Crónica de um espião #01. Deixa-me cá lambuzar-me de camarão que ninguém nota

Pedimos a um homem que percebe pouco de moda para passar três dias na ModaLisboa e descrever tudo o que o rodeia. Esta é a primeira crónica.

Foi para aí em 1998 que entrei pela última vez no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa. Na altura, vestia uns calções Umbro brancos, uma T-shirt velha e umas meias brancas até meio da canela. 20 anos depois, podia voltar aqui com o mesmo dress code que provavelmente iria ser fotografado para revistas, olhado com admiração por alguns dos presentes e até visto como um rebelde, um hipster daqueles que sabem jogar com a ironia visual para marcar uma posição.

Em 1998, jogar só mesmo à bola e posição só a a de avançado, porque o Pavilhão Carlos Lopes era um dos sítios fixes onde se podiam marcar jogatanas de futsal com os amigos. Hoje é palco de desfiles de moda. Pronto, tudo bem.

Lá está, passaram 20 anos, mas este rapaz que gosta é de bola, que consegue entender a moda tão bem como qualquer homem consegue entender a cabeça de uma mulher, estará este fim de semana na ModaLisboa, a convite da MAGG. E a fazer o quê? A espiar. Como assim a espiar? É, a espiar. Não é bem espiar, é a olhar, observar, a relatar aquilo que vou vendo, o que me aparece à frente, a falar do que entendo e do que não entendo, sem filtros, sem medos, sem necessidade de agradar a quem quer que seja, sem pressões, sem condicionalismos, daí, também, ter preferido o anonimato. Para os amigos leitores, sou apenas e só “O Espião”. Boa?

Então e que tal foram essas modas nesta sexta-feira? Nem sei bem por onde começar. Mas vou tentar. Se calhar falo já do papel higiénico, pode ser? Podia ser esse, o da casa de banho, mas ainda não o testei. Não, é o outro, o que está logo na entrada do evento. Então, uma pessoa entra no pavilhão e pumbas! leva logo com uma instalação da Renova com árvores e rolos de papel higiénico a fazer de folhas. Está bonito, está bonito. Nunca a reação “que merda é esta?” fez tanto sentido.

Dúvida, esta mais profunda, mais dentro do contexto moda: andar com uma muleta é uma cena trendy? Lá nos States, em Paris ou Milão, ou lá o que é onde ditam as tendências, isto é uma cena? Foi a minha primeira dúvida. Isto porque quando cheguei, e ainda antes de ser brindado com a instalação de merda, vi-a e lá ia ela a subir uma escadaria, uma moça toda boneca apoiada numa muleta. Não percebi mesmo. “Olha, esta magou-se”, pensei primeiro. “Alto! Magoou-se mesmo ou isto é daquelas coisas da moda?”. Fica no ar, digam-me vocês.

Vinha à espera do pior, é verdade. De ver o Castelo Branco de cuecas, de ver pitas de nove anos a tirar selfies para o Insta, de ver rapazitos de andas a cuspir fogo da boca (mas com uns looks impecáveis), de encontrar malta mascarada de urso pardo. Foi por isso com um mistozinho de tristeza que encontrei malta muito normalzinha. Até a Lili Caneças, meu Deus, até a Lili estava normalzinha. O que é que se passa com esta malta da moda?

Neste primeiro dia mais a sério da ModaLisboa não houve tempo para grande coisa. Lá vivi a experiência sociológica de assistir a um desfile, que é o momento perfeito para uma pessoa se sentir ainda mais burrinha. Aquilo na plateia é tudo gente que entende à brava do assunto. Por mais esquisita que seja aquela roupa, por mais improvável que possa parecer a ideia de alguém vestir aquelas coisas, no final, quando entra o designer, ui, meu Deus, ou melhor, Deus, aquele senhor é Deus, Deus aplaudido de pé por uma multidão endoidecida. O problema é meu, bem sei, que sou rapaz pouco esperto para as modas. Mas até gostei daquelas toucas de polo aquático do Ricardo Preto.

Do que eu percebo mesmo é de comida, sim, comida é a minha cena, e aqui nas Modas também há comida. Não há muita, há sandochas, gelados de fruta artesanais e há quiosques a vender camarão. Camarão. Portanto, uma pessoa veste as suas melhores roupas, passa a tarde no cabeleireiro, despeja meio frasco de perfume em cima, maquilha-se com aqueles pós e pincéis que custam meio salário mínimo e depois vai abancar na esplanada do quiosque da ModaLisboa a mandar camarão abaixo. E no final lambuza os dedos para tentar tirar aquele cheirinho que o camarão deixa? Talvez não resulte. Mas a verdade é que o quiosque estava cheio.

Vou só ali ao último desfile ver a que é que cheira a sala. Amanhã estou de volta e depois conto-vos.

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