Ninguém gosta deles, são o inimigo público número 1 da fisiologia humana e têm uma estranha tendência para aparecer nos momentos mais inoportunos. Ódios de estimação à parte, os gases fazem parte da nossa vida e são tão essenciais como respirar, beber água ou comer.

Comecemos por perceber a diferença entre os chamados arrotos (o nome correto é eructação) e os gases intestinais. Apesar de ao final do dia ser tudo uma questão de ar, os arrotos formam-se no estômago enquanto os flatos são oriundos do intestino. Em patologias muito graves as coisas podem misturar-se, mas sobre esse cenário dramático falaremos mais à frente.

“Toda a gente dá um mínimo de 20 flatos por dia”

Voltemos ao pum. “Toda a gente dá um mínimo de 20 flatos por dia”, explica à MAGG o gastroenterologista António Pinto, do Hospital Lusíadas Lisboa. “Se não dá, isso não é normal. Ainda assim, é variável: tudo depende da alimentação e da flora intestinal.”.

São dois aspetos essenciais quando o assunto é flatulência. “Por exemplo, normalmente os vegetarianos têm um cheiro muito mais intenso do que os não vegetarianos“. Isto acontece “porque muitas das fibras e vegetais não são absorvidos e vão ser metabolizados por algumas bactérias que temos no intestino, que depois dão um cheiro característico”.

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Resumindo: quanto mais fibras ingerir, mais gases vai ter. Isso significa que devemos evitá-las? Nem pensar. As fibras têm vitaminas e minerais essenciais ao bom funcionamento do nosso organismo, além de que dão volume às fezes, importante para evacuar. Mais uma vez, e por mais incómodo que seja, emitir gases é normal.

Falámos da frequência e do cheiro, falta-nos abordar a temática do barulho. Uns são mais estridentes do que outros, mas isso não tem nada a ver com a quantidade de gases produzidos.

“Nós temos dois esfíncteres na saída do ânus: um interno, que nós não controlamos e que relaxa quando há saída de gases ou de fezes; e outro externo, que nós conseguimos apertar para reter. O ser mais ou menos estridente depende do grau de contração que nós temos nesse esfíncter.”

Quanto menor é a contração, menos ruidosa é a saída do gás. Isso é particularmente comum acontecer nos idosos, que já têm esse esfíncter de tal forma relaxado que podem emitir gases e nem sequer se aperceber.

O que acontece ao nosso corpo quando comprimimos gases durante muito tempo

Os gases são a coisa mais natural do mundo. E foram feitos para ser libertados porque, explica António Pinto, é assim que nós funcionamos. Só que há alturas em que somos obrigados a retê-los — seja porque estamos no meio de uma reunião ou a dormir pela primeira vez com o namorado. Às vezes é apenas durante uns minutos, noutros casos pode durar horas.

E o que é que acontece ao nosso corpo quando aguentamos até não podermos mais? A primeira resposta é óbvia: dores abdominais.

Imagine que, por uma razão ou por outro, passou o dia inteiro a reter gases. Ao final do dia, é bastante provável que tenha uma distensão abdominal. “Tendencialmente o que acontece é começarmos com espasmos abdominais, que são os próprios intestinos a tentar empurrar os gases”. Além de desconfortável, isto pode doer — e muito.

Comprimir gases durante muito tempo não pode originar doenças graves como por exemplo o cancro. Mas “há situações patológicas que podem aparecer associadas a isso”, como por exemplos os divertículos — pequenas bolsas e quistos na parede interna do intestino. “Os divertículos vão alterar a flora intestinal, o que também pode originar um cheiro diferente do que era habitual”.

A diverticulose, portanto, a presença desses sacos, sem sintomas associados (o que é habitual em 80% dos casos) não necessita de vigilância ou tratamento. Quando surgem complicações, porém, podem ocorrer hemorragias, perfurações ou infeções (esta última conhecida por diverticulite).

É possível os gases fazerem o caminho inverso e saírem pela boca?

A resposta é sim, mas apenas e só em casos patológicos. Repetimos: isto não acontece porque comprimiu gases durante muito tempo, é preciso haver uma situação médica grave a causar isto. Mas sim, é possível.

Há duas situações essencialmente que podem fazer com que os gases não façam o seu percurso normal: oclusão intestinal e íleos paralíticos. Na primeira situação, há um segmento do intestino que fica obstruído, seja porque torce (é o chamado volvo intestinal), seja porque tem uma massa que cresceu lá dentro.

“Imagine uma mangueira que torce. A partir daí a água já não passa e vai subindo a montante”. No caso do intestino é a mesma coisa — tudo o que seja ar sobre pelo tubo digestivo, podendo verificar-se ainda o vómito de fezes.

Temos também o caso dos íleos paralíticos, isto é, quando os movimentos de contração normais da parede intestinal não se fazem. Isso faz com que o ar fique parado no tubo digestivo, acabando por sair pela boca algum cheiro.