Foi em 2012 que Terran Echegoyen-McCabe e Christina Luna, duas mulheres da força aérea americana, se sentaram no Fairchild Air Force Base, em Washington, para amamentar os seus filhos. Estavam de uniformes vestidos e de camisolas levantadas. Uma dava de comer a um bebé, enquanto a outra alimentava dois gémeos, cada um com direito a uma mama. A imagem tornou-se viral e gerou polémica. Houve quem dissesse que se tratava de uma desonra para o uniforme, alegando que o ato poderia ser equiparado a urinar ou defecar em cima dele. Houve quem se chegasse à frente — incluindo outras mães da força área — para dizer o contrário: a imagem prestigiava aquela instituição.

Exemplos como estes há muitos. Nas redes sociais, em capas de revista e até em desfiles de moda, atrizes, modelos e influenciadoras digitais mostram esta rotina, sem pudor. Como resposta, há comentários a aplaudir e outros a criticar. Apesar das várias campanhas a promover o aleitamento materno, defendendo a quebra dos tabus, o tema continua a estar em cima da mesa.

O caso das militares é claro na demonstração das posições existentes. Há quem defenda que a amamentação em público é a resposta a uma necessidade do filho e um ato natural, que não carece de ser resguardado, sem recurso a panos ou fraldas. Do outro lado, há quem, reconhecendo os poderes do leite materno, prefira a descrição e admita que não gosta de ver e de ser vista.

Na Semana Mundial da Amamentação, que decorre entre 1 de agosto e 7 de agosto, a MAGG ouviu três mães.

“Se fosse um homem, seria um problema?”

Há dez anos, Patricia Paiva, 33 anos, encontrava-se na sala de espera do Centro de Saúde, a amamentar abertamente o filho. Em pouco tempo, foi convidada pela enfermeira a ir para um sítio onde estivesse mais resguardada, protegida e à vontade.

“Disse que não. Disse que estava perfeitamente confortável”, conta à MAGG. Acredita no desmame natural, em que a decisão de deixar a mama está no filho e não na mãe, tanto que o primeiro mamou até bastante tarde. Encara o ato com normalidade e nunca quis usar fraldas ou panos para se esconder.

No comboio, no carro em andamento. Amamenta onde é preciso. Atualmente com uma filha de quatro meses, segue os mesmos princípios. “É algo que só faz sentido fazer quando e onde eles precisam. Nunca senti nenhum tipo de constrangimento, nem há 10 anos, nem agora”, explica.

As pessoas têm pudor porque acham que a mãe se quer exibir. Não queremos. Para isso, usamos decotes ou vestidos mais justos. Nesse momento o que interessa é dar de comer ao filho”.

Além de ser o alimento exclusivo nos primeiros tempos de vida, dar de mamar é, para Patrícia, muito mais do que isso. Ajuda a acalmar momentos de stresse, de dor. É um símbolo de carinho, um laço entre a mãe e um filho.

“Eles precisam de alimento e de conforto e a mama tem a vantagem de fazer isso tudo numa só vez. É uma ferramenta rápida e de fácil acesso para ser usada em qualquer lugar.”

O que está em causa é só e apenas a naturalidade do ato. É a maternidade a funcionar e uma ação que, do seu ponto de vista, não se pode comparar a muitos outros momentos íntimos.

Filipa Galrão, locutora da rádio Mega Hits, foi mãe há quase um ano e desde a primeira semana que amamentou em frente de quem lhe aparecia em casa para visitar o mais recente membro da família. A seu ver, esconder-se não fazia sentido nenhum porque ninguém se esconde para comer.

“Comer é uma coisa que temos de fazer. Não é um ato privado ou íntimo. Ninguém se fecha para comer, portanto o mesmo não deverá ser feito com uma criança”, diz.

Para a locutora, amamentar não é um ato que deva ser censurado e que não possa ser partilhado. Além de ter sido sempre uma rotina sem tabus na sua família, informou-se tanto sobre o tema que passou a olhar para ele com a naturalidade que acha que merece. A desinformação poderá, na sua opinião, ser a raiz para o constrangimento que outras pessoas sentem.

É a maneira como se olha para a mama, que tem uma conotação muito sexual e que, por isso, choca muita gente, por acharem que põe em causa princípios morais, o que eu acho absurdo”.

Na conta de Instagram, Filipa já publicou fotografias a dar de comer ao filho. Numa delas, a legenda dizia: “Shocking news: bobbies were made for breastfeeding”. Desta partilha, surgiram dezenas de comentários de apoio. Mas houve quem a acusasse de partilhar exaustivamente a vida nesta rede social, alegando que nem todos os atos naturais devem ser partilhados, como ir à casa de banho ou fazer amor.

“Tem a ver com preconceitos, religião, objetificação sexual de uma mulher. É a maneira como se olha para a mama, que tem uma conotação muito sexual e que, por isso, choca muita gente, por acharem que põe em causa princípios morais, o que eu acho absurdo”, explica Filipa Galrão.

“Se fosse um homem, seria um problema?”, pergunta a locutora. “Esses comentários ainda me dão mais força. As pessoas têm pudor porque acham que a mãe se quer exibir. Não queremos. Para isso, usamos decotes ou vestidos mais justos. Nesse momento o que interessa é dar de comer ao filho.”

Tanto é assim, que Patrícia Paiva passou a olhar para as mamas de outra forma, fora do campo da sexualidade. O seu peito é sinónimo de energia e de saúde. “Tenho orgulho nas minhas mamas. Passei a vê-las mais como fonte de alimento e de carinho.”

Reduzir amamentação e introduzir sólidos melhora sono das crianças

Nunca teve complexos com o corpo mas, mesmo que tivesse, presume que poria os interesses do filho à frente. “Normalmente acontece em público. Não vou privar o meu filho de ter o seu alimento, mimo e porto seguro quando ele precisa. Mesmo que não me sentisse à vontade, punha os interesses do meu filho à frente.”

Não está atenta aos sinais de desaprovação de quem não concorda, mas assume que é porque nem os procura. “Uma pessoa que tenta esconder o que está a fazer e se sente intimidada vê mais os olhares.” Por outro lado, faz sinal de força e de aprovação quando se depara com uma mulher a dar de mamar ao filho.

“Faço questão de fazer uma cara em que transmito solidariedade. Sinto realmente que deve ser aceite e que deve ser normalizado.”

Sem recursos a panos ou T-shirts, as duas mulheres não se tapam quando dão de comer aos filhos. “Não sinto qualquer necessidade e os meus filhos não gostam. A mais nova pede uma fraldinha na cara, mas apenas para a proteger do sol, quando quer dormir, por exemplo. O mais velho nunca gostou”, explica Patrícia. “Além disso, adoro o contacto visual quando estou a dar de mamar. É um olhar que só vejo naquele momento de interação.”

Mas isto não significa que o objetivo seja expor totalmente a mama. Não é isso que, para as duas mães, está em questão. “Tento usar roupas em que seja rápido, fácil e confortável”, diz Filipa Galrão, que há pouco tempo lançou uma marca de roupa, a Mamii, precisamente por sentir que não havia opções bonitas e práticas para usar no dia-a-dia ou em contextos mais glamorosos para as mulheres que precisam de amamentar.

“As roupas têm fechos em que praticamente o mamilo é que deve estar disponível para dar de mamar. Temos t-shirts em que a parte de cima, quando aberta fica em cima da mama para não se ver nada.”

“Não gosto de ver amamentar e não gosto de amamentar em público”

Marta (nome fictício) já deu de mamar num parque de estacionamento da Comporta, num carro de golfe do Penha Longa e num Tuk Tuk. Dá de mamar onde for necessário, mas detesta a exposição. A sua posição defende o bom senso e a privacidade, sempre que possível. Sente-se constrangida quando vê alguém a amamentar e sente-se constrangida quando é observada. No entanto, em primeiro lugar, estão os filhos.

Não entendo porque é que se tem de enfatizar, quando isto se sempre se fez a vida toda. Sou contra os excessos da nova geração, contra esta obsessão, contra esta exposição”.

“O meu pudor não me limita o ato, mas se puder evitar…”, diz. Em causa não está a amamentação em si. Marta já vai no terceiro filho e só lhes deixa de dar mama quando eles assim decidem. Entende que o aleitamento materno é fundamental para o desenvolvimento da criança e que isso é o que interessa.

“Eu faço tudo em supremo interesse da criança”, explica. “Se é o melhor para o meu filho, tudo o resto é irrelevante.”

Mas, do ponto de vista feminino, custa-lhe. Detesta a exposição do peito da mulher e considera que o ato de dar de mamar pode comprometer a sensualidade e auto-estima. “Tenho o meu corpo, que gosto que, como todas as mulheres, seja visto como sexy, como bonito.”

Nunca usou um biberão e sempre deu de mamar em locais públicos. Mas faz por ser discreta, por se recatar. Considera-o um ato “natural e bonito”, como tantos outros que o são e que devem ser privados. “Não quero que reparem e não quero que estejam a olhar para mim”, diz. “Só é preciso bom senso. Nunca ando com camisas para abrir e ficar com o meu peito todo exposto.”

Diz estar “na terra de ninguém”, porque são poucas as pessoas que encaram a situação como ela. Há quem se exponha sem problema e há quem se esconda para ninguém ver.

“Há várias posturas em relação à amamentação e eu não me identifico com aquela em que há uma mediatização do ato”, diz. “A publicitação excessiva é o pior. Não entendo porque é que se tem de enfatizar, quando isto sempre se fez a vida toda. Sou contra os excessos da nova geração, contra esta obsessão, contra esta exposição.”

A pediatra Joana Appleton Figueira explica que a melhor opção para alimentar o bebé é aquela que estas três mulheres, apesar de pontos de vista diferentes, praticam: “Para uma amamentação ideal não devem ser estabelecidos horários. Deve ser em livre demanda, sempre que o bebé pede”.

Desta forma se entende que “a opção de não amamentar em público pode vir a trazer problemas”, uma vez que “os sinais de fome podem ser ignorados e a mãe pode ter tendência para esticar os intervalos.”

A produção de leite materno é regulada, explica a pediatra, pela estimulação feita pela sucção do bebé, pelo que “a quebra da livre demanda pode prejudicar a produção da quantidade de leite que o bebé necessita.”

Por isso, nas primeiras quatro a seis semanas Joana Appleton Figueira aconselha a mulher que não quer mesmo amamentar em público “a sair muito pouco de casa, fazendo as saídas para perto, até ter a amamentação bem estabelecida”, uma vez que o desconforto e o stresse provocados pelo embaraço da exposição poderá “prejudicar a produção do leite”, pelo decréscimo da oxitocina, a conhecida hormona que reforça o vínculo entre a mãe e a criança, que também ajuda na “emissão de leite pela mama em resposta à sucção.”

Oxitocina. Tudo o que precisa de saber sobre a hormona do amor e da sociabilidade

Amamentar pelo biberão é diferente

“É diferente consumir o leite materno pela mama ou pelo biberão”, diz a pediatra. O que acontece é que o esforço e o tempo para retirar a mesma quantidade de leite são habitualmente muito maiores na mama, ajudando o bebé a identificar os seus sinais de saciedade.

“Quem bebe no biberão tem tendência para precisar de mais leite para estar saciado. E, habitualmente, bebe mais ar”, o que poderá fazê-lo bolsar mais e provocar mais cólicas. A ligação entre mãe e filho, pelo contacto da pele, poderá ser uma das vantagens apontadas, mas a realidade é que isto se consegue noutros contextos.

Mas há também o problema do biberão de plástico: “Ainda se tem a preocupação com a ingestão de compostos potencialmente perigoso pelo bebé”, por estar quente. E a própria produção do leite materno poderá vir a sofrer alguns problemas, porque “a extracção com bomba não é um estimulo tão bom para a mama como a sucção do bebé, pelo que pode acabar por prejudicar a produção do alimento.”

Ainda que a amamentação melhor para o bebé seja aquela em que ele come quando quer, a pediatra — assim como Patrícia Paiva e Filipa Garlão fizeram questão de frisar — considera que todas as escolhas são legítimas e “devem ser respeitadas.” O leite materno, seja pelo biberão ou pela mama, será sempre melhor do que o leite adaptado.

Por isso, para quem não quer amamentar em público a pediatra deixa algumas sugestões:

  1. “Nas primeiras semanas evitem extrair com a bomba para fazer stock. Usem-na apenas para diminuir o desconforto se estiverem muito aflitas com a descida do leite.”
  2. “Se não querem dar de mamar fora de casa, façam saídas curtas e para um local perto.”
  3. “Estudem o que existe no mercado. Há peças de roupa que ajudam a estar compostas e que fazem com que ninguém perceba que se está a amamentar.”
  4. “Se tiver mesmo de ser, extraiam com a bomba e usem o biberão. Mas não façam saídas de muitas horas e extraiam ou amamentem assim que chegarem a casa. Grandes intervalos sem amamentar ou extrair diminuem a produção do leite.”
  5. “Procurem um grupo de mães, como, por exemplo, La Leche League. Pode ser que na partilha com outras mulheres ultrapassem o desconforto.”