Barriga inchada, azia, náuseas ou dificuldade em fazer a digestão. Mais de metade dos portugueses passa por isto várias vezes por mês — 61,7%, para sermos mais precisos. A maioria também (57%) acredita piamente que a culpa é da alimentação. Será que é mesmo o único fator?

A Marktest e a Activia apresentam esta quinta-feira, 22 de novembro, um estudo sobre a saúde digestiva dos portugueses. Com o apoio dos especialistas Ana Bravo (alimentação), Filipa Jardim da Silva (sono), Rui Pinto (digestão), Sofia Castro Fernandes (stresse) e Sofia Veiga (atividade física), a análise procura compreender como anda o estômago dos portugueses.

E a resposta é que não anda lá muito bem. Mais de metade dos inquiridos, 750 no total, sofre de barriga inchada pelo menos algumas vezes por mês (52,3%); enfartamento/digestão lenta (39,2%); mau hálito (33,5%); azia (30,8%); prisão de ventre (29%); cólicas (28,8%); e diarreia (19,2%).

Se os números são preocupantes, a falta de conhecimento sobre a razão disto acontecer também. Apenas 26,1% dos inquiridos considerou que existem outros fatores além da alimentação que podem contribuir para problemas digestivos.

Ainda somos uma população pouco ativa

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Cerca de 35% dos inquiridos afirmam que passam entre três a seis horas sentados por dia; 24,9% sobe esse valor para entre seis a oito horas. Os indivíduos que dizem passar mais tempo sentados por dia são mulheres (41%), têm idades compreendidas entre os 25 e 34 anos (44,2%) e trabalham nas áreas dos serviços, comércio ou setor administrativo (49,0%).

Menos de metade dos portugueses diz praticar atividade física ocasionalmente, e apenas cerca de 28% diz praticar atividade física regularmente (na grande maioria, homens).

E quais são eles? Atividade física (ou falta dela), sono e stresse. Falando no primeiro problema, parece haver maior incidência de sintomas naqueles que não praticam qualquer atividade física (35,5%), comparativamente com os que o fazem de forma regular (21,6%).

Talvez esta fosse mais óbvia — se somos pessoas pouca ativas, estamos mais propensos a dores musculares/articulares. 51% diz senti-las ocasionalmente, sendo que as costas são a zona mais afetada (77%).

Mas então e o sono e o stresse? O que é que têm a ver com o estômago? A especialista em stresse Sofia Castro Fernandes e a psicóloga Filipa Jardim da Silva, ligada à área do sono, explicam.

O stresse pode dar cabo do nosso estômago

São números assustadores: 99% das mulheres dizem sentir pelos menos quase todos os dias algum dos estados (irritado, ansioso, angustiado ou dificuldade em concentrar-se). No caso dos homens, o número desce para cerca de metade. 58,9% afirma que o seu quotidiano é stressante.

Pois bem, estes dados podem justificar os números da saúde digestiva dos portugueses. “Às vezes não percebemos que alguns desconfortos que temos estão relacionados com o stresse”, explica à MAGG Sofia Fernandes, da Academia às 9.

Em primeiro lugar, importa perceber o que é que acontece ao nosso corpo quando estamos stressados. Seja real ou percepcionado, a reação do nosso organismo é sempre a mesma: “Aumenta a batida do coração, o nível de glicose no sangue e tensão muscular.” Em resposta, o corpo faz-nos agir de duas formas: lutar/fugir ou paralisar.

Sofia Fernandes, da Academia às 9, fala sobre as questões relacionadas com o stresse

Uma vez que estamos cada vez mais stressados, durante mais tempo e com maior frequência, há consequências no que diz respeito à fadiga, aumento de peso e desequilíbrio hormonal. E o que é que tem isto a ver com o estômago? O trato gastrointestinal tem um sistema nervoso próprio, cujas células nervosas e neurónios têm ligação direta ao sistema nervoso central e ao cérebro. Está tudo relacionado, portanto.

Além disso, e como se de uma bola de neve se tratasse, há uma relação entre o stresse a alimentação. “O stresse leva-nos a comer mal, uma vez que aciona um gatilho que nos faz ter vontade de comer este mundo e o outro, sobretudo doces”.

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Então e o que é que podemos fazer para reduzir o stresse? Na opinião de Sofia Fernandes, é preciso encarar esse objetivo como se fosse um plano alimentar. Em primeiro lugar é preciso ter essa consciência, de que é necessário desacelerar. Depois, é pensar na redução do stresse passo a passo, etapa a etapa.

“Não acredito na mudança de um dia para o outro mas sim na mudança de dia para dia. Em primeiro lugar é fazer um plano realista, de pequenas mudanças”. Têm de ser, portanto, passos pequenos mas também desafiantes — são eles que nos motivam. No caso pessoal de Sofia Fernandes, tirar 15 minutos para si por dia todas as manhãs, quando ainda ninguém acordou, foi uma ótima solução.

“Eu não abro mão desses 15 minutos. Esse tempo é só meu e permite organizar-me. Se calhar 15 minutos é muito tempo — comecem com dois, com quatro, com um. Não sejam pessoas snooze, que estão sempre a adiar”.

Também pode meditar, ir dançar numa sexta-feira à noite ou simplesmente sentar-se a ler um bom livro. Tudo depende do que é que efetivamente relaxa cada um de nós.

Quem dorme mal pode ter problemas de estômago

Os portugueses continuam a dormir mal. É a conclusão deste estudo, que afirma que 30% dos inquiridos não dorme entre seis a oito horas diárias. A grande maioria da amostra afirma dormir entre seis a sete por dia (39,5%). Quase metade dos inquiridos, cerca de 45%, afirmam que tiveram alguma dificuldade em adormecer e cerca de 49% afirmam também que tiveram alguma dificuldade a acordar durante os últimos três meses.

“Quando temos um sono que não é reparador, porque é mais superficial ou é interrompido, isto tenderá a alterar um conjunto de equações químicas”, refere a psicóloga Filipa Jardim da Silva. Assim, não se efetuam “as atualizações orgânicas necessárias durante a noite e não se permite que os nossos sistemas sejam reparados.”

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Dormir não é inútil, bem pelo contrário: é fundamental para o nosso corpo regenerar, como se fosse uma bateria de telemóvel que precisa de energia para funcionar no dia seguinte. Quando isto não acontece, acordamos mais cansados, fatigados e quimicamente alterados — o que influencia a digestão e sistema intestinal.

E voltamos à alimentação: dormir mal também nos faz querer comer mais, sobretudo doces, logo pode estar montada a receita da desgraça para o nosso estômago. “Quando estamos com o corpo mais cansado, o nosso centro de apetite acaba por sinalizar mais vezes ao longo do dia, e sobretudo dá-nos um sinal de desejo por comidas mais açucaradas e salgadas”.

Filipa Jardim da Silva é psicóloga e, neste estudo, fala sobre a importância do sono

É a estratégia do nosso corpo para ir buscar rapidamente energia, energia essa que deveria ter obtido — e não obteve — com um sono reparador.

E como mudar isto? Em primeiro lugar, é preciso perceber que o sono é de facto importante. Na opinião de Filipa Jardim da Silva, mais preocupante do que os dados revelarem que os portugueses dormem mal é o facto de estes acharem que dormir não é assim tão importante. “Continua-se a desvalorizar a importância de descansar. Continua-se a colocar tudo na agenda, e o tempo que sobra é então para dormir”.

Não pode ser assim. É preciso começar por mudar as prioridades na agenda: tal como trabalhar ou tirar tempo para si, é preciso dedicar horas para dormir. A par disso, deve preparar-se para a hora de descansar — não usar aparelhos eletrónicos uma hora antes de dormir, evitar alimentos ou bebidas estimulantes e ter um ambiente do quarto sossegado e escuro, com uma temperatura amena, são alguns dos chamados conselhos de higiene do sono. Há outros, como evitar atividades vigorosas nas duas horas que antecedem a hora de deitar ou estabelecer uma rotina antes de ir para a cama.

O estudo dá ainda destaque à questão dos sonhos: a maioria dos inquiridos afirma ter sonhado durante a última semana (55,4%). É mais raro terem pesadelos do que sonhos, mas a maioria diz que acaba por ter ambos (30,2%); sendo que os homens (25%) afirmam ter mais sonhos do que as mulheres (18%).

Mas qual é afinal a importância dos sonhos? “Os sonhos são uma componente importante do nosso sono. Normalmente traduzem o processamento de informação.”

Não é uma questão de ter muitos ou poucos sonhos, mas sim se acorda com eles. Os sonhos são uma forma de processarmos acontecimentos do dia a dia, ou situações mais impactantes. “Quando não despertamos devido a estes sonhos, percebemos que há um bom trabalho que está aqui a ser feito. O sono está-se a dar e está a ser feito um bom processamento de informação a vários níveis.”

Na manhã seguinte podemos lembrar-nos dos sonhos ou não, que pode ter sido bom ou mau. É indiferente: dormimos bem, o sono foi reparador, estamos prontos para um novo dia. Bem mais complicado é acordar a meio da noite com esses sonhos. São os chamados pesadelos e são tão vívidos que quase parecem reais. “Isso leva a uma maior ativação durante a noite e consequentemente uma menor qualidade do descanso”.