende online para todo o País, tenha as prateleiras cheias de produtos bons para consumo. É que a estes juntam-se ainda todos aqueles não comestíveis, como champôs ou produtos de limpeza que, por serem descontinuados pela marca ou por terem uma nova imagem, deixam de fazer parte das prateleiras dos supermercados. Mas, garantimos, continuam a limpar.

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