Nelson Nunes: “O Bolsonaro é diferente, é militar e disciplinado. Há uns laivos de Hitler nele”

Escritor e jornalista de formação, falou com a MAGG do seu novo livro sobre o ódio, a violência e a intolerância nas redes sociais.

Nelson Nunes diz que mergulhou "no esterco" para contar a história de algumas figuras públicas atropeladas nas redes sociais

Carla Oliveira

Depois de dois livros onde esmiuçou o talento de humoristas e cozinheiros portugueses, o escritor e jornalista de formação, Nelson Nunes, passou grande parte do último ano atento aos fenómenos das redes sociais. Mais concretamente às polémicas, às perseguições e aos linchamentos de que foram alvo várias figuras públicas depois de fazerem piadas, comentários ou expressarem apenas a sua opinião.

Foi com algumas delas, como Nuno Markl, Ricardo Araújo Pereira, Rui Sinel de Cordes ou Henrique Raposo, que Nelson Nunes falou para recolher os seus testemunhos para o seu novo livro, chamado “Quem Vamos Queimar Hoje?” editado pela Vogais e já disponível por 15.49€.

E se Rui Sinel de Cordes chegou a ser enxovalhado em praça pública por uma piada de humor negro que fez, o escritor Henrique Raposo viu-se obrigado a não regressar ao Alentejo, por questões de segurança, depois de ter publicado o livro “Alentejo Prometido”, onde descrevia o suicídio e a violência doméstica como “fenómenos naturais”, o que originou queimas de livros e ameaças à sua integridade física.

Mas apesar de Nelson Nunes nunca ter recebido ameaças de morte ou ser ostracizado por comentários que fez, isso não o impediu de quase desistir de um livro que, conta à MAGG, lhe custou muito a fazer e que lhe valeu vários ataques de ansiedade.

O exagerado contacto que tive com essas coisas levou a que acontecesse qualquer coisa aqui dentro, que eu ainda estou mais ou menos para perceber o que é — ao ponto de ter ataques de ansiedade.”

Continuou, ainda assim, com o intuito de fazer aquilo que “já não vê o jornalismo fazer nos dias de hoje: que é ouvir o outro lado”. No lounge do VIP Executive Art’s Hotel, no Parque das Nações, em Lisboa, o escritor sentou-se com a MAGG para falar sobre a liberdade de expressão, o discurso de ódio cada vez mais presente nas redes sociais e a importância de se ser capaz tolerar o intolerante — de maneira a esvaziar os seus argumentos.

Ainda não tínhamos começado a gravar e já tinha dito o quanto este livro lhe tinha custado. Porquê?
Porque mergulhei no esterco [risos]. Atenção, eu não acho que as redes sociais sejam más, da mesma forma que não acredito que sejam particularmente boas. Tal como na generalidade da sociedade, há coisas muito boas e coisas muito más e o que eu notei é que, às vezes, pessoas com as melhores das intenções acabam por fazer coisas que não são assim tão boas. O exagerado contacto que tive com essas coisas levou a que acontecesse qualquer coisa aqui dentro, que eu ainda estou mais ou menos para perceber o que é — ao ponto de ter ataques de ansiedade.

Normalmente escrevo os livros entre dezembro e junho, e em abril estive duas ou três semanas parado onde ponderei desistir. Achei que isto não ia a lado nenhum e que não era capaz de mais. Aí foi o pico da ansiedade, mas houve outro quando entreguei o livro à editora. Pensei muito no que é que iria fazer caso alguma vez me acontecesse uma coisa destas [ser alvo de linchamento público nas redes sociais], ou qual seria a reação da minha família. Foram momentos difíceis, mas mergulhar no lixo tem disto.

Neste caso, apeteceu-me fazer aquilo que a gente já não vê o jornalismo fazer nos dias de hoje: que é ouvir o outro lado. “

Porquê este tema?
Digo esta expressão muitas vezes, mas é verdade. Gosto muito de escarafunchar no cérebro dos outros e nos últimos dois livros o que fiz foi escarafunchar o talento deles e tentar perceber como é que uma pessoa decide passar o resto da vida a fazer rir [“Com o Humor Não se Brinca”] ou a cozinhar para os outros [“Isto Não É um Livro de Receitas”].

Neste caso, apeteceu-me fazer aquilo que a gente já não vê o jornalismo fazer nos dias de hoje: que é ouvir o outro lado. Acontecem estas coisas na internet e a imprensa faz notícias com as polémicas, mas ninguém aparenta querer ouvir quem está a ser atacado. Como eu nunca vi ninguém ir atrás das histórias das pessoas e do que elas sentem quando são atropeladas nas redes sociais, decidi fazer eu. É que intriga-me muito o que as pessoas sentem e dizem em situações limite, sendo essas situações limite casos extremos onde há ameaças de morte, por exemplo.

Mas mais do que isso, foi querer que elas falassem tanto tempo depois de algumas das situações terem acontecido. E nestes casos, este tempo de respiração e de reflexão foi importante.

Há uma ideia defendida por Ricardo Araújo Pereira sobre o humor, onde diz que a comédia é igual a tragédia mais tempo, e que vivemos melhor com uma determinada piada depois de algum tempo após a situação em que se baseou ter acontecido. É um bocadinho por aí?
Depende. No caso de uma piada nem sempre é bem assim. Por exemplo, o Pete Davidson sempre fez piadas sobre o 11 de setembro e isto é especialmente importante porque o pai dele morreu durante os atentados terroristas.

Mas se calhar é-nos mais fácil a nós, europeus, fazer piadas sobre o 11 de setembro não o tendo vivido, à partida.
Sim, mas esse tempo de que o Ricardo Araújo Pereira fala também equivale a uma certa distância. Claro que aqui vivemos bem com isso porque não temos medo de que um dia isso possa acontecer cá, mas os norte-americanos vivem com isso bem presente na mente deles.

Em "Quem Vamos Queimar Hoje?", Nelson Nunes dá a conhecer a história de algumas figuras públicas que foram atropeladas nas redes sociais

Carla Oliveira

Mas até aqui há uma coisa engraçada: é que no momento em que o primeiro avião embateu contra a torre, as televisões portuguesas começaram a transmitir em direto tudo o que estava a acontecer. Por isso, se calhar aquilo não nos foi assim tão distante.

O nome do seu novo livro é insólito porque poucos dias depois de ter saído, dois homens no México foram queimados vivos devido a um rumor que começou a circular no WhatsApp. O que é que isto diz de nós?
Que não estamos assim tão diferentes do que éramos há 500 anos, por exemplo. A minha opinião pode estar inquinada por trabalhar na área do jornalismo, mas diz que deixámos de querer saber do jornalismo para alguma coisa. O que o jornalismo faz é dizer-nos se uma pessoa deve ou não ter voz, com base em vários argumentos.

Um caso muito semelhante aconteceu aqui em Portugal quando alguém fotografou vários bolos-reis no lixo em frente a uma Padaria Portuguesa. “

Quando digo ter voz, refiro-me numa determinada plataforma, porque voz deve ter sempre na sociedade civil — é a génese da liberdade de expressão. Num qualquer jornal talvez não faça sentido porque, enquanto sociedade, não nos revemos no que essa pessoa diz. Ora porque é nazi ou porque promove discurso de ódio. Além disso, há outra questão importante que tem a ver com dar o maior números de factos possíveis.

Nesta história não houve factos, mas sim rumores.
Pois, há uma coisa mascarada de factos que é “aqueles tipos cuja fotografia eu tenho aqui fizeram isto, e eu sei porque estava lá”. Um caso muito semelhante aconteceu aqui em Portugal quando alguém fotografou vários bolos-reis no lixo em frente a uma Padaria Portuguesa. Alguém passou por ali e fotografou, mas nós não fazemos a mínima ideia se não terá sido essa pessoa a plantar aquilo tudo. Eu não faço ideia se isto que eu estou a dizer aconteceu assim ou não…

Está a questionar. Foi isso que pretendeu com o livro?
Sim, exato. O que os media fazem é, precisamente, mediar. É terem acesso a uma determinada informação e tentarem perceber se aquilo é verdade ou não e depois ouvir os lados todos. Repito: ouvir quem é atacado e quem fez a acusação. É um bocadinho como os tribunais. Todos estes exemplos são muito representativos da falência a que se assiste hoje no jornalismo e que é muito motivada pela fome de cliques e números.

É ir atrás do que é fácil porque dá números que, depois de apresentados às marcas, dão dinheiro. E o que dá cliques é precisamente a polémica. Basta uma figura pública publicar qualquer coisa numa rede social e um badameco qualquer ir lá e escrever que essa pessoa é feia. Se for preciso, um jornal qualquer pega nesse comentário, que é um no meio de 700, e faz manchete com um título tipo “estala a polémica” ou “comentário incendeia as redes sociais”. Não incendeia nada. Foi apenas um gajo que foi lá mandar um grito.

Chegámos a uma altura onde essas pessoas, mais do que querer defender o seu argumento, querem é atacar os outros e fazer estragos?
Um grande amigo meu, que eu costumo dizer que é o meu filósofo pessoal, diz que as pessoas hoje em dia não querem ser informadas, mas sim ter razão.

Antes isto acontecia muito no futebol e na política, mas agora dou conta que há uma certa “benfiquização” de tudo — e isso vê-se muito aqui quando dizem que o “Observador” é de direita e por isso não acreditam em nada do que eles dizem. Ou quando dizem que o “Correio da Manhã” é sensacionalista e que, por isso, também não vale a pena ler. Na Idade Média matavam-se os mensageiros, e não é bem os mensageiros que devemos atacar.

“Se não fazem isto na rua, porque é que o fazem na internet?”

No programa “Maluco Beleza”, de Rui Unas, Rui Sinel de Cordes disse que as pessoas pegavam nas frases mais polémicas de Donald Trump para mostrar como elas não eram assim e como achavam totalmente abjeto tudo o que ele defendia. É assustador viver numa altura onde cada vez mais precisamos de validação de estranhos através de likes?
Sempre precisámos de validação dos outros por isso é que vamos jantar com amigos, mas agora temos uma plataforma onde essa ideia fica escrita e que a torna mais elevada. Há uma coisa que o Ricardo Araújo Pereira diz que está em linha com essa afirmação do Sinel de Cordes: toda a gente que escreve uma coisa numa rede social, sente ter uma certa superioridade moral de dizer que nunca faria aquilo que está a criticar.

O que me espanta é este desfasamento para a realidade, não no sentido de que toda a gente deveria fazer isto na rua. Mas sim o contrário: se não fazem isto na rua, porque é que o fazem na internet?

Um professor meu diz que todas as crónicas ou textos feitos em redes sociais deviam começar com a frase “se eu mandasse”. Há muita tomada de posição por oposição, como há muita tomada de posição a favor de certos movimentos ou ideais — a mais recente aconteceu com o IRA [Intervenção e Resgate Animal], onde muitas pessoas se mostraram abertamente a favor ou contra.

No livro, Nuno Markl diz que as descargas de violências que se vê nas redes sociais são semelhantes às descargas de adrenalina que acontecem quando se visitam sites pornográficos. E que isso representa apenas uma parte do que é o ser humano. Revê-se nisto?
Claro que sim, não tenho dúvidas nenhumas quanto a isso.

Escritor e jornalista de formação, Nelson Nunes defende que o jornalismo deve ser cada vez menos neutro

Carla Oliveira

Mas é difícil às vezes não tomar a parte pelo todo?
Todas as pessoas têm um bocadinho de bom e de mau dentro delas. Aliás, a Maria João Marques disse no livro que as pessoas gritam na internet como forma de catarse e depois são boas pessoas na vida real. As pessoas não são unidimensionais e mais do que entender que há pessoas más e pessoas boas, prefiro acreditar que há pessoas que tendencialmente fazem coisas boas e outras que fazem coisas más.

Uma pessoa má pode fazer coisas boas, certo? Uma pessoa má ama os filhos, eventualmente. Essas descargas de adrenalina de que o Markl fala são quase uma descompressão da norma. Imagine uma pessoa muito boa, que trabalha muito bem e com quem o chefe está sempre muito contente, que trata lindamente a mulher e os filhos, mas que um dia chega à internet e apetece-lhe chamar vaca a alguém. É possível.

O Manuel Alegre também disse que gostava de touradas e houve muita gente, que simpatiza com ele e que sempre foi contra touradas, que não se indignou.”

O que me espanta é este desfasamento para a realidade, não no sentido de que toda a gente deva fazer isto na rua, mas sim o contrário: se não fazem isto na rua, porque é que o fazem na internet?

As redes sociais permitiram julgar e catalogar? O Nuno Luz, por exemplo, falou abertamente de como era fã de touradas e depressa foi catalogado como má pessoa por milhares de pessoas.
Sim, só que de forma mais rápida, porque nós já julgávamos e catalogávamos as pessoas fora da internet. As redes sociais são só mais uma plataforma onde nos podemos expressar. No caso específico do Nuno Luz, isso tem a ver não só com o facto de gostar de touradas mas também por ser o Nuno Luz.

O Manuel Alegre também disse que gostava de touradas e houve muita gente, que simpatiza com ele e que sempre foi contra touradas, que não se indignou. Como o Nuno Luz é uma pessoa que habitualmente é gozada e insultada desde sempre, torna-se num alvo fácil. Se houvesse aqui um princípio, seria este: quem é mais facilmente atacável vai ser sempre o mais odiado.

O Henrique Raposo tem a teoria de que se fosse de esquerda e tivesse escrito exatamente o que escreveu no seu livro [que no Alentejo o suicídio e a violência doméstica são fenómenos naturais], a indignação dos alentejanos nunca tinha acontecido. Precisamente porque no Alentejo há uma tendência de governação de esquerda ao nível das autarquias.

A polémica com Pedro Boucherie Mendes e o discurso de ódio

Pedro Boucherie Mendes publicou no Twitter que tomar o pequeno almoço fora de casa todos os dias era uma grande despesa ao final do ano. A polémica foi imediata e disseram que estava a julgar pessoas com menos posses. Antes disso, Isabel Moreira, deputada do Partido Socialista…
…foi apanhada a pintar as unhas no parlamento, sim, uma coisa gravíssima [risos].

Há uma luta para que não se deva dizer certas coisas, que ainda não foi ganha e que eu espero que nunca venha a ser ganha.”

Tendo em conta os casos de Henrique Raposo e, mais recentemente, de Pedro Boucherie Mendes, considera que estamos a entrar numa altura onde temos constantemente de medir o que dizemos?
No caso do Pedro Boucherie Mendes talvez seja menos defensável e nem tem nada a ver com a opinião dele, porque provavelmente até tem razão. Mas o Twitter tem aquela limitação dos 280 caracteres e isso levanta alguns problemas na hora de defender uma opinião.

A publicação que causou polémica no Twitter

Twitter

A verdade é que Boucherie Mendes acabou por ir para o Facebook explicar a sua visão, mas nem isso chegou. A polémica estava lançada.
Sim, o Twitter é um lodo. Mas é importante fazer aqui uma distinção: ainda bem que medimos o que dizemos. Não somos bichos e não queremos andar por aí a dizer coisas sem sentido. O que não pode acontecer é medir exageradamente o que dizemos sob receio de ofender os outros.

Isso é mais problemático, porque começamos a passar lixívia em tudo o que é discurso e se circunscrevermos o discurso, o que acontece é haver cada vez mais pessoas sensíveis e legitimadas a estarem sensíveis a certas coisas. Há uma luta para que não se deva dizer certas coisas, que ainda não foi ganha e que eu espero que nunca venha a ser ganha.

E quando se fala em discurso de ódio?
Não deve ser proibido, mas sim vigiado porque pode ter um perigo iminente. Sou um pouco idealista nisto porque compreendo que o discurso de ódio, tal como o vemos nas redes sociais, cause medo e ansiedade. Mas ao mesmo tempo tenho algum conflito em tornar esse tipo de discurso ilegal — porque são só palavras.

Nunca tanta vez foi partilhada a ideia defendida pelo filósofo Karl Popper, em 1945, sobre o paradoxo da tolerância, que diz que defender a tolerância exige não tolerar o intolerante sob pena de ver a tolerância erradicada. O que pensa disto?
O paradoxo da tolerância é, no fundo, uma defesa da intolerância por isso essa ideia também se esvazia em si. Ao seguir a ideia de Popper, estamos todos a ser intolerantes e a fazer uma apologia da intolerância.

Defender a tolerância exige não tolerar o intolerante, segundo Karl Popper

Medium

Repito: sou muito idealista mas não acredito na defesa da intolerância — seja para que lado for. Todos nós já dissemos mal de alguém ou já insultámos alguém de quem discordávamos, porque felizmente insultar não é ilegal. Mas será que devemos e estamos a ser justos? São essas as questões que eu coloco. Além de empatia com o outro, acho que precisamos também de uma maior tolerância para com o erro porque há alturas em que as pessoas escrevem o que escrevem, mas na verdade aquilo não passa de baboseiras.

Imagine que aquilo que o Boucherie Mendes escreveu tinha sido um erro e ele, no dia seguinte, escrevia na internet qualquer coisa como “malta, têm razão, eu fui estúpido”. Pode ter a certeza que aquele tweet não se tornava viral, porque assumir um erro nunca é viral. Viral é um comentário fora da norma que entretém os utilizadores das redes sociais durante várias horas.

Havia uma pergunta que muita gente fazia sobre a vinda da Le Pen cá que era: ‘Será que nós estamos preparados para ouvir uma fascista falar?’ E é grave o que ela diz, de facto…”

Na altura, o paradoxo da tolerância começou até ser citado com mais frequência aquando do anúncio da vinda de Marine Le Pen à Web Summit, que acabou por não acontecer.
O ponto mais grave neste caso nem foi o convite, mas sim o desconvite. Eles teriam todo o direito em dizer que ali, nazis não entravam. E tudo bem quanto a isso, na minha casa também só entra quem eu quero. O problema aqui foi dizerem “tudo bem, uma nazi pode vir” e arrependerem-se logo a seguir depois de um grupo de pessoas ter gritado com a organização nas redes sociais.

Idealmente, até achava interessante ter Kim Jong-un a falar sobre a sociedade dele, da mesma maneira que gostava de ouvir a Marine Le Pen a explicar qual é a ideia de sociedade para ela. Se eu apoio? Claro que não. Será que me vou enamorar pelas ideias dela? Epá, 99,99% de certeza que não. Mas acho interessante, precisamente para poder esvaziar a intolerância dela.

Eu sei que isto é idealista, a democracia também era um idealismo. Mas não nos vamos iludir: passadas umas horas, Paddy Cosgrove, o anfitrião, veio para o Twitter agradecer a publicidade gratuita que ajudou a esgotar os bilhetes. Aquilo também não foi muito bem inocente, deu jeito. Havia uma pergunta que muita gente fazia sobre a vinda da Le Pen cá que era: “será que nós estamos preparados para ouvir uma fascista falar?” E é grave o que ela diz, de facto…

Mas haveria diferenças entre ouvir Le Pen em Lisboa quando lidamos com o discurso de ódio diariamente? É recorrente ouvir declarações polémicas de Donald Trump, por exemplo.
Sem dúvida, principalmente porque no caso do Donald Trump há uma certa distância e essa realidade não nos diz muito por não ser tão próxima. O Trump é um fascista pateta que não mete medo a ninguém. Não é nada credível porque hoje diz uma coisa e, se for preciso, amanhã diz outra. Literalmente.

O que me parece é que, devido a todas essas incongruências, não conseguimos ver rasgos de malvadez naquilo. O Bolsonaro é diferente, é militar e disciplinado. Há uns laivos de Hitler nele, o que torna tudo mais problemático. A Le Pen é exatamente igual, devido ao paizinho que teve [Jean-Marie Le Pen, fundador da Frente Nacional, o partido de extrema-direita francês]. É uma maldade mais credível.

E talvez mais próxima? No caso da Le Pen por sermos europeus, e no caso de Bolsonaro por haver uma proximidade linguística e cultural com o Brasil?
Sem dúvida. Aceitar a Le Pen num evento não é uma simpatia ou uma cortesia e acredito que muita gente talvez se fosse identificar com o que ela ia dizer e até concordo que pudesse ser um problema. Mas como idealista que sou, não posso concordar com o desconvite.

Há pouco tempo, Bill Maher recebeu no programa dele o Steve Bannon, que é uma criatura abjeta e temível. Estamos a falar de Bill Maher, um democrata muito ligado a Bernie Sanders e a essa fação mais à esquerda do partido democrata, que não só recebe no seu programa um extremista como ainda consegue ter uma conversa civilizada com ele. Achei interessante mas daí a dizer que concordo com as ideias do Steve Bannon vai muito. Mas agora já sei mais ou menos como é que aquela criatura pensa.

Deve o jornalismo ser isento?

David Dinis, ex-diretor do “Público”, escreveu uma crónica para o jornal “ECO” a propósito da eleição iminente de Bolsonaro onde diz que o papel da imprensa “não é ficar neutra quando a disputa é entre a liberdade e a servidão, entre o bem e o mal”. Sendo jornalista de formação, qual é o papel de um jornalista atualmente?
A génese do jornalismo é precisamente essa: estar do lado da liberdade e do bem da comunidade — no sentido em que a deixa informada e lhe dá o máximo de recursos possíveis para decidir em consciência e com responsabilidade.

Mas deve não ser isenta? O texto foi uma espécie de crítica ao “Observador” e à forma como abordaram a eleição de Bolsonaro…
Sim, principalmente se houver alguém que faça campanha contra os media. Alguém que diga que se for presidente promete censurar ou fechar grande parte dos órgãos de comunicação social. Se estivermos em risco de ficar sem os meios que nos informam, então sim. Deve não ser isento.

É muito fácil chamar burro ao povo que elege um populista. Aliás, foi isso que mais se viu e leu quando Donald Trump foi eleito. O que as pessoas se esquecem é que o povo burro que elegeu Trump foi o mesmo povo que elegeu Obama.”

Recordo-me desse texto e concordo, especialmente em relação aos opinadores do “Observador”. Porque aquilo que se lia era a apologia ou a desculpabilização de existir o Bolsonaro. No que toca à parte editorial do jornal, não tenho nenhuma critica a fazer. Semprei achei que, enquanto peças de informação, cumpriam o objetivo de me informar sobre o que estava a acontecer no Brasil.

É claro que há fatores que são muito alheios à cultura portuguesa e embora seja importante condenar o fato de existir um Bolsonaro, a mente de um brasileiro não é a mente de um português, no sentido em que os contextos são diferentes e as maneiras de pensar também — há muito desespero.

Hitler também foi eleito muito por causa do desespero das pessoas que não tinham o que comer, a inflação era monstruosa e os outros países estavam a subjugar os alemães. O que Hitler fez foi pegar nesta narrativa e fazer aquilo que se sabe. Neste caso é importante conhecer esses fatores, sem dúvida, mas desculpabilizar e dizer que afinal o Bolsonaro não é nada daquilo… calma.

É muito fácil chamar burro ao povo que elege um populista. Aliás, foi isso que mais se viu e leu quando Donald Trump foi eleito. O que as pessoas se esquecem é que o povo burro que elegeu Trump foi o mesmo povo que elegeu Obama. Alguma coisa falhou.

As redes sociais promovem um certo ativismo, o problema é que esse ativismo baralha tudo ao achar que uma piada é uma ideia. Acha que uma piada também está a fazer ativismo, quando não está.”

Em 1903, a biógrafa de Voltaire escreveu uma frase que viria a ser atribuída ao próprio e que diz qualquer coisa como “Posso não concordar com o que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito de a dizeres”. Há uma dificuldade em perceber a liberdade de expressão como um direito e não como um privilégio?
Sim, e essa dificuldade tem a ver com a vontade das pessoas em terem razão. Todas as opiniões contrárias não servem para nada, pensam elas. Isso acontece muito nas redes sociais porque, à partida, as pessoas só veem aquilo que querem ver e forma-se uma atitude tribal onde outras ideias diferentes causam estranheza.

O escritor diz que escrever este livro foi mergulhar no esterco e até já saiu do Facebook

Carla Oliveira

Diz que a história do Henrique Raposo foi a que mais o surpreendeu mas, noutro espectro, a polémica com Rui Sinel de Cordes foi de tal forma violenta que houve quem exigisse a sua demissão da SIC Radical por uma simples piada. Como é que se chega a este ponto?
As redes sociais promovem um certo ativismo, o problema é que esse ativismo baralha tudo ao achar que uma piada é uma ideia. Acha que uma piada também está a fazer ativismo, quando não está. Uma piada é um mecanismo de dez ou quinze palavras que pretende fazer rir. Como o Sinel sempre fez piadas mais negras, e agora até as faz cada vez menos, esse tipo de ativismo achava que ele estava a perpetuar estereótipos e a privilegiar o discurso de ódio.

As pessoas descontentes com o trabalho dele criaram um grupo secreto onde decidiam que publicações do Rui Sinel de Cordes iriam denunciar. Depois de decidido, seguiam a ordem do querido líder e até chegavam a meter despertadores para não se esquecerem das denúncias em massa. Chegou ao nível de o Sinel ter uma fotografia em palco a ser denunciada por pornografia [risos].

Mas esse caso não me sensibilizou tanto porque eu já conhecia a história dele. A do Henrique tocou-me mais porque foi um ataque a uma opinião sustentada em factos que conduziu à queima de livros. Chegou ao ponto de o Henrique ter medo de andar na rua, e alguém que teve de passar por isto tem toda a minha admiração.

Apesar de dizer que não é anti-tecnologias, chegou mesmo a sair do Facebook.
Não sei se é para sempre, mas é como lhe disse: estive muito tempo a remexer no esterco e cansei-me um bocadinho de ler certos comentários. Desliguei mesmo, mas por enquanto encontram-me no Instagram e no Twitter.

Era isso que ia perguntar a seguir. Escolhe ir para o Twitter que é o que se sabe… Porquê?
Pois, exato [risos]. Mas no Twitter eu não sigo muita gente, é mais órgãos de comunicação porque me dão jeito pela forma imediata como veiculam a informação. Quando aconteceram os atentados em Paris, em 2015, eu senti-me mais informado pelo Twitter do que pelas televisões portuguesas.

Esteve no concerto deste ano dos Pearl Jam em 2018. Como é que foi ouvir uma interpretação da canção “Imagine” do John Lennon tendo em conta o contexto atual?
O Eddie Vedder [vocalista dos Pearl Jam] sempre teve muitos momentos desses e por isso não me causou estranheza. Mas gostei muito. E não foi nada inocente, como aliás, o próprio vocalista fez questão de dizer durante o concerto.

Aquele rapaz tem qualquer coisa nele, uma aura estranha, que dá uma energia muito especial às canções que interpreta.

Texto de Fábio Martins, fotografia de Carla Oliveira.
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