5 histórias de resgates marcantes de crianças que caíram em poços

O mundo aguarda ansioso pelo salvamento de Yulen. Em 1949 também foi assim nos Estados Unidos, em 1981 aconteceu em Itália.

A história do resgate de Baby Jessica em 1987 deu um filme

Bettmann Archive

Espanha parou. Este domingo, 13 de janeiro, um menino de dois anos caiu num poço em Málaga. O buraco, com apenas 25 centímetros de diâmetro e mais de 100 metros de profundidade, foi aberto com o intuito de fazer prospeção e busca de água e estava completamente desprotegido. Mais de 100 pessoas participam na operação de resgate da criança, que se está a revelar bem mais complicada do que era esperado.

Ainda não há sinais do menino. Dentro do poço já está uma câmara robotizada com luz própria, no entanto ainda não foi possível identificar Yulen. Passadas mais de 40 horas desde o desaparecimento, a instabilidade do terreno e a necessidade de garantir a segurança da criança dificultam os planos.

A ideia inicial passava por extrair terra do poço com uma máquina de sucção. Sem sucesso, o plano passa agora por construir um túnel lateral com cerca de 80 metros, para tentar chegar à área onde se presume que esteja a criança. Entretanto, os pais desesperam — e lançam fortes críticas às equipas de resgate.

“Sabem o que é estar há 30 horas à espera que tirem o teu filho de um poço? Acreditam que esta (segunda-feira de) manhã, às 11:00 (hora local), sabia-se que vinha um camião de Cádiz para tirar a terra e estão à espera que chegue o camião para preparar as coisas?”, criticou o pai do menino, José, no “Programa de Ana Rosa“, da Telecinco. “Toda a gente se engana, mas eles não estão a fazer bem as coisas”.

Numa mensagem direta para os jornalistas, disse: “Não escrevam que está a vir o presidente nem ninguém, escrevam o que estão a fazer aqui, que não estão a fazer nada de nada, que há 30 horas que um menino está dentro de um poço. Estamos a morrer!”. Esta é a segunda vez que a tragédia se abate sobre a família — na primavera de 2017, a família perdeu o filho mais velho com um enfarte.

Esta não é a primeira vez que uma criança cai num poço. Em 1949, a tentativa de resgate de Kathryn Anne Fiscus representou um marco na história da televisão — nunca antes um canal tinha prestado tanta atenção a um incidente destes. Em 1987, a história da pequena Baby Jessica, como ficou conhecida, parou o mundo e deu origem a filmes e até músicas.

Contamos-lhe 5 histórias incríveis de resgates a crianças que caíram em poços.

Uma tentativa de resgate que foi um marco na história da televisão

A cobertura do caso correu os Estados Unidos

Kathryn Anne Fiscus tinha apenas três anos quando caiu num poço em San Marino, na Califórnia, Estados Unidos. A 8 de abril de 1949, sexta-feira, a criança brincava com a irmã, Barbara, 9 anos, e o primo, Gus, 5, num campo quando caiu num poço de água abandonado com apenas 36 centímetros de largura. As crianças não se aperceberam imediatamente do sucedido — julgando-a desaparecida, foi Gus quem seguiu o som de gritos fracos até chegar a um buraco aberto no meio de ervas daninhas.

O poço tinha sido perfurado pelo pai em 1903. A equipa de resgate precipitou-se para o local com tratores, guindastes, camiões de uma dúzia de cidades e até 50 holofotes de estúdios de Hollywood. A determinada altura do resgate, a pequena Kathryn recebeu uma corda mas não conseguiu manter-se segura, caindo ainda mais fundo no poço.

Só no domingo à noite é que conseguiram chegar até Kathy, depois de escavarem um buraco com mais de 30 metros. Infelizmente, a menina já estava morta. Uma hora depois, o médico Paul Hanson fez uma declaração para as mais de 10 mil pessoas que se reuniram para assistir ao resgate: “Kathy está morta e aparentemente morreu desde que foi ouvida pela última vez na sexta-feira. A família foi notificada”.

E continuou: “Para o bem da família, que resistiu de forma tão corajosa a esta provação — e para todas as pessoas que ajudaram tão magnificamente —, pedimos, por favor, que deixem a cena do acidente por respeito a eles. Se este fosse o seu filho, temos a certeza de que não iriam querer uma multidão no local da tragédia.”

De seguida, foi lida uma mensagem da família: “Não há nada que possamos dizer para agradecer às muitas pessoas que nos ajudaram. Muitas dessas pessoas voltaram para o descanso necessário. A nossa sincera gratidão é-lhes dada pelos muitos sacrifícios que fizeram. Muito obrigada.”

A autópsia revelou que Kathy morreu após a segunda queda, devido à falta de oxigénio. Foi a primeira vez que uma tentativa de resgate recebeu atenção a nível nacional, tendo sido transmitida em direto na rádio e televisão. “A tentativa de resgate de Kathryn Anne Fiscus tornou-se num ponto de referência nos anais da televisão americana”, escreveram George Fischbeck e Randy Roach na biografia do jornalista “Dr. George: My Life in Weather“.

“O KTLA-TV Channel 5 cancelou toda a programação e anúncios com os repórteres Stan Chambers e Bill Welsh a darem uma cobertura da história em direto, 24 horas por dia”.

Na lápide de Kathy, no Glen Abbey Memorial Park, lê-se: “Uma menina que uniu o mundo por um momento”.

Com base na tragédia de Kathy, o cantor Jimmie Osborne escreveu e gravou a canção “The Death of Little Kathy Fiscus“, em 1949. Vendeu mais de um milhão de cópias, sendo que metade foi doado à família Fiscus. Em 1987, Woody Allen realizou o filme “Os Dias da Rádio“, sobre uma menina que cai num poço na Pensilvânia. Tal como a história verdadeira, a criança também não sobrevive.

Desde a tragédia que o pai de Kathy foi um forte ativista na cimentação de todos os poços antigos.

Mesmo quando um desfecho trágico se adivinhava, as câmaras não pararam de filmar

Alfredino acabou por não sobreviver à queda num poço com 80 metros de profundidade

Wikipedia

Foi em 1981 que as tentativas de resgate de Alfredo Rampi, um menino de 6 anos, marcaram a televisão italiana. Pelas 19 horas do dia 10 de junho do mesmo ano, o pai de Alfredino (a alcunha pela qual o rapaz era conhecido) ligou para a polícia a reportar o desaparecimento do filho, alarmado pelo facto de o rapaz nunca ter regressado a casa.

O menino foi descoberto caído num poço em Vermiciono, uma pequena aldeia em Itália, com cerca de 80 metros de profundidade e um diâmetro de 30 metros. Acredita-se que o rapaz estaria preso a uma profundidade de 36 metros abaixo do nível do chão, quando chegaram as primeiras equipas de salvamento. Para o alcançar, os bombeiros cavaram um túnel paralelo ao poço, mas a perfuração deste novo buraco apenas fez com que Alfredo caísse cada vez mais.

Confiantes num final feliz, a RAI, televisão pública italiana, começou a transmitir em direto imagens do resgate durou 18 horas consecutivas e atingiu níveis de audiências históricos neste país. Mesmo com a situação a complicar-se, a transmissão não foi interrompida.

Numa tentativa desesperada de salvar Alfredino, Angelo Licheiri, um voluntário que ajudava nas operações de salvamento, entrou no poço para chegar ao rapaz, conseguindo-o alcançar. No entanto, as suas tentativas de colocar um arnês no menino foram em vão, bem como todas as outras opções de salvamento — pelo contrário, o rapaz foi caindo cada vez mais.

Angelo Licheiri ficou cerca de 45 minutos no poço de cabeça para baixo, e nunca recuperou totalmente das lesões causadas pelo sucedido. Depois de muitas horas, a voz de Alfredo foi ficando cada vez mais fraca (a equipa de salvamento tinha colocado um microfone no buraco), e estima-se que o rapaz italiano terá falecido por volta das 6h30 do dia 13 de junho de 1981. O corpo foi apenas resgatado 28 dias depois da sua morte, a 11 de julho.

O resgate de Baby Jessica deu um filme

O momento do resgate de Baby Jessica

Texas, 14 de outubro de 1987. Baby Jessica, como ficou conhecida em todo o mundo, estava a brincar com a irmã no quintal de casa em Midland quando a mãe as deixou sozinhas por volta das 9h30 para ir atender o telefone. No espaço de poucos minutos, a bebé de 18 meses caiu, de cabeça para baixo, num poço abandonado com 6,7 metros de profundidade e 20 centímetros de diâmetro.

O resgate de Jessica McClure revelou-se bem mais complicado do que o esperado. As equipas de emergência perceberam que a criança estava viva depois de atirarem um microfone para dentro do poço e ouvirem a sua voz, mas não iria ser assim tão simples salvá-la. As ferramentas que tinham mostraram-se incapazes de perfurar a pedra em volta do poço.

Ainda de manhã, um porta-voz da polícia falou com a comunicação social e anunciou que não sabiam quanto tempo levariam até chegar a Jessica. Ao meio-dia, o desespero continuava — talvez a equipa de resgate não conseguisse chegar à bebé antes do anoitecer. Quando tempo conseguiria a menina aguentar?

Os Estados Unidos pararam nesse dia. O noticiário da noite mostrava uma equipa de resgate atormentada, a espreitar para um buraco silencioso. O salvamento só foi possível graças a uma nova tecnologia de perfuração de poços chamada “corte com jato de água”, que permitiu criar um túnel entre um poço paralelo e aquele onde Jessica estava presa.

Dois dias e meio depois, a CNN transmitiu em direto o salvamento de Jessica. “Por volta das 20 horas, os três canais saltaram para Midland”, escreveu a revista “Time” na edição de 26 de outubro de 1987. “A imagem perdura: um paramédico encardido sai do poço de resgate segurando um pacote nas mãos — é Jessica, viva, envolta em ligaduras que escondem tudo quase exceto o nariz, os braços lamentavelmente magoados, os olhos assustados e mechas de cabelo loiro”.

Jessica e a família na revista "People", 30 anos depois do resgate

A história de Jessica McClure emocionou o mundo. As doações chegaram quase aos 700 mil euros, valor que os pais decidiram guardar até Jessica fazer 25 anos. Completou-os a 26 de março de 2011. Após o resgate, a criança foi submetida a 15 cirurgias e viu amputado um dedo do pé. Hoje com 32 anos, McClure diz ter poucas memórias desses tempos. Ficou com artrite reumatóide crónica e ainda tem cicatrizes na testa. Tirando isso, está bem.

A sua história, porém, permanece até aos dias de hoje — em 1989 foi representada no filme “Everybody’s Baby: The Rescue de Jessica McClure“, da ABC. O filme indiano “Malootty“, de 1990, também foi baseado no incidente. As imagens do salvamento também foram utilizadas no videoclipe de Michael Jackson, “Man In The Mirror“, e no filme “V de Vingança“.

Mãe deixou os dois filhos a brincar no jardim — um deles caiu num poço de 16 metros

A 26 de abril de 2017, um bebé de 21 meses caiu num poço no jardim de sua casa, tendo ficado preso a uma profundidade de 16 metros. A história passou-se na Roménia e foram precisos 30 bombeiros e uma operação de 12 horas para salvar o menino, numa luta contra o tempo.

Devido ao poço ser demasiado estreito para um adulto conseguir passar, os bombeiros optaram por cavar um túnel paralelo ao poço, retirando depois a criança com a ajuda de um arnês — e com sucesso.

Ao Digi24, um canal noticioso romeno, Ionel Raducu, um dos bombeiros envolvidos no resgate, afirmou que “não existe melhor sentimento do que quando se salva a vida de alguém”.

De acordo com declarações da mãe do menino à imprensa romena, esta terá deixado o bebé de 21 meses a brincar com a irmã mais velha no jardim, enquanto entrou em casa. As crianças terão destapado o poço e, quando a mãe regressou ao exterior minutos depois, o menino já tinha caído.

11 horas depois, menino de dois anos é resgatado apenas com ferimentos nas mãos

Chandrasekhar teve apenas ferimentos ligeiros

Também em 2017, a 16 de agosto, na Índia, um menino de dois anos caiu num poço com uma profundidade de cerca de quatro metros e meio, sendo resgatado com sucesso após uma operação de 11 horas. Chandrasekhar, a vítima do acidente, caiu no poço abandonado por volta das 17 horas de uma terça-feira, e foi retirado com vida pelas equipas de salvamento pelas 3 horas da madrugada do dia seguinte.

O rapaz sofreu apenas ferimentos ligeiros e, depois de uma primeira intervenção médica após a saída do poço, foi entregue aos pais, Mallikarjuna Rao e Anusha, de imediato.

Chandrasekhar caiu no poço enquanto brincava, dado que o mesmo se encontrava destapado. Durante a operação de resgate, as equipas de salvamento inseriram botijas de oxigénio no poço para ajudar o rapaz a respirar, e usaram câmaras para avaliar a profundidade a que o menino estava preso.

Depois de determinarem a posição de Chandrasekhar, cavaram um túnel paralelo ao poço com uma profundidade de cerca de sete metros e retiraram o menino.

Texto de Catarina da Eira Ballestero e Marta Gonçalves Miranda.
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