Livro. Qual é a principal causa de morte antes dos 44 anos?

E devemos tomar diariamente uma aspirina? Em “Faz Bem ou Faz Mal?”, uma médica de Harvard analisa os principais mitos da saúde.

A cirurgiã Nina Shapiro, da Harvard Medical School, analisa os principais mitos da saúde

Ali Marel/Unsplash

Os superalimentos existem mesmo? E há algum truque contra o envelhecimento que não seja um mito? Qual a principal causa de morte antes dos 44 anos? Em “Faz Bem ou Faz Mal?”, a cirurgiã Nina Shapiro, da Harvard Medical School, analisa os principais mitos da saúde. Nas livrarias a partir de 23 de janeiro, o livro editado pelo Clube do Autor promete tirar dúvidas e esclarecer mal-entendidos.

Até porque o que não falta por aí são mitos. Ora vez: alguma vez ouviu dizer que faz bem tomar uma aspirina por dia? Bem, é verdade? E a homeopatia? Tem algum mérito ou é tudo um efeito placebo? “Faz Bem ou Faz Mal?” responde a esta e outras questões. A MAGG mostra-lhe 6 mitos que pode desmistificar já.

Há algum truque contra o envelhecimento que não seja um mito?

“Desde tempos imemoriais que os humanos buscam formas para parecer e sentir-se mais jovens, ainda que temporariamente, com riscos e custos. A fonte da juventude – uma nascente natural que devolve a juventude a quem beber da sua água ou nela se banhar – foi mencionada pela primeira vez no século V a. C. Nos tempos medievais, as mulheres branqueavam a pele com pasta de chumbo. Durante o Renascimento, Catarina de Médicis usava excremento de pombo no rosto para conseguir uma cútis fresca e rejuvenescida. Já Mary, rainha dos escoceses, tomava banho em vinho para manter um ar jovem e fresco. Hoje em dia, algumas pessoas vão à faca ou injetam-se com toxina botulínica para fazer o relógio andar para trás. O número de spas médicos, híbridos de clínicas médicas e spas tradicionais, mais do que quadruplicou nos Estados Unidos desde 2007.

Talvez nenhuma indústria nos tenha iludido tanto ou levado mais do nosso dinheiro do que o negócio do antienvelhecimento. A propaganda aos remédios miraculosos e terapias contra o envelhecimento continua livremente, apesar de muitos destes produtos não terem efeito duradouro. Creme reafirmante. Preenchimento de rugas. Antirrugas. Bandas adelgaçantes. Peelings químicos. Injetáveis. Implantes. Mito. Mito. Mito. Alguns cremes hidratantes cobiçados, que tendem a manter os seus componentes «secretos», custam centenas de dólares por menos de 60 gramas.

Para falar verdade, algumas destas coisas resultam, mas a palavra-chave (e eu quero dizer tanto literal como figurativamente) é temporariamente e, por vezes, de modo ilusório. Os peelings químicos eliminam a camada (ou camadas, dependendo de quão profundo se atue) de pele seca, morta e enrugada, dando lugar a uma pele fresca, luminosa e jovem. Quando jovem cirurgiã, procedi frequentemente a dermabrasões, utilizando um instrumento misto de broca odontológica e lima elétrica para as unhas dos pés para eliminar camadas de cicatrizes, rugas e manchas próprias da idade. O resultado era um rosto reluzente, queimado e em carne viva, semelhante ao de uma queimadura traumática verdadeira. Mas, passadas algumas semanas, voilá! Uma pele maravilhosa. Melhor dizendo, temporariamente maravilhosa, até ao regresso à realidade. As cicatrizes das marcas de acne juvenil desapareciam definitivamente, mas, no devido tempo, as rugas regressavam. Creme algum consegue reduzir as rugas; os cremes limitam-se a minimizar a aparência das rugas. Uma grande diferença.

"Faz Bem ou Faz Mal?" custa 17€

A indústria antienvelhecimento é alvo de grande atenção, quer da ciência médica (o que resulta na realidade?), quer da psicologia popular (e se pensarmos que resulta?). Vamos dar uma olhadela pelos maiores infratores na categoria dos esquemas antienvelhecimento e fraudes. Ao mesmo tempo, darei conselhos com base científica sobre como parecer e sentir-se mais jovem.

Com novos dados a mostrar que muitos dos bebés nascidos neste milénio facilmente chegarão a centenários, estamos cada vez mais predispostos a fazer o relógio andar para trás, tirar dez anos e sentirmo-nos de novo crianças. Se os 50 são os novos 40, e os 40 são os novos 30, será que estamos a envelhecer de forma diferente das gerações anteriores? A minha bisavó viveu até aos 104 anos. Nasceu em finais do século xix e teve uma vida dura. Mudou-se da Europa de Leste para Inglaterra e depois para os Estados Unidos, antes dos 25 anos. Era costureira e foi um dos primeiros membros do ILGWU (Sindicato Internacional das Trabalhadoras do Vestuário, um dos primeiros sindicatos dos EUA). Não tinha estudos e, em adulta, trabalhou sempre em fábricas. Não fazia exercício, exceto quando amassava peixe cru na banheira com um taco de basebol. Ingeria muitas gorduras e manteve-se bastante robusta toda a vida. Teve três filhos que chegaram à idade adulta e muitos que morreram antes disso. Sofreu vários abortos. O filho mais velho, meu avô, morreu aos 66 anos – a doença cardíaca, a obesidade, a hipertensão e a rutura de um aneurisma torácico precipitaram-lhe a morte. Ela viveu mais 20 anos, período durante o qual morreu o filho mais novo. A filha sobreviveu-lhe, e por pouco não chegou aos 100 anos, tendo morrido devido a um cancro raro.

Como é que esta mulher nascida há mais de um século, quando não existiam muitos dos avanços médicos de que hoje dispomos, sobreviveu à maioria dos filhos? Poder-se-á argumentar que foi graças aos bons genes e a uma vida saudável, mas será que foi na realidade algum destes casos? O marido de uma querida amiga – magro, saudável, maníaco do exercício, não fumava, fazia uma alimentação saudável, não bebia – morreu aos 37 anos em consequência de um cancro pancreático. Maus genes, mas um estilo de vida saudável? Podemos nunca chegar à resposta. Mesmo como médica, é-me impossível prever quem viverá mais e quem viverá menos. Conheci pessoas com graves problemas de saúde que arrastaram o sofrimento durante anos, enquanto outras morreram muito antes do que seria de esperar. Provavelmente, o número de pessoas com maus hábitos de vida que chega aos 90 anos é idêntico ao das que tentam viver da forma mais saudável possível e morrem prematuramente (apesar de a própria palavra prematuramente ser suspeita!).

Muitos de nós compreendem agora que cremes, loções, poções, lasers e até a cirurgia plástica não nos mantêm jovens por dentro. A expressão estilo de vida tende a estar na moda. Diminua o stresse. Desligue o smartphone. Durma. Faça exercício, mas não exagere. Coma farelo (mas não demasiado!). Durma de novo. Acorde. Vá trabalhar, mas não demasiado. O equilíbrio perfeito é sempre a meta, mas ninguém pode dizer que o alcançou. Por que razão a minha bisavó, que comia toucinho, viveu até aos 104 anos e a esbelta alma gémea da minha amiga morreu aos 37?

Uma coisa é parecer dez anos mais novo e outra ser dez anos mais jovem fisiologicamente. Não sabemos como ou quando morreremos, o que até talvez seja bom. Continuaremos a fazer o nosso melhor para parecer e sentir-nos tão jovens quanto possível, e não há nada de errado nisso.

Podemos não conseguir aumentar tanto a nossa longevidade (talvez nunca cheguemos aos 200 anos), mas podemos retardar o início da doença. Então, podemos desfrutar de mais anos de vida saudável antes de sucumbir a uma doença ou distúrbio (que oxalá acabe connosco rapidamente). Enquanto lê isto, fármacos como a metformina, o mais usado pelos diabéticos de tipo 2 e que existe no mercado há cerca de 60 anos, estão a ser testados em humanos saudáveis com o objetivo de avaliar se lhes podem prolongar os anos com saúde. E isto não é um mito. É prometedor.”

A homeopatia tem algum mérito?

“O mesmerismo está vivo e recomenda-se sob a forma não apenas da terapia do campo magnético, mas da homeopatia. Se fosse preciso dar uma definição de homeopatia, provavelmente o leitor responderia alguma coisa no sentido de medicamentos «naturais» que não necessitam de receita médica. A medicina alternativa é muitas vezes misturada com a homeopática, que tem na opinião pública uma aura de segurança. Mas, entre os diferentes tratamentos e remédios considerados medicina «alternativa», a homeopatia é a menos plausível. Neste elaborado sistema de placebos, os «remédios» não contêm qualquer medicamento real. A homeopatia foi criada por Samuel Hahnemann na Alemanha, por volta do início do século XIX. Baseou-se na ideia de que «o que é semelhante cura o que é semelhante» e na «lei dos infinitesimais». Dito de outro modo, «produtos extraordinariamente diluídos, que na sua forma original poderiam ter causado sintomas semelhantes ao da doença em questão, são administrados aos pacientes de maneira individualizada».

Os remédios homeopáticos não perderam popularidade apesar da medicina moderna (e das provas científicas contra eles). De acordo com o Inquérito Nacional de Saúde de 2012, cerca de cinco milhões de adultos e um milhão de crianças nos Estados Unidos recorreram a um medicamento homeopático nos 12 meses anteriores. Embora os fármacos homeopáticos sejam tão diluídos que não resta neles nenhum vestígio dos ingredientes ativos originais e sejam considerados seguros de um modo geral, muitos médicos (eu incluída) receiam que mesmo os preparados homeopáticos clinicamente inativos possam desviar os pacientes dos remédios convencionais eficazes. O que é pior, foram documentadas algumas consequências perigosas. Por exemplo, o Zicam Cold Remedy é um tratamento homeopático que contém doses elevadas de gluconato de zinco (também designado glucónico de zinco). É o sal de zinco do ácido glucónico. Entretanto, saiu do mercado porque o seu uso intranasal foi relacionado com a anosmia (perda do sentido do olfato).

Os medicamentos homeopáticos não estão sujeitos ao mesmo escrutínio que os medicamentos alopáticos – fármacos tradicionais que funcionam tendo efeitos opostos aos dos sintomas. Estes medicamentos «naturais» podem provocar efeitos secundários desagradáveis, interagir com a medicação que os pacientes tomam, desencadear reações alérgicas e conter substâncias inúteis ou, pior ainda, nocivas (tais como arsénico, mercúrio e chumbo). É bom beber chá de camomila para aliviar um estômago alterado, mas deve-se pensar duas vezes antes de ingerir outras ervas populares sob a forma de suplementos concentrados, tais como a matricária, a palmeira-anã, o ginkgo biloba, a equinácea e o ginseng. Tecnicamente, estes suplementos não são homeopáticos, mas são, ainda assim, reverenciados pelas suas propriedades naturais. Analisámos ao pormenor os suplementos (e vitaminas) no capítulo 7. Muitas destas ervas podem provocar hemorragias, atrasos na cicatrização e equimoses, em especial nas pessoas submetidas a cirurgia médica. Uma médica como eu tem mais probabilidades de cancelar uma operação se a paciente estiver a tomar suplementos de ervas do que se ela fumar um cigarro e tomar um uísque na sala de espera.

A primeira vez que a homeopatia suscitou críticas sérias dos médicos tradicionais foi nos anos de 1830 e 1840. O mais veemente foi provavelmente Oliver Wendell Holmes Sr., médico e poeta de Boston do século XIX, que classificou a homeopatia «uma mistura de ingenuidade perversa, erudição superficial, credulidade imbecil e distorção ardilosa». Chamou também ao potencial efeito terapêutico sobre os pacientes uma «forte impressão causada nas suas mentes por este novo e maravilhoso método de tratamento». Obviamente, referia-se à componente psicossomática dos efeitos de placebo da homeopatia. Mas Holmes também não poupou a medicina convencional, que utilizava ainda as sangrias e os eméticos. A homeopatia não desapareceria e alguns médicos tradicionais acreditavam nela.

A relação entre a medicina convencional e a homeopatia fortaleceu-se durante o século XIX, quando os homeopatas fundaram escolas de medicina e hospitais. Chamou-se aos congéneres convencionais alopatas, numa referência ao fulcro colocado pelos médicos tradicionais no uso de fármacos que tenham os efeitos contrários aos dos sintomas. E, assim como os alopatas podiam usar remédios homeopáticos na prática clínica, também os homeopatas podiam levar a cabo certos procedimentos usados habitualmente pelos médicos alopatas – incluindo a cirurgia!

Só nos inícios do século XX é que a homeopatia se tornou suspeita de um ponto de vista académico. Foi quando a medicina começou a fundamentar-se cada vez mais na ciência laboratorial, que originou uma mudança na base de sustentação da homeopatia. Os médicos ortodoxos deixaram de defender a homeopatia na sua prática. Profissionais «leigos» assumiram a promoção desta área, que se tornou ainda mais popular entre a comunidade leiga durante a contracultura da década de 1960 e daí para a frente. Nessa época, as pessoas sentiam ao mesmo tempo animosidade contra as autoridades instituídas e desilusão com a medicina convencional.

Os curandeiros dominavam o cenário por volta dos anos de 1990, deixando perplexo o establishment médico, que apenas conseguia ver na homeopatia uma fraude com potencial para lesar inocentes. O inglês Richard Dawkins, biólogo evolutivo, etologista e crítico notório da medicina alternativa, afirmou: «Não existe medicina alternativa. Existe apenas a medicina que funciona e a medicina que não funciona.» Dawkins definiu a medicina alternativa como um «conjunto de práticas que não podem ser testadas, que se recusam a ser testadas ou que repetidamente fracassam nos testes. Se se demonstrar que uma técnica de cura contém propriedades curativas em ensaios de dupla ocultação devidamente controlados, então deixa de ser alternativa, (…) simplesmente passa a ser medicina».

A falta de supervisão nos EUA remonta a décadas. Quase há 30 anos, a FDA publicou um Guia de Política de Conformidade para regular de alguma forma o mercado de fármacos homeopáticos. Este guia visava criar normas para as práticas de fabrico e rotulagem no que se referia aos ingredientes e instruções para utilização em produtos homeopáticos. Apenas os homeopatas podiam receitar fármacos homeopáticos usados para tratar estados «graves». No entanto, os medicamentos homeopáticos para situações que se resolveriam sem tratamento podiam ser de venda livre. Esta manobra não só dispensou a FDA de avaliar a eficácia dos produtos homeopáticos de receita médica, como abriu o caminho para que os remédios de venda livre pudessem ser comercializados como «terapêuticos».

Este último ponto é crucial. Ao contrário dos suplementos alimentares, explicitamente excluídos da rigorosa regulamentação da FDA em 1994, os medicamentos homeopáticos rotulados como terapêuticos podem ser regulamentados para proteger os consumidores de confusões na sua comercialização e nos seus efeitos potenciais. A regulamentação da FDA para os medicamentos homeopáticos foi tema de algumas manchetes em 2015. Em março desse ano, a FDA investigou o que a opinião pública e os médicos pensavam dos medicamentos homeopáticos. A agência quis também saber se a sua supervisão limitada era «adequada para proteger e promover a saúde pública». A FDA promoveu depois um debate público de dois dias com peritos em segurança dos medicamentos e prestadores de cuidados homeopáticos e representantes da respetiva indústria.

Em setembro, a Comissão Federal do Comércio (FTC) realizava um debate público sobre a publicidade aos produtos homeopáticos. Queria saber se a indústria estava a violar a Secção 5 da Lei da FTC, que proíbe ações enganosas ou práticas que afetem o comércio. No ano seguinte, emitiu uma «Declaração de Política de Fiscalização sobre as Alegações de Comercialização de Medicamentos Homeopáticos de Venda Livre», através da qual a FTC passava a avaliar as alegações de eficácia e segurança dos medicamentos homeopáticos de venda livre pelos mesmos padrões dos outros medicamentos de venda livre. Estas medidas podem finalmente significar o fim da homeopatia como pedra basilar dos corredores centrais da sua farmácia local.

A minha opinião é que irão surgir mais estudos para acabar com a auréola mitológica da homeopatia. Em fevereiro de 2016, por exemplo, o Professor Paul Glasziou, destacado académico britânico da Universidade Bond, especializado em medicina baseada em evidências, declarou a homeopatia como um «impasse terapêutico», depois de uma análise sistemática a 176 ensaios focados em 68 problemas de saúde diferentes ter concluído que o controverso tratamento não era mais eficaz do que os placebos. Num blogue para o British Medical Journal, o Professor Glasziou escreveu: «Posso compreender que Samuel Hahnemann – o fundador da homeopatia – estivesse descontente com as práticas médicas do século XVIII, tais como as sangrias e as purgas, e tivesse tentado encontrar uma alternativa melhor.»

Uma coisa é usar a homeopatia para o efeito de placebo, outra bem diferente é colocar a saúde em risco, rejeitando ou adiando tratamentos sustentados em boas evidências quanto à sua segurança e eficácia.”

Qual é melhor: engarrafada ou da torneira?

“E as marcas de água engarrafada que alegam benefícios para a saúde por serem ionizadas, alcalinizadas, oxigenadas ou suplementadas com vitaminas? E as que se dizem puras e límpidas – brotando suavemente de um prado ou da encosta de uma montanha? Antes do aparecimento da indústria das águas engarrafadas no início da década de 1980, se dissesse ao vizinho que dentro em breve pagaria mais pela água do que pela gasolina, ele rir-se-ia. Avancemos umas décadas, juntemos-lhes as mensagens dos meios de comunicação questionando a fiabilidade da água da torneira e o aval de uma mão-cheia de celebridades sobre a água engarrafada, e eis-nos chegados à atual indústria da água no montante de 12 000 milhões de dólares, nos EUA, um dos maiores golpes de marketing de sempre.

A água engarrafada custa duas mil vezes mais do que a da torneira. A ironia é que a maior parte da água engarrafada é da torneira, apenas menos saudável, com base em estudos mostrando que algumas substâncias químicas nocivas do plástico podem contaminá-la. Nos últimos anos do século xx e também já neste milénio, as garrafas de plástico para água continham BPA, ou bisfenol A, e, em cada ano, eram produzidos mais de 2700 milhões de quilos e lançadas para a atmosfera mais de cem toneladas métricas de garrafas. Embora a água engarrafada tivesse deixado de o ser em plástico contendo BPA, já foi feito muito dano. E, como disse num capítulo anterior, outros bisfenóis (exemplo, BPS e BPF) que são também nocivos substituem o BPA. (Infelizmente, novos materiais podem chegar ao mercado sem serem bem testados.)

O BPA (e os congéneres) é um desregulador endócrino notório. Foi fabricado pela primeira vez em 1891 e utilizado como droga estrogénica sintética para mulheres e animais na primeira metade do século XX, até o seu uso médico ser proibido por provocar cancro. No final da década de 1950, o BPA começou a ser usado em plásticos, após químicos da Bayer e da General Electric terem descoberto que poderia formar um plástico rígido quando ligado em longas cadeias (polimerizado). Pouco depois era utilizado em tudo – da eletrónica aos carros e embalagens para alimentos até selantes dentários e recibos de máquinas registadoras. Não consumimos estes bens diretamente, mas o químico das embalagens de alimentos e garrafas pode soltar-se e o conteúdo misturar-se com o que consumimos.

Os bisfenóis afetam o sistema endócrino porque no corpo comportam-se como o estrogénio. O BPA tem sido relacionado com o início precoce da puberdade nas raparigas, obesidade e diversos tipos de cancro. A água engarrafada também é um pesadelo ambiental. Mais de cinco biliões de peças de plástico, pesando 250 000 toneladas, flutuam nos mares em todo o mundo. Isto criou resíduos perigosos devido à degradação do plástico com o calor e a erosão, com efeitos devastadores na vida selvagem. A vida marinha foi também atingida, uma vez que os animais se emaranham ou ingerem os plásticos.

A água da torneira é mais bem regulamentada do que a engarrafada. A água engarrafada é controlada pela FDA, enquanto a da torneira é controlada pela EPA (Agência de Proteção Ambiental). Ao monitorizar a água engarrafada, a FDA não precisa de identificar a origem da água, o processo de tratamento ou relatórios de contaminantes, enquanto ao controlar a da torneira, a EPA é obrigada a enviar aos habitantes locais um relatório anual sobre a qualidade da água contendo estas informações.7 No princípio da década de 1990, quando a água engarrafada estava cada vez mais na moda, os dentistas pediátricos identificaram um aumento do número de cáries. A água da torneira contém vestígios de fluoreto que, em quantidades apropriadas (na água da torneira ou em dentífricos fluoretados), têm contribuído para reduzir a cárie infantil. A água engarrafada filtra o fluoreto, pelo que as crianças que bebiam apenas desta água não obtinham a mesma proteção dos que ingeriam água da torneira. Mas, tal como se passa com a maioria dos défices de um mercado novo, a indústria das águas engarrafadas encontrou um novo ângulo e começou a vender «água engarrafada com fluoreto» como se isto fosse um bónus, com rotulagem dirigida às crianças. Estas empresas alegam que a sua água é melhor graças à adição de fluoreto, quando na verdade se limitam a mantê-lo.

Dito isto, a água da torneira pode ser problemática em algumas comunidades. Quando foram encontrados níveis elevados de chumbo em Flint, no Michigan, em 2015-2016, todos ficaram a saber. A exposição elevada ao chumbo, especialmente de crianças, pode gerar défices neurológicos e anemia. Mas o sucedido em Flint foi um caso isolado e raro. Na maioria das vezes, o abastecimento de água da torneira nos Estados Unidos e noutros países desenvolvidos é seguro e alvo de maior controlo do que o das águas engarrafadas. Associar sistemas de filtragem à torneira ou num jarro, normalmente não elimina o fluoreto.

Muitos de nós gostam de água gaseificada, com ou sem aroma. Não pretende ter superpoderes – sabe só melhor e não tem açúcar nem calorias. É pior do que a água da torneira? Está, provavelmente, ao mesmo nível de qualquer outra água engarrafada. E, não, apesar da crendice popular, não elimina o cálcio dos ossos, nem estraga os dentes. A gaseificação tem um subproduto, denominado ácido carbónico, que pode ter um efeito moderado no esmalte dos dentes, mas isto não se aproxima sequer do nível de estragos que um refrigerante açucarado pode provocar. Lembro-me de um truque com que nos intimidavam quando éramos pequenos – deixando um dente de leite mergulhado num copo de Coca‐Cola durante a noite, estaria dissolvido de manhã. Não conheço ninguém que tivesse feito a experiência, pois preferíamos o truque da fada dos dentes; portanto, não tenho provas de que os dentes apodreçam devido ao refrigerante.

Gatorade, a água aditivada mais popular de todos os tempos, não é mais benéfica para o atleta médio do que a simples. Contém 14 gramas de açúcar por 2,5 decilitros (a maioria das garrafas de Gatorade contém 60 decilitros; por conseguinte, são uns gritantes 35 gramas de açúcar por garrafa) e, em virtude de ser cada vez mais consumida por jovens que nem sequer são atletas, tornou-se mais um culpado pelo aumento da obesidade infantil e diabetes precoce. A água Blk. (com ácido fúlvico, que a torna negra) transformou-se no que é hoje depois de «miraculosamente» ter curado de cancro a mãe do seu inventor. O ácido fúlvico não só não traz qualquer vantagem para a saúde, como, aparentemente, nem sequer sabe bem – um dos comentários mais coloridos publicados na Amazon comparou-o ao ato de chupar folhas podres do fundo do rio Hackensack.

A água com infusão de vitamina é outra ilusão. Tenho uma amiga médica que leciona educação sanitária nas escolas. Uma das suas aulas favoritas é sobre água vitaminada. («Okay, malta, hoje vamos fazer água vitaminada!») Os miúdos de 12 anos deliram. Então, ela deita 16 colheres de chá de açúcar numa garrafa com dois litros de água e junta algumas gotas de corante alimentar. «Okay, bebam!» Surpreendentemente, alguns bebem. Ainda que a água vitaminada contenha, de facto, vitaminas, a maior parte dos componentes consiste em açúcar e corantes. Mesmo que algumas das vitaminas que promove, incluindo A, D, E e K, sejam lipossolúveis e não sejam necessariamente absorvidas através de uma bebida, entram na corrente sanguínea através da gordura que ingerimos. E as hidrossolúveis, como as vitaminas B e C, são expelidas (através da urina) quando ingeridas em excesso. Muitos obtêm através da alimentação mais do que a dose diária de vitaminas recomendada nos Estados Unidos, o que torna a água vitaminada desnecessária. Sim, a água vitaminada e outros tipos de água suplementada são mais saudáveis do que os refrigerantes, contendo menos açúcar e menos calorias, mas não muito.

Parte do problema com as águas suplementadas reside no facto de as pessoas associarem ingestão e absorção. Não é assim que as coisas funcionam. Se bebermos aminoácidos, eles não se transformam milagrosamente em proteínas úteis, e se isso acontecesse, não eram necessariamente absorvidos de forma direta pelos músculos (não, não existe um alimento para os músculos, nem para o cérebro). Já que nós, cirurgiões, vemos literalmente os órgãos internos a suar (aquilo a que se chama «perdas insensíveis»), também vemos de que modo se processa a substituição dessas perdas. Ser submetido a uma operação abdominal (ao contrário da laparoscopia) pode ser tão stressante para o equilíbrio dos fluidos/eletrólitos do corpo como correr uma ultramaratona. Deste modo, devem ser tidos em conta muitos fatores: NPO (nil per os, ou «nada por via oral», ou seja, não comer/beber) antes, durante e depois de uma cirurgia; duração da cirurgia; perda de sangue; período de recuperação até comer/beber; estado de saúde ao submeter-se a uma cirurgia, incluindo o funcionamento do coração, pulmões, rins e fígado. Os cirurgiões, os anestesistas e os especialistas médicos do pré e do pós-operatório estão habituados a pesar todas estas questões quando se trata da reposição de fluidos e eletrólitos, tanto com base no que conhecem previamente, bem como em tempo real, à medida que as coisas acontecem.

Este equilíbrio incrivelmente delicado num corpo stressado, de uma maneira inimaginável, pode ser conseguido quase até à gota de água e à molécula de sal. Mas, nesta arena, estamos a falar de hidratação intravascular, também conhecida como intravenosa. Não se pode «beber» o tipo de fluido que se perde numa grande cirurgia e esperar que ele vá para onde é necessário. Isto é verdade para a água, ou para qualquer bebida com supostos suplementos, vitaminas ou superpoderes. Tudo o que passa pelo trato gastrointestinal é parcialmente absorvido pelo sistema vascular, mas a maior parte é expelida através dos rins, como urina, ou através do cólon, como fezes.”

Os superalimentos existem realmente?

“Existe alguma coisa que seja um superalimento? O termo superalimento não tem significado médico. É uma ferramenta de marketing para descrever alimentos com supostos benefícios para a saúde. No final da década de 1970, o esparguete estava fora de moda e as massas estavam na moda, eram um superalimento. Acrescente um pouco de pesto às suas penne e torne-se a próxima vedeta do «supercanal» de televisão Food Network. Os muffins de farelo, com 500 calorias de hidratos de carbono, açúcar, gordura e muito pouco de flocos de farelo, foram um superalimento da década de 1980. E o mesmo aconteceu com a granola, as barras de granola e o iogurte congelado. São todos eles alimentos apregoados como tendo alguma amostra de benefício para a saúde, mas que na sua maioria eram e são nocivos. Na realidade, trata-se apenas de alimentos da moda, consumidos pela comunidade educada e consciente da sua saúde dessa época. Podiam ser ou não designados superalimentos, mas eram os superalimentos do momento. Na verdade, contribuíram para o começo de uma epidemia de obesidade – carregados de açúcar refinado, continham poucas ou nenhumas proteínas e escasso valor nutricional.

Um episódio clássico da série Seinfeld provocava a hilaridade quando Elaine aumentava de peso ao comer o que ela pensava ser iogurte congelado magro, quando tinha sido sempre induzida a comprar o iogurte completo. Como se isso tivesse feito alguma diferença – o iogurte congelado, magro ou gordo, está carregado de açúcar e de calorias. E depois vêm as coberturas. Nos anos que se seguiram ao iogurte congelado engana-me-que-eu-gosto, apareceram os superalimentos com baixo teor de hidratos de carbono: tofu, a marca Tofutti, os produtos de soja e a batata-doce frita. Sem dúvida que eram todos mais saudáveis do que as bombas de farelo carrega- das de açúcar e aquilo que era basicamente gelado disfarçado de iogurte, mas todos eles cobravam a sua conta quando consumidos em excesso.

Sabe qual é o superalimento deste milénio? A couve frisada (kale) que pode provocar o hipotiroidismo se consumida em excesso. A couve frisada e outros vegetais crucíferos, tais como os brócolos e a couve-flor, são conhecidos como goitrogénicos. O bócio é uma glândula tiroide anormalmente volumosa e as pessoas a quem foram diagnosticados transtornos da tiroide correm o risco de desenvolver maiores problemas nesta glândula se consumirem estes vegetais em excesso. Quando é que o muito é demasiado? Bom, isso nunca foi avaliado, porque o consumo necessita de ser desordenadamente elevado para causar problemas. Afinal, não somos coelhos!

Nina Shapiro tem mais de duas décadas de experiência clínica e académica

Mas a loucura do consumo dos sumos levou a isso mesmo – quantidades desordenadas destes vegetais consumidos num copo de 2,5 decilitros. Um saco enorme de couve frisada, suficiente para uma semana de saladas em nossa casa, pode ser reduzido a meros 1,2 decilitros de líquido verde. E quando se transforma em batido verde, perde-se um dos principais benefícios da couve frisada – a fibra. Misturados com a couve frisada, não se esqueça dos frutos vermelhos. São conhecidos desde há muito e desfrutamos deles sazonalmente ou então em cima do iogurte congelado ou misturados na granola. Mas também são superalimentos. Nenhum grande dano para os órgãos resulta da ingestão de demasiadas bagas; os únicos efeitos negativos possíveis serão uma ingestão excessiva de açúcar e fezes mais soltas. O alcaçuz preto, outro superalimento efémero, tem propriedades antioxidantes, mas o seu consumo em excesso pode conduzir à hipocalemia (baixa concentração de potássio) e provocar arritmias. Não está claro quando é que o alcaçuz consumido em grandes quantidades se torna excessivo (a culpa é da glicirrizina, uma substância existente no alcaçuz natural). A boa notícia é que a maior parte das guloseimas comercializadas como alcaçuz contém a substância artificial ou, no melhor dos casos, apenas quantidades ínfimas de extrato de alcaçuz e somente na variedade do alcaçuz preto, não do vermelho.4 Por isso, não se preocupe – sente-se confortavelmente a ver um filme, enquanto vai comendo «alcaçuz» vermelho.

Em 2017, um novo estudo feito na Finlândia (publicado no American Journal of Epidemiology) alertava as grávidas para o consumo de alcaçuz, depois de investigadores da Universidade de Helsínquia descobrirem que o seu adoçante natural – a glicirrizina – pode ter efeitos nocivos a longo prazo sobre o desenvolvimento do feto.5 No estudo, crianças à volta dos 13 anos que haviam estado expostas a grandes quantidades de alcaçuz ainda no útero materno tinham piores resultados do que outras crianças nos testes de raciocínio cognitivo feitos por um psicólogo. A diferença era equivalente a cerca de sete pontos de QI. De acordo com os pais, estas crianças tinham também mais problemas do tipo do TDAH e as raparigas entravam mais cedo na puberdade. É certo que outras variáveis poderão ter interferido nestes resultados e que o estudo teve uma dimensão reduzida e seria necessária mais investigação no futuro. Mas é, ainda assim, interessante. (Para os mais curiosos: a glicirrizina amplia os efeitos do cortisol, a hormona do stresse, ao inibir a enzima que neutraliza o cortisol. O desenvolvimento de um feto requer cortisol, mas em grandes quantidades este torna-se nocivo.)

Mas o que torna «super» os superalimentos destes dias é um desafio à capacidade de pronúncia. Aqueles que dizem corretamente açaí, quinoa e curcuma formam um grupo à parte entre os conhecedores dos superalimentos. Agora com toda a seriedade, na sua maioria, estes superalimentos podem ser super bons para qualquer um de nós. Estão carregados de nutrientes e têm baixo teor das coisas más como os açúcares simples, os hidratos de carbono de metabolização rápida ou demasiada gordura. Comer mirtilos, açaís ou quinoa é bom para a saúde. Mas isso reduzirá a incidência de doenças como o cancro, a diabetes, a hipertensão ou o colesterol elevado? A resposta mais curta é sim, mas, tal como acontece com a maioria das recomendações sobre saúde, não constituem isoladamente uma prevenção nem uma cura. Sim, contêm nutrientes. Sim, alguns contêm os sugestivos antioxidantes, verdadeira blindagem contra o feio rosto do cancro. Os mirtilos, por exemplo, contêm uma quantidade moderada de vitamina C, mas o que os tornou famosos foi o conterem antioxidantes. Contêm o antioxidante antocianina; no entanto, as propriedades antioxidantes estão unicamente ativas numa placa de Petri, não quando são consumidos. E não esqueçamos: quando os frutos integrais são pulverizados num liquidificador como parte de um sumo, ou de uma limpeza à base de sumos, perdem as fibras que ajudam a controlar o açúcar no sangue.

Aqui está um exemplo perfeito: adoro tomar Naked Juice. Tem ótimo sabor e faz apelo ao meu gosto pelo que é doce. E, evidentemente, tenho aquela ilusão de saúde que não sinto quando tomo um refrigerante enlatado. Ao fim de um dia numa sala de operações que me deixa desidratada, em pé, de me alimentar à base de bolachas e café, o Naked Juice vem mesmo a calhar quando saio do hospital a caminho de casa. O meu sabor preferido é o mighty mango. Contém 290 calorias de hidratos de carbono e açúcar, pouca proteína e nada de fibras. Contém, no entanto, suficiente vitamina A para sustentar uma pequena aldeia onde aquelas mangas são cultivadas. E é tudo. Porque é «puro»? Não tem açúcar adicionado, mas quem precisa de açúcar adicionado quando os frutos estão carregados dele? Uma dose contém 11⁄4 mangas, 13⁄4 maçãs, 1⁄2 laranja, banana e gotas de limão. Penso que, se me sentasse a comer toda esta fruta com a mesma rapidez com que bebo o sumo, explodiria. Ou, pelo menos, sentir-me-ia cheia. E por uma boa razão: um dos principais benefícios da fruta é a fibra. As frutas destinam-se a ser mastigadas o suficiente para serem engolidas, mas não tanto que percam as fibras. O que ajuda na saciedade e digestão destes superalimentos é o facto de serem comidos e digeridos lentamente. É o volume da fibra que torna a fruta saudável. As vitaminas são um pequeno bónus. Espremer os superalimentos para dentro de garrafas e jarros retira-lhes a superqualidade.

Atualmente, os miúdos são alimentados com bolsas de comida. Têm assim tanta pressa que não podem ingerir os alimentos como uma tarefa em si mesma? A evolução humana deu-nos molares e capacidades complexas de mastigação para podermos comer alimentos sólidos. Parte das ideias acerca do consumo de sumos e substituição de refeições vem da alegada falta de tempo. Já não há tempo para comer 1,2 decilitros de iogurte, e é por isso que temos o Go‐Gurt? A falácia do consumo de sumos está no processo. Se nos limitarmos a comer os frutos integrais, ganhamos em fibra, em saciedade e numa digestão mais lenta, que atrasa a sensação de fome. Espremer as frutas pode deixar as vitaminas intactas, mas as fibras são destruídas. Temos uma boca, um estômago, um intestino delgado e um intestino grosso que são melhores do que qualquer máquina de sumos do mercado. E estas máquinas de sumos internas guardam o volume das fibras da fruta, fazem-nas durar mais tempo no nosso sistema digestivo e mecanicamente demoram mais a digestão. Os sumos passam rapidamente pelo aparelho digestivo, pelo que apenas ganhamos os benefícios dos açúcares e de um pouco de vitaminas. Depois da minha iguaria de um pseudossupersumo carregado de açúcar, que termino no caminho até casa senão houver muito trânsito, desenvolvi um apetite enorme para um jantar completo.

A nova excitação em torno dos superalimentos é a antioxidação. Se bem que todos gostemos do oxigénio, a oxidação de certas moléculas conduz aos radicais livres, os quais podem por sua vez danificar células e levar a mutações celulares e ao cancro. Substâncias como a vitamina C, a vitamina E e a vitamina A são antioxidantes, contrabalançando a oxidação ao inibirem essas reações químicas. Mas, tal como acontece com a maior parte das entidades científicas a um nível molecular, o processo não se transfere diretamente para a ingestão alimentar. Não foi feito nenhum estudo que documente que a ingestão de antioxidantes ou de suplementos antioxidantes através da alimentação evite ou trate o cancro. De facto, chegou-se à conclusão de que alguns antioxidantes, nomeadamente o betacaroteno, aumentam a mortalidade relacionada com o cancro em vez de a reduzirem.”

Qual a principal causa de morte antes dos 44 anos?

“Num dia bastante preenchido de cirurgias, eu e a minha equipa explicamos os riscos detalhados e os benefícios dos procedimentos, fármacos, anestésicos e recuperação umas dez vezes. Imagine o leitor como seria se, por cada vez que descesse de um passeio, comesse ou bebesse alguma coisa ou entrasse num carro ou avião, fosse confrontado com uma lista detalhada dos riscos e benefícios das suas ações nos minutos, horas ou até meses e anos seguintes. Ainda que esta noção seja ridícula, tem alguma utilidade. Não podemos negligenciar os benefícios versus os custos quando consideramos os riscos. Quais são os riscos e os custos de conduzir durante a hora de ponta versus as vantagens? Qual o custo e o risco de apanhar o comboio na hora de ponta? Será que os benefícios são maiores do que os riscos? Alguns destes parâmetros são extremamente complicados, senão mesmo impossíveis, de medir, em especial quando o fator é a perda de tempo, o stresse, controlo do dia e qualidade de vida. Mas algumas decisões comportam riscos, custos e benefícios muito mais óbvios e calculáveis. Fumar, por exemplo, implica maiores custos e riscos do que benefícios. Mas beber diariamente um copo de vinho tinto revela-se uma área cinzenta em termos de custos, benefícios e riscos. Fazer exercício diariamente é benéfico, mas em demasia pode trazer mais risco do que benefício.

Como calcular diariamente os riscos, benefícios e custos? Não é uma tarefa fácil, mas quando somos confrontados com tantas recomendações e ideias confusas, é sempre bom começar em grande. Em medicina, temos as expressões «As coisas comuns acontecem frequentemente» e «Quando ouves o som de cascos, pensa em cavalos, não em zebras». Esta ideia, aparentemente simplista, aplica-se não apenas à pesquisa por vezes fútil de uma doença rara mascarada de doença frequente, mas também aos não médicos nas vias que seguem em busca do que é menos comum. Quando se trata da nossa saúde, certos riscos estão presentes em todas as fases da vida. Uma vez que a vida é o bem mais precioso a manter, vejamos quais são as principais causas de morte nos Estados Unidos, desde o nascimento passando por cada década de vida:

1. No primeiro ano de vida, as principais causas de morte são as anomalias congénitas, seguidas pelos nascimentos prematuros, SMSI [síndrome de morte súbita infantil], complicações maternas na gravidez e «lesões não intencionais» (acidentes)
2. Entre um e cinco anos, o maior risco de morte decorre de acidentes (seguido pelas anomalias congénitas)
3. Dos seis aos 14 anos, a taxa de mortalidade mais alta deve-se a acidentes (seguidos pelo cancro)
4. Entre os 15 e os 20 anos, são os acidentes (seguidos pelo homicídio)
5. Dos 21 aos 30 anos, são os acidentes (seguidos pelo suicídio)
6. Entre os 31 e os 44 anos, são os acidentes (seguidos pelo cancro)
7. Dos 45 aos 64 anos, são as neoplasias malignas (cancro, seguido pela doença cardíaca)
8. Dos 65 anos em diante, é a doença cardíaca (seguida pelo cancro)

Em suma, a principal causa de morte entre um e os 44 anos são os acidentes. A mensagem a reter pelo grupo com menos de 45 anos é: ter cuidado. Conduzir em segurança. Usar capacete para andar de bicicleta e fazer esqui. Evitar motociclos. Usar o cinto de segurança. Evitar jogos que envolvam a ingestão de álcool ou beber em excesso. Depois disso, há que começar a preocupar-se com a saúde. Bom, não é bem assim, claro. Mas são muito poucos os que se concentram na prevenção de lesões, preferindo andar depressa no tráfego, escrever no telemóvel em andamento ou não usar o cinto de segurança.”

Devemos tomar diariamente uma aspirina?

“Assombro-me com as tendências sempre em mudança da definição de «saudável». Lembro-me de que, na década de 1970, o esparguete se tornou de repente massa. Parecia mais saudável e por isso comíamos mais. Quando os pãezinhos de farelo (todos eles com 500 calorias) entraram na categoria de alimentos saudáveis juntamente com a granola, houve quem ganhasse uns quantos quilos. O que se seguiu foi a loucura do baixo teor de gordura, baixo teor de açúcar, sem açúcar, sem adição de açúcar, sem gordura, baixo teor de calorias. As águas são agora acompanhadas de palavras como biológicas, naturais, sem glúten, sem cafeína, ricas em nutrientes, livres de OGM (embora se deva saber que uma pequena modificação genética pode ser benéfica, como descobriremos em breve).

Distribuo gelados de água pelos miúdos logo a seguir às pequenas cirurgias. Adoro dizer-lhes, na presença dos pais, que temos gelados cor de laranja, roxos e vermelhos. Contêm um corante e um aromatizante cem por cento artificiais e estão carregados de todo o tipo de açúcares. Contêm zero por cento de sumo de fruta. Será o melhor gelado de água que eles alguma vez comeram. Vejo muitas vezes os pais pedirem um segundo para o filho e engolirem-no eles. Serão estas delícias menos «saudáveis» do que as que apregoam ter um conteúdo de verdadeira fruta e vitaminas e «sem adição de açúcar»? Talvez sim, mas numa percentagem tão infinitésima que o verdadeiro benefício do gelado (água congelada, por amor de Deus!) dificilmente se perde quando se consome o produto barato. Além disso, o produto barato até sabe melhor.

Além de estar relacionado com a alimentação, o conceito de saúde continua a alterar-se de maneira interessante. Por qualquer razão, todos queremos viver até aos 150. Um dia, talvez alguns o consigam. Os testes genéticos e as modificações potenciais podem abrir-nos uma janela para a longevidade, os perfis de riscos de doenças e a prevenção a longo prazo. Muitos de nós já andam a tentar: tomar diariamente uma aspirina ou não? A partir de que altura? Terapêutica de substituição hormonal ou não? Estatinas para prevenir um ataque cardíaco? Suplementos vitamínicos e, se sim, quais?

A B12 dá-nos energia. Mas também nos dá borbulhas. A vitamina E previne o cancro. Mas também o pode provocar. O exercício físico faz bem, mas qual o melhor tipo de exercício? E quando é que o muito é demasiado, quando começamos a pagar o preço dos excessos com lesões nas articulações, dores crónicas e até problemas renais e cardíacos?

Vou ser sincera: por vezes os pacientes dão-me cabo dos nervos com as perguntas que começam por «Acredita em…?». Aí apetece-me interrompê-los e questioná-los: «No coelhinho da Páscoa? Em fantasmas? Na fada dos dentes?» Tudo isto são crenças. Mas a medicina não é uma crença. Pratico-a com base em evidências. Não quer isto dizer que toda a medicina seja um facto. Longe disso. Muitos tratamentos que utilizamos hoje em dia, dentro de 30 anos serão inúteis ou, pior do que isso, prejudiciais. Mas aplicamo-los tendo por base extensos conjuntos de provas de que são benéficos. Podemos, ocasionalmente, recorrer a tratamentos experimentais, mas é preciso apresentá-los como tal. No mínimo, precisamos de compreender, ainda que remotamente, como funcionam. E, não, a magia não constitui uma razão.

Fazem-me constantemente perguntas sobre a medicina alternativa ou a homeopatia. Não posso afirmar perentoriamente que estas práticas estão erradas ou são prejudiciais. Mas quando me perguntam se o óleo de linhaça no canal auditivo é bom para as infeções do ouvido, respondo que nunca ouvi ou vi resultados, mas que se têm informações dadas pelo médico acerca deste método, gostaria de as conhecer. Ou algum estudo. Ou qualquer outra coisa. Se algum paciente foi tratado com o remédio homeopático causticum a uma infeção bacteriana rara, gostaria de saber se quem o prescreveu pensou no mecanismo de ação. Não apenas por soar a cáustico. Na verdade, trata-se de uma forma diluída de solução de hidróxido de potássio, ou cal apagada. É bom para os relvados. Não tanto para as infeções bacterianas atípicas.

O objetivo deste livro é despertar os leitores para a verdade acerca dos conselhos de saúde populares e constituir um guia ponderado e fiável para que se tornem pacientes inteligentes. Vamos abranger muitas áreas, começando com as teorias da conspiração que abundam nos círculos da saúde e com conceitos cuja compreensão é importante, tais como a gestão de riscos, a causa versus correlação, e o que é um estudo bem concebido, sério e reproduzível. Avançaremos depois para as respostas às perguntas que atormentam as mentes das pessoas hoje em dia: existe uma dieta ideal cientificamente comprovada? O glúten é assim tão mau? Os desintoxicantes podem afinal ser tóxicos? O açúcar alimenta as células cancerosas? Quando é que biológico é uma palavra-código para «absurdo»?

Levarei os leitores numa viagem através da medicina alternativa complementar, mostrando quando e como funciona. Abordarei também os riscos relacionados com as vacinas, suplementos homeopáticos e se os exames como as mamografias, as colonoscopias e os testes de ADN são manifestamente sobrevalorizados. Analisarei alguns dos hábitos mais populares que as pessoas mantêm (ou gostariam de manter) e que podem ter consequências que não se pretendia. Responderei às perguntas: Quais as vitaminas que têm valor? Qual o melhor segredo antienvelhecimento que não seja publicidade enganosa? Qual a quantidade e o tipo perfeitos de exercício físico? Gostaria que a sua leitura fosse agradável e que o leitor sentisse não apenas que muitas das minhas ideias e recomendações são úteis e surpreendentes, mas também que o aliviaram de muitas das preocupações do quotidiano. A saúde ideal é mais fácil de conseguir do que se pensa. Pode ser sempre um alvo em movimento, mas isso não significa que não desfrutemos da viagem.

Tudo o que peço de início aos leitores é que avancem com a mente aberta e que ponham de lado quaisquer noções preconcebidas. Estamos cada vez mais obcecados com as questões da saúde; portanto, como conseguimos saber o que é real e o que é mito? É isso o que este livro vai revelar.”

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