Há as de forno, as com calda, as sem açúcar e até as há feitas com vinho. Ideias para ornamentar um doce que já por si é uma festa não faltam e não dizemos isto por termos o Natal ainda bem presente. Dizemos isto porque pensava ter em casa as melhores rabanadas do País.

A minha tia Meira não as faz aos pratinhos nem para encher um tupperware. São mesmo às dezenas, divididas entre as várias casas da família e por todos que dizem que “eu até as faço, mas as suas…”. E a Meira faz, sempre com cacete do dia, mel caseiro, assim como os ovos — arrisco dizer que estas são duas coisas que nunca vi num carrinho de supermercado dela — leite e açúcar. Depois de cortadas, pinceladas e fritas, as rodelas de pão ganham três variações: açúcar e canela para a versão mais simples, calda de açúcar, casca de limão, Vinho do Porto e pau de canela para uma mais gulosa ou — atenção diabetes — com cobertura de doce de ovos. Sim, é a loucura.

Semea by Euskalduna

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Morada: Rua das Flores , 179, Porto

Horário: quarta a domingo 12-15 e 19h-23h

Tinha até estipulado que rabanadas era coisa que nem valia a pena comer fora. O mais sensato seria mesmo esperar pela consoada e, por uma noite, trocar todas as bolinhas energéticas de tâmaras e os bolos adoçados com banana do resto do ano por aquela que era a melhor fatia de pão frito de sempre.

Mas tudo mudou com a última viagem ao Porto e, correndo o risco de ter que procurar outra família para passar o próximo Natal, posso dizer que provei fora de casa aquela que passou a ser a melhor rabanada do País.

Veio para a mesa por sugestão do chef Vasco Coelho Santos, que quis justificar o porquê daquele ter sido dos poucos pratos a migrar do Euskalduna para o Semea, o seu mais recente projeto.

Para comer aquele pequeno quadrado de pão, há que ir sem medos e bater com a colher até que a capa de açúcar caramelizado parta, permitindo assim que a colher penetre num pão leve e esponjoso a contrastar com a bola de gelado de canela que o acompanha.

Comecei o relato pelo fim, mas até seria um crime limitar esta refeição à sobremesa. Voltemos assim à casa de partida, onde à nossa espera está o pão do couvert, também ele digno de igualar aquele que a minha avó fazia no forno de lenha. Estou mesmo prestes a ficar deserdada, não estou?

Cozinha portuguesa, mas longe do tradicional

Com o pão feito na casa vem uma pasta que desta vez é de grão e salsa, mas já chegou a ser de três tomates ou de peixe do rio.

A carta muda sem dia fixo, ao sabor da época e do que os produtores fazem chegar ao restaurante. E entre os dois restaurantes, ainda que com um conceito diferente — neste, por exemplo, ao contrário do que acontece no outro, a ideia é mesmo a de partilha — há uma espécie de trabalho de equipa e isso nota-se, por exemplo, no aproveitamento dos animais. “De Trás-os-Montes chega-nos um borrego por semana, os lombos ficam no Euskalduna e as pernas no Semea. Com o porco a mesma coisa, a cabeça fica aqui para a cabeça de xara e os pés para a feijoada e o resto vai para o Euskalduna”, explica o chef.

Durante dois anos, Vasco pôde dedicar toda a sua atenção no primeiro restaurante em nome próprio, que abriu em 2016. É no Euskalduna que se continuam a servir alguns dos jantares mais especiais da cidade, uma vez que o menu de degustação é servido apenas a 16 clientes e de uma forma exclusiva. Para lá comer, há que preencher uma ficha para que na próxima visita o menu seja novo ou, caso prefira, repetir os pratos preferidos.

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A este espaço juntou uma espécie de filho mais novo, até porque Semea em português designa o farelo de antigamente mas em basco significa filho. E já o nome Euskalduna nada mais é que ‘basco’ em basco. Esta foi a forma de Vasco, agora com v, perpetuar aquilo que aprendeu em restaurantes como o Mugaritz e Arzak, no País Basco, onde trabalhou antes de voltar ao Porto.

No regresso, e já com estes dois projetos a andar, recusa apegar-se àquilo que sabe que resulta e incentiva a equipa a criar coisas novas todos os dias. É por isso que, ainda que não esteja na carta, hoje chega-nos à mesa uma dose de lingueirão e outra de açorda alentejana. “Hoje havia lingueirão no mercado e comprei. Divido-o por dez doses e mantenho esse prato como sugestão enquanto essas dez doses estiverem disponíveis. Depois, passo para outra, até porque detesto ir a um restaurante, escolher um prato e dizerem-me que já acabou. Se está na carta, tem que haver sempre”.

7 fotos

E ainda bem. Assim temos a certeza que vamos ainda provar a abóbora com chèvre e granola feita com as pevides da própria abóbora (4€), a cabeça de xara (7€), a raia (9,50€) e o prato preferido do chef, a sande aberta de borrego (7,50€). Sim, no Porto se sanduíche é só uma passa a ‘sande’ e isso escreve-se na ementa com um certo orgulho.

E pronto, chegamos ao fim, até porque a partir daqui são só rabanadas e sobre isso já foi tudo dito. À minha tia, garanto: esta foi uma traição única e na próxima visita ao Semea peço me tragam antes um D. Rodrigo. A certeza de ter um família do ponto cardeal oposto ao de onde saem estes doces algarvios — que o chef faz com canela, ovos moles e batata doce— , já me deixa comer sem culpa (até mesmo com tanto açúcar envolvido).