Se tivéssemos de lhe perguntar que idade têm as crianças que mais usam aplicações hoje em dia, provavelmente responderia 5 anos. Ou 7. Talvez chegasse aos 10. Pois bem, parece que não: em Portugal, são os miúdos dos 0 até aos 2 anos quem mais usa aplicações em dispositivos eletrónicos.

A conclusão é de um estudo realizado pelo Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing (CRC-W), da Universidade Católica Portuguesa, apresentado esta terça-feira, 16 de outubro, em Lisboa. Com base num inquérito realizado na plataforma Pumpkin sobre a utilização de tecnologia por crianças até aos 8 anos, 1.986 pais responderam sobre os hábitos dos seus filhos.

Crianças até 2 anos de idade são das que mais usam aplicações

Descobrir que as crianças que mais usam aplicações têm até 2 anos de idade é um dado surpreendente. Mas há outros.

— 90% tem ligação à internet, smartphones, computadores portáteis ou tablets;
— São os pais os primeiros a dar aos filhos acesso a dispositivos eletrónicos;
— 51% das crianças até aos 8 anos usam aplicações;
— 587 dos mil inquiridos que responderam que os filhos usam aplicações admitem permitir a sua utilização nos restaurantes, 490 fá-lo em casa, quando precisam de trabalhar ou de fazer tarefas domésticas, e 99 usam-nas para acalmar os filhos na sequência de uma birra;
— Apesar de os pais reconhecerem que as apps têm consequências na prática de atividade física (854), sono (702) e sociabilidade (616), 427 dizem que os dispositivos servem para fazer “atividades educativas”;
— Os pais admitem que não gostam que as apps não sejam apropriadas para os miúdos (544), admitem que são viciantes (424), violentas (422), não são educativas (400) e que os deixam acelerados e excitados (337).

O que diz um pediatra sobre este estudo

Na experiência de Fernando Chaves, pediatra no Hospital Lusíadas Lisboa, não são as crianças até aos 2 anos quem mais utiliza apps. “Acho que é um exagero”, diz à MAGG. “Não quer dizer que não possa haver crianças que, pontualmente, são entretidas com aplicações”, continua, no entanto dizer que é a maior fatia pode ser ir longe demais.

Em primeiro lugar, uma criança com 18 meses tem ainda pouca destreza — da mesma forma que pega mal num lápis, por exemplo, também não consegue ainda interagir de forma constante com uma aplicação. Ainda assim, acrescenta o pediatra, temos que considerar que há apps pensadas para crianças com esta idade. Só que depois levanta-se outra questão: a capacidade de concentração de um miúdo com dois anos é muito limitada.

“A partir dos três anos, uma criança consegue sentar-se à mesa, fazer um puzzle, estar à frente da televisão a ver um DVD. Até lá, a sua capacidade de estar concentrada é muito limitada”. E continua: “Por tudo isto que lhe estou a dizer, acho muito estranho afirmar que a grande maioria tem até 18 meses.”

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Há riscos de colocar crianças tão novas a usar aplicações?

“Daqui a uns anos logo veremos”, responde o pediatra Fernando Chaves quando questionado sobre os perigos de ter crianças de 18 meses a usar apps. Estamos numa era tecnológica única e, por isso mesmo, há temas sobre os quais é impossível fazer futurologia.

Ainda assim, continua, “nós sabemos que o excesso de jogos — e nesse estudo está demonstrado isso —, tanto pelo sedentarismo inerente a isso, como pela própria irritabilidade, falta de concentração, cansaço induzido pelos jogos, interfere na criança.”

Não posso culpar os pais que estão atarefados, e que se calhar não têm ajuda em casa e têm uma criança aos berros, por lhe darem um iPad para brincar por cinco, dez ou 15 minutos.”

É tudo uma questão de bom senso: nem nunca, nem sempre, a resposta estará sempre num saudável meio termo. Por outras palavras, os miúdos podem usar aplicações, mesmo tendo 18 meses, desde que estejam adequadas à sua faixa etária e seja por um período limitado.

“Não posso culpar os pais que estão atarefados — e que se calhar não têm ajuda em casa e têm uma criança aos berros — por lhes darem um iPad para brincar durante cinco, dez ou 15 minutos. Não me parece que seja prejudicial. Agora, obviamente que uma criança não pode estar um dia inteiro com um iPad na mão a fazer joguinhos só para não chatear os pais.” Na opinião de Fernando Chaves, “é uma questão de bom senso na utilização das novas tecnologias”.

No estudo realizado pelo CRC-W, 587 dos mil inquiridos que responderam que os filhos usam aplicações, admitem permitir a sua utilização nos restaurantes. Já 490 fá-lo em casa, quando precisam de trabalhar ou de fazer tarefas domésticas.

Sobre esses dados, o pediatra Fernando Chaves não vê qualquer problema. “Qual é a diferença entre a criança estar com um iPad ou com um Lego, um puzzle ou a ver televisão?”. No entanto, alerta o pediatra, mais uma vez é preciso bom senso no que diz respeito ao tempo passado com estas aplicações.

Uma história completamente diferente são os 99 que admitiram usar apps para acalmar os filhos na sequência de uma birra. “Eu não concordo que, para colmatar birras, a criança seja compensada. É uma questão de educação, regras e rotinas da criança, que muitas vezes falham nos dias atuais”.

Há estudos que comprovam que usar em excesso estas aplicações pode ser prejudicial para as crianças. Tudo por culpa da dependência psicológica, que se pode manifestar em irritabilidade. “Quando lhes tiram [os aparelhos eletrónicos], existe quase um síndrome de privação. Portanto, não é a questão das apps mas do tempo que estão a utilizá-las.”

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Há uma idade mínima para os miúdos usarem aplicações?

“Mal comparando, a nossa ideia alimentar é não introduzir os doces muito cedo na vida da criança. Mais tarde ou mais cedo ela vai comer um chocolate e terá a noção de que vai gostar de doces. Quanto mais tarde começar com estas coisas, melhor”.

Dependendo dos jogos e da própria destreza da criança, o pediatra sugere que o ideal será a partir dos 3 anos. E sempre com cuidado sobre o género de conteúdos que se apresentam aos miúdos: “Não vamos apresentar filmes estúpidos no YouTube, em que muitas vezes a criança nem sequer percebe o contexto”, diz. O melhor é optar por apps que sirvam para distrair os miúdos, claro, mas que também sejam didáticas.