O caso de Judy Perkins abriu novas esperanças na luta contra o cancro. Será esta uma nova arma neste combate? Apesar de ainda só ter sido aplicado nos Estados Unidos, este tratamento experimental que salvou a vida da norte-americana de 52 anos, poderá chegar à Europa e a bem perto de Portugal: Alena Gros está a fazer tudo para o aplicar em Espanha.

Segundo o “El Mundo”, a investigadora espanhola de 38 anos está a trabalhar para que dentro de ano e meio a dois anos se inicie o ensaio clínico semelhante ao aplicado à mulher diagnosticada com um cancro letal na mama que progrediu para o fígado. A investigadora disse ao jornal espanhol que pretende tratar com “uma terapia celular os doentes com tumores sem alternativa terapêutica, concretamente com cancro de mama e do cólon metastazidos avançados”.

Depois de trabalhar sete anos no “National Cancer Institute”, ao lado de Steve Rosenberg, o cientista americano responsável pela terapia, Alena quer agora criar o seu próprio plano no país vizinho.

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A ideia consiste em replicar o que o cientista fez com Judy no menor tempo possível até adquirir a máxima eficácia, dado que apenas 10% a 15% dos pacientes respondem positivamente ao tratamento. “Nem todos tiveram o mesmo destino”, lamenta a investigadora.

O tratamento experimental recorre especificamente a linfócitos que se infiltram no tumor (conhecidos como TIL, sigla de tumor infiltrating lymphocytes). De acordo com o “El Mundo”, depois de sequenciar o ADN e o ARN (ácido ribonucleico) de um tumor e verificar as suas mutações exclusivas, é feito todo um complexo trabalho de seleção dos linfócitos T mais potentes do sistema imunitário do doente para os cultivar em grandes quantidades no laboratório. Estes são depois introduzidos no doente e “dirigidos até às proteínas que provocam o gene mutado e se manifestam na superfície das células malignas”.

A revista científica “Nature”, citada pelo diário espanhol, afirma que Judy Perkins não só recebeu uns 90 milhões de células imunes através de uma injeção, mas também outros dois fármacos: penbrolizumab — um anticorpo que ajuda a evitar que o sistema imunitário adormeça e lute contra as células tumorais — e interleuquina — um fator de crescimento para que os linfócitos T se multipliquem mais depressa.

O objectivo de Alena é descobrir como aumentar e especificar a quantidade dessas células no organismo dos doentes com cancro, mas ainda há um longo caminho a percorrer.

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“Gostaria de adicionar um produto celular mais eficaz, para aumentar a capacidade de as células se multiplicarem e matarem o tumor”, disse a investigadora ao “El Mundo”. Por isso, Alena Gros segue uma outra linha de investigação que lhe permitirá “entender melhor o que é que os linfócitos reconhecem. Já existe uma máquina de seleção que assegura um “produto celular melhorado” mas “custa meio milhão de euros”.

Não será, no entanto, a falta de recursos financeiros que a fará parar. Sabe que o desafio é grande — desenvolver o tratamento experimental em Espanha custará entre um a dois milhões de euros — mas promete não desistir. “Vou lutar ao máximo para conseguir os fundos”, garante.

Com ela estará um movimento iniciado por três espanhóis com cancro que lançaram uma petição na plataforma Change.org (tem neste momento 412 mil assinaturas), para pedir ao Ministério de Saúde e da Ciência que crie as condições necessárias para ter em Espanha o ensaio clínico que curou Judy Perkins.