À chegada ao Pico do Arieiro tivemos a impressão de que aquele fora o lugar onde o mundo começara. Se David Benioff e D.B. Weiss, criadores da série “ A Guerra dos Tronos”, o tivessem descoberto de certeza que seria um dos locais de rodagem da série. Faltou pouco para vermos dragões. É das paisagens mais deslumbrantes da Madeira. Estávamos, literalmente, nas nuvens. Ou melhor, acima delas.

Conhecer a Madeira significa dar uso aos pés com calçado confortável e de câmara fotográfica em punho, porque todos os cantos dão imagens lindas, apesar da frustração de nada num ecrã ser comparável à vista que se crava no olhar. Mas também significa comer lapas, atum, bolo do caco, sem esquecer a poncha ou as bananas, que nascem das bananeiras que se veem por toda a ilha. É andar de barco e mergulhar no mar de temperaturas amenas, que condizem com aquelas que circulam no ar e que fazem dispensar o casaco, seja noite ou dia. É entrar a bordo do Lobo Marinho e dedicar algum tempo ao Porto Santo, a ilha de areias douradas, com nove quilómetros de praia e a primeira em que os navegadores portugueses, por acidente, tropeçaram, depois de uma tempestade os ter desviado do caminho marítimo em direcção à Índia — começou, por isso, por se chamar Porto Seguro.

A convite da Associação da Promoção da Madeira, a MAGG passou quatro dias neste arquipélago. Entre restaurantes, percursos pedestres, atividades aquáticas e sítios para comer, deixamos-lhe um guia com 14 sugestões obrigatórias na Madeira e no Porto Santo.

O trilho até à Ponta de São Lourenço, o Ribeiro Frio e o sítio onde a Terra começou

Nos caminhos do Ribeiro Frio

Por todas as costas da ilha há opções de diferentes trilhos. Em estadias curtas é impossível conhecer todos estes caminhos, mas é obrigatório fazer alguns pontos e percursos, não só pela beleza natural, mas porque são o reflexo da história desta ilha, seja pelas levadas (um sistema de irrigação construído no século XVI pelos habitantes da Madeira, que permitiu repartir e distribuir, por encostas e vales, a água das nascentes que se encontravam a norte da ilha), seja pela floresta Laurissilva, que ocupa 1500 hectares da ilha nas encostas viradas a norte, e que incluem espécies de vegetação que sobreviveram a cinco milhões de anos.

Há o trilho até à Ponta de São Lourenço, marcada por vegetação rasteira e com um clima mais árido e seco que contrasta com o verde e clima sub-tropical do Ribeiro Frio (ponto de partida para o trilho na vereda do Furado), onde fica uma grande mancha de floresta Laurissilva, com vegetação de cores fortes, muitas flores, cascatas, mais frio e humidade. O passeio pelos caminhos da Madeira terminou no local que gostamos de pensar que foi onde a história da humanidade começou: o Pico do Arieiro, o terceiro ponto mais alto da ilha, a 1818 metros de altitude na costa Norte.  É aqui que se inicia o trilho de sete quilómetros em direcção ao Pico Ruivo, ainda mais alto que o anterior, com 1862 metros de altitude.

Para uma aventura completa pelos trilhos da ilha, a correr — caso seja adepto da corrida de trail — ou a caminhar, pode sempre fazer-se acompanhar pela Go Trail Madeira, em todos os percursos que acabámos de lhe sugerir.

Passear na Fajã dos Padres (e provar as lapas do chef Amândio Gonçalves)

Com um clima mais abafado porque a encosta guarda o calor, visitámos este local próximo do Cabo Girão no último dia da viagem e deparámo-nos logo com uma horta à saída do teleférico, o único transporte que dá acesso à Fajã dos Padres, uma propriedade de 13 hectares que desde 1921 pertence à família Vilhena. Foi na adega que outrora serviu de capela, no tempo em que aquele sítio era ocupado por colonos e jesuítas (daí o nome), que Catarina Vilhena nos recebeu para nos dar a provar um vinho da casta Malvasia, que retirou para o copo diretamente da pipa, com uma cana feita à medida.

A Fajã dos Padres tem nove espaços de alojamento local, que foram reconstruidas, mantendo a traça antiga, do tempo dos jesuítas. Todos incluem uma kitchenete, onde se podem preparar as frutas e legumes da horta, dos quais os hóspedes podem tirar proveito. É também importante referir o restaurante da Fajã, com esplanada à beira-mar e com uma cozinha comandada pelo chef Amândio Gonçalves — foi durante dez anos chef do Belmond Reid’s Palace, o cinco estrelas mais antigo da Madeira onde Winston Churchil dormiu — que garante que um dos petiscos obrigatórios da ilha, as lapas, são servidos como se quer.

Procurar os golfinhos e ver o fundo do mar

Foi a bordo de um iate da On Tales, com ponto de partida junto à Calheta, que passámos uma manhã em busca de cetáceos. Não vimos baleias, mas, sentados na proa, conseguimos avistar um grupo de golfinhos. Os passeios com esta empresa incluem guia, bebidas e ainda mergulhos: com uma enorme cascata a erguer-se diante nós, saltámos borda fora, com direito a óculos para ver o fundo do mar. No final, é possível guiar o barco de volta à marina (com a devida supervisão), onde termina a viagem.

Ver as diferentes frutas do mercado

Com uma arquitetura típica do Estado Novo, que mistura o estilo da Art Deco com o Modernista, o mercado dos Lavradores é um sítio onde há cores vivas e cheiros doces, onde se vendem todo o tipo de legumes e frutas, até aquelas que nunca pensámos ver, que cruzam diferentes tipos, como é o caso da pêra-meloa. Em todas as bancas, os comerciantes dão a provar os produtos que têm. Na praça do peixe, não falta o atum ou o peixe-espada, dois dos mais típicos da Madeira.

Provar a sanduíche de peixe espada preto no Cristalina

É como dizia Pessoa, primeiro estranha-se, mas depois entranha-se. As sanduíches de peixe espada preto, uma das espécies mais abundantes da Madeira, que aqui é panado e envolto em farinha e ovo, são típicas da ilha. Recomendam-se as do Cristalina, no Funchal. Para quem prefere sabores menos intensos, há ainda a clássica sanduíche de gaiado seco, outra espécie de peixe abundante na ilha. Para acompanhar, não deixe de pedir um Brisa de Maracujá, o refrigerante mais popular da Madeira.

A poncha e a nikita

Aguardente de cana-de-açúcar, açúcar e sumo de limão são os ingredientes base da bebida tradicional da Madeira, mas se preferir com maracujá, também há. Dizem que com uma está tudo bem, com duas também. O problema torna-se sério à terceira. Passe pelo Venda Velha, um dos pontos turisticos obrigatórios, e pise o chão repleto de cascas de amendoim desta casa na animada Rua de Santa Maria, na cidade velha, no Funchal. A poucos metros está também a sucursal do Number Two — originalmente de Câmara de Lobos — um dos sítios, mais local, onde mais se consome esta bebida.

É fácil encontrar a Nikita pela ilha, que também está disponível no Number Two. Mas sugerimos o local onde ela nasceu. Fica em Câmara de Lobos o Farol Verde, a casa que criou esta bebida que mistura gelado caseiro de ananás, cerveja e vinho branco. Contrariamente à sanduíche de peixe espada preto, desta vez nem se estranha — entranha-se logo.

Porto Santo

O barco Lobo Marinho, que nos levou ao Porto Santo.

Ver a Vila Baleira

À saída do Lobo Marinho, o grande barco que, durante cerca de duas horas, nos transportou da Madeira à do Porto Santo, conhecemos Sofia Santos, uma das guias da empresa familiar de viagens e turismo Lazermar, que nos acompanhou na curta estadia nesta ilha.  Bastou entrar na carrinha para começarmos a descobrir factos interessantes sobre a ilha. Ao passar pela vila Baleira, a guia explicou-nos que o nome se devia ao facto de ainda hoje, quando se abrem buracos, serem encontradas balas no chão, dos tempos em que a ilha era vítima de ataques de piratas. Esta é a única e pequena cidade do Porto Santo. É aqui que se concentram os museus, incluindo a Casa-Museu Cristóvão Colombo, onde se pensa que habitou este navegador, que casou com a filha de um governador da ilha, fixando-se lá. É também aqui que se vendem as lambecas, os gelados mais famosos da ilha, servidos em cone de bolacha, que são retirados da mesma máquina há 50 anos, altura em que o negócio foi criado.

Entrar no Pico Ana Ferreira

Reza a lenda que Ana Ferreira era bruxa. Vivia à margem do resto da população da ilha e era a culpada pelos ventos bizarros (que só podiam ser magia negra) que sopravam deste lado da ilha. Mas não. Explicou-nos Sofia Santos que na realidade se tratava de uma filha bastarda de um rei português que por aqui se isolou. É esta história que dá nome a este vulcão com formas geologicamente fascinantes, compostas por colinas prismáticas e irregulares.

Conhecer o oásis na Madeira

O Porto Santo é uma ilha com um clima seco e ameno. Chove muito pouco (no século XIX estiveram 12 anos sem chuva), como Sofia Santos nos explicou. Não tem o cenário tropical — oficialmente sub-tropical — da Madeira, excepto num sítio: na Quinta das Palmeiras, o oásis na ilha, uma espécie de pequeno jardim botânico, com sombras, rosas, hibiscos, papagaios, araras exuberantes ou cisnes — e um café com esplanada. O proprietário é Carlos Afonso que abandonou a vida na Madeira para, durante 15 anos, se dedicar a este projeto que, segundo nos revelou Sofia, parecia estar próximo de uma missão impossível, não fosse a água utilizada ser transportada por um camião-cisterna.

Experimentar um tratamento de areias quentes

Não é uma experiência para todos. Mas comecemos pelas particularidades da areia do Porto Santo. Tem propriedades únicas: é carbonatada, tem magnésio e estrôncio, um elemento químico com poderes anti-inflamatórios. João Batista, engenheiro geológico, foi quem começou a estudar as propriedades da areia desta ilha, a que já foram associados muitos poderes terapêuticos.

Como é que se dá este tratamento? Entramos numa espécie de cama (ou túmulo sem tampa), de fato de banho. Depois, a partir de um tubo instalado na parede, os funcionários do spa do Hotel Porto Santo, começam a cobrir-nos com areia que vai aquecendo até cerca de 40 graus. Por isso, antes, é importante medir a tensão e ver se está tudo ok para avançar. Aquilo que experimentámos foi apenas a título de exemplo. Uma terapia de areias quentes, capaz de tratar problemas relacionados com reumatismo, para surtir efeito (que garantem que acontece) deve ter no mínimo 14 sessões, com duas sessões por dia.

Ver a Fonte de Areia

Há muitos anos esta era a zona do Porto Santo que tinha a água mais pura da ilha, tanto que era considerada uma fonte sagrada, pelos poderes medicinais. A água deu lugar a um cenário de erosão incrível, que faz lembrar um deserto, banhado pelo mar. A culpa foi do vento.

Há 30 mil anos não era assim. O ambiente era tropical, com mar quente, recifes de corais e muitos outros organismos marinhos. Mas depois veio a era glaciar. A última era glaciar. “Possibilitou a descida do nível do mar a 120 metros, expondo os corais e todos os outros organismos marinhos, que os ventos fortes fragmentaram e desmantelaram, começando a cobrir zonas da ilha — principalmente esta — com areia”, explica Sofia Santos.

É por isso que ainda se encontram fósseis de tudo o que ali existia antes: de árvores, aves ou gastrópodes terrestres. E é também por isto que existem as praias na zona sul da ilha: “O vento transportou a areia pelo interior da ilha. A erosão da arriba, as correntes e os ventos predominantes de norte e sul foram puxando as areias até criar a praia da zona sul, que tem 15 mil anos.”

Dar um mergulho na praia das Salemas

Há nove quilómetros de praia na costa sul do Porto Santo. E depois há a Praia das Salemas, situada numa pequena enseada na zona norte, que não tivemos a oportunidade de experimentar, mas que vimos cá de cima. A água azul turquesa e cheia de nuances que formam as pequenas piscinas naturais deram vontade de mergulhar diretamente da duna onde nos encontrávamos.

Aproveitar a praia do Cabeço de prancha no mar

Depois de uma breve mas pormenorizada explicação, lá estávamos nós num pingue-pongue de trambolhões para o mar e equilibrismo para que o mesmo não se repetisse. A técnica foi-se aperfeiçoando e saímos da água quente da praia do Cabeço felizes e contentes porque o stand up paddle é mesmo uma atividade espetacular, como quase todas as que se praticam no mar. O programa é ideal para quem quer usufruir da praia, mas com um pouco mais de movimento.

Para isso basta seguir em direcção à música que sai da pequena cabana no fundo do areal. É aqui que fica a On Water Academy, o negócio criado por João Palhas, natural de Portimão.

“O Porto Santo apresenta condições perfeitas para dar início a atividades marítimas”, justificou quando lhe perguntámos por que motivo tinha escolhido esta ilha como destino. Além do stand up paddle e de um pequeno bar, são disponibilizadas a partir desta cabana outras atividades, todas com material e instrutor incluido, como surf, kitsurf ou windsurf.

Almoçar com vista para um ilhéu Ponta da Calheta

Fica na ponta oeste da ilha. A paisagem é para a praia e para o ilhéu do Cal. O restaurante, descontraído, como não podem deixar de ser aqueles que se situam junto ao mar, tem uma esplanada extensa e uma carta onde se inclui polvo, lulas, lapas e peixe fresco.