“The Walking Dead” é como um amor incompatível, sem futuro e infeliz

Vi "Perdidos" até ao fim, aguentei a piada de mau gosto em que "Dexter" se tornou e já desisti de (quase) tudo, menos de séries. Até agora.

Estou quase como o Carl: de mão na cintura a fazer beicinho e a meio de uma birra devido ao estado a que a série chegou

AMC

Já desisti de paixões e amores incompatíveis que nunca na vida dariam certo, de tentar compreender as pessoas que se metem em praxes académicas com o objetivo de se integrarem, de me convencer que camisas coloridas conjugam bem com calças às riscas ou até mesmo de tentar perceber os filmes do realizador Wes Anderson (“Grand Budapest Hotel”). Também já desisti de vários livros a meio por me parecem demasiado aborrecidos ou simplesmente desinteressantes (estou a olhar para ti “Lolita”), mas se há coisa que nunca coloquei em hipótese foi algum dia vir a desistir de uma série, fosse ela qual fosse. Sou aquele tipo de pessoa que viu a série “Perdidos” até ao fim, que aguentou os clichés de “Segurança Nacional” até ao último episódio e que ainda hoje não consegue compreender o final desastroso de “Dexter” que arruinou por completo toda a história.

Não sei se esta minha insistência em continuar a ver séries que eu sei que são (ou que foram ficando) más é motivada por uma vontade de querer saber como é que aquela história vai acabar, ou se é apenas uma manifestação ligeira de ansiedade ao pensar na possibilidade de ter uma lista enorme de séries por terminar.

Isto para dizer que sim, que sou aquele tipo de pessoa que se força a ver algo de que não está a gostar, nem que seja para depois dizer o porquê de não ter gostado e explicar porque não merece ser recomendada ou vista por ninguém.

Com “The Walking Dead” foi diferente e tem sido uma relação complicada. Entre amuos depois de episódios chatos, momentos de traição em que a troquei por outra série melhor, e quebras de confiança pelo meio com algumas decisões narrativas questionáveis, no final ambos seguimos caminhos diferentes. Mas sempre a olhar para trás com alguma saudade e nostalgia — embora eu saiba perfeitamente que voltar à série seria como voltar a um desses amores incompatíveis e problemáticos.

A premissa de “The Walking Dead” era muito boa e é capaz de explicar o fenómeno que muito rapidamente se gerou à sua volta e conquistou uma legião de fãs. Não era uma série só sobre zombies (ou walkers, como são chamados), mas sim uma história de sobrevivência em que a humanidade se via obrigada a adaptar-se a uma nova realidade que tinha tanto de cruel como de assustadora. A ideia de que os vivos eram mais perigosos do que os mortos ganhava um novo significado, já que o instinto de sobrevivência levava a ações macabras que, num contexto normal, talvez nunca viessem a acontecer.

Foi isso que me prendeu e não o gore ou a violência gráfica (e gratuita) dos episódios, mas sim a existência de um guião que parecia sólido e que pretendia ir mais além com o objetivo de se distinguir das mais de muitas histórias que existem no cinema e na televisão sobre zombies.

Mas parece que os argumentistas, os criadores, e todos os responsáveis desistiram a meio e optaram pelo caminho mais fácil. Encheram os episódios de palha em que nenhum ou quase nenhum avanço era feito na história, e no final agarravam os espectadores com um acontecimento WTF ou surpreendente vindo do nada. Estava garantido que, na semana seguinte, esses estariam religiosamente em frente à televisão e refastelados no sofá à espera de mais um episódio aborrecido com uma reviravolta pelo meio.

Quando os criadores finalmente se aperceberam que os episódios não podiam ser só pessoas a fugir dos walkers, começaram a introduzir vilões — alguns muito bons e outros muito maus. O primeiro, e talvez o melhor de todos até à data, começou a revelar-se logo no final da primeira temporada. Falamos de Shane (Jon Bernthal), que se começa a apaixonar pela mulher do melhor amigo e personagem principal, Rick (Andrew Lincoln), que no início da série acorda de um coma no hospital e se apercebe que o mundo à sua volta mudou. Os restantes episódios são passados a mostrar o percurso que Rick faz para chegar à mulher e ao filho que partiram para outra parte do país sem ele.

Enquanto Rick tenta sobreviver ao novo mundo, nós tentamos não adormecer com a lentidão com que a história vai avançando e com os episódios onde não se vai passando nada. Até que, de repente, lá se encontram e Shane sente um misto de felicidade e tristeza. Como assim, o melhor amigo sobreviveu? E como assim vai agora voltar para a mulher que durante meses Shane tentou conquistar? Houve ali um triângulo amoroso esquisito, ciúmes e esquemas mesquinhos de manipulação que terminaram com o confronto inevitável onde Rick se viu obrigado a matar o melhor amigo que se tinha vindo a tornar cada vez mais violento e maníaco.

Tudo isto aconteceu depois de 17 episódios e mais de 760 minutos de televisão, numa altura em que a série ia apenas no início mas já começava a acusar cansaço e falta de ideias. Depois estrearam mais episódios com mais ou menos vilões, até que voltou a chegar outro muito importante mas que depressa deixou de fazer sentido.

Falamos do violento Negan (Jeffrey Dean Morgan), que apareceu pela primeira vez no 16.º episódio da sexta temporada e fez mossa ao matar brutalmente duas das personagens mais queridas e importantes da série: Abraham (Michael Cudlitz) e Glenn (Steven Yeun). Estava aberta uma nova rivalidade na série que, mal sabia eu, ia demorar cerca de duas a três temporadas até estar resolvida (e ainda não está). Rick odiava Negan e queria fazê-lo pagar por aquilo que fez a Abraham e Glenn. Adivinham onde está Negan na nona temporada, que estreou a 9 de outubro? Preso para que, diz Rick, Negan veja como “é possível mudar e não se tornar num vilão apesar de o mundo estar virado do avesso.” A piada faz-se sozinha, não é?

O mundo de “The Walking Dead” é horrível e as pessoas também, mas não há punição, desenvolvimento de personagens, ou sentido de justiça. São cometidos os crimes mais hediondos e as personagens normalizam o que aconteceu e seguem como se nada fosse. E o que dizer do elenco que sobrevive apenas devido ao carisma de alguns dos atores principais que por acaso até vão deixar a série já nesta nova temporada — como é o caso de Andrew Lincoln e Lauren Cohan?

Ahahah, tem muita piada. Só que não. É que não fazer de tudo para segurar as figuras da história e continuar a apostar em episódios longos onde o único movimento que existe é o das folhas a voar com o vento, é simplesmente gozar com a cara dos fãs que continuam a seguir a série. Nem vou falar da morte de Carl (Chandler Riggs), filho de Rick, que também deixou a série apesar de continuar vivo e ser muito importante na história dos livros de banda desenhada, que serve de base à adaptação televisiva.

Retomo a ideia anterior de equiparar a série da AMC a um amor antigo: vivi momentos fantásticos na sua companhia e reconheço que foi uma relação com muitos momentos incríveis e memoráveis, mas nunca esteve destinada a durar. É pena.

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