Crónica. As crianças já não sabem brincar umas com as outras (e a culpa é nossa)

É cada vez mais comum ver crianças a brincar com os pais. E cada vez mais raro vê-las a brincar umas com as outras. Isto é bom para nós?

No Verão passado, estava de férias numa praia do sul de Espanha e fui dar um daqueles passeios à senhor idoso, à beira mar, durante uma hora. Sempre que passava por aqueles amontoados de gente que se acumulam em frente aos resorts via o mesmo cenário: uma criança e um pai ou uma mãe a fazer buracos na areia, castelos na areia, bolos de areia. Cinco metros mais à frente, mais uma criança com o pai ou a mãe. Mais cinco metros, mais um rapazito com o pai ou a mãe. Estou a falar de miúdos que tinham aí entre os dois e os oito anos, e pais que deviam andar entre os 30 e poucos, 40.

Fui para a toalha e comecei a pensar um bocadinho na vida, porque uma pessoa na praia aborrece-se e tende a pensar na vida. Recordei-me de quando era miúdo e tinha os tais seis, sete, oito anos, dos tempos em que ia para a praia com os meus pais e das coisas que andava por lá a fazer. Não tenho uma só memória de os meus pais estarem ali na areia a brincar comigo ou com os meus irmãos. Da mesma forma que não tenho qualquer recordação de ver os meus amigos a brincar com os pais deles. Nós brincávamos uns com os outros, a toda a hora, o mais longe possível dos chatos dos adultos. Aliás, lembro-me, sim, de querer muito que os meus pais me deixassem sozinho com os meus amigos para nos podermos sentir verdadeiramente livres e podermos brincar da forma que nos apetecesse. E isto quando tinha sete, oito, nove anos.

Fui mais fundo na minha reflexão de praia — estava realmente aborrecido — e decidi, a partir daí, começar a observar os comportamentos entre pais e filhos não só na praia, mas como em vários momentos do dia a dia, em férias. E o cenário era o mesmo. Crianças a brincar com os pais, ou a fazer birra porque os pais não brincavam com elas, ao lado de outras crianças a fazer birra porque os pais delas também não brincavam com elas. Por momentos, tive vontade de chegar ao pé dos putos, agarrar-lhes por um braço, e dizer-lhes:

— Puto, ouve lá, este é Joselito, de Alcáçovas. Joselito, este é o Tomás Conceição, da Amadora. Agora brinquem.

Não o fiz. E não o fiz porque os meus próprios filhos, de 4 e 11 anos, são como o Joselito, de Alcáçovas, e o Tomás Conceição, da Amadora: também eles têm uma absoluta incapacidade de se entreterem sozinhos, a menos que seja com telemóveis ou tablets. Também eles, assim que chegam à praia me pedem logo para ir fazer buracos na areia, castelos de areia, bolos de areia, para ir jogar raquetas, dar cambalhotas ou ficar com eles duas horas e meia dentro de água (porque as crianças nascem com o termóstato avariado, só isso explica que para elas a água esteja sempre boa, mesmo que seja naquelas praias de Matosinhos em que só a brisa que vem do mar nos gela os ossos). E eu vou. Vou fazer castelos e buracos e bolos (há limites, não me apanham duas horas dentro de água, nem nas Caraíbas, que eu sou uma pessoa que tem frio). Agora pergunto: “Mas onde é que eu falhei?”. “E falhei?” “Deve ser este o nosso comportamento?”, “Devemos mesmo ser nós a assumir todas as brincadeiras com os miúdos e, com isso, não estimular a que eles brinquem com os outros miúdos?” Não sei bem a resposta.

Sejamos realistas, e esqueçamos o politicamente correto: brincar com os putos, na maior parte das vezes, é uma tremenda seca. Claro que há pais que adoram — vejam os pais do Ruca, por exemplo — mas não tenho dúvidas de que a maioria dos pais acham que brincar com as crianças é uma chatice (ou é pelo menos muito menos giro do que estarem a fazer uma cena deles, a ver uma série, a conversar com amigos, a ler um livro). Fazêmo-lo porque sentimos que é nossa obrigação enquanto pais fazê-lo (e até determinado ponto também o é), mas também o fazemos porque a sociedade incutiu em muitos de nós uma eterna sensação de que estamos constantemente a falhar com os nossos filhos, a faltar-lhes em tempo, a faltar-lhes em atenção.

Chegamos a casa estoirados do trabalho, ainda temos os banhos para dar, o jantar para fazer, uma máquina de loiça para aviar e sabemos que depois de os pormos na cama ainda há roupa para estender e a marmita do dia seguinte para preparar. O que acontece é que as semanas correm, passamos pouco tempo com os miúdos, e sentimos que quando temos um bocadinho mais de ar para respirar temos obrigatoriamente de brincar com os eles. Então, agarramo-nos a eles, fazemos-lhes as vontades, cedemos a tudo o que nos pedem, sacrificamo-nos, damos-lhes o que sobra da nossa energia. Mas isso faz-lhes bem? Faz-nos bem? Não sei, não tenho resposta. Mas sei que são situações destas que levam a que muitas pessoas se sintam angustiadas, deprimidas, infelizes com a vida, porque não conseguem ser elas próprias. Estão o tempo todo a ser qualquer outra coisa. São mães/pais das 7h às 8h30, funcionárias/os na seguradora das 9h às 18h, mães/pais das 18h às 21h, donas/os de casa das 21h às 23h e esposas/maridos das 23h até caírem para o lado de cansaço. E os dias passam-se assim, sem que haja um pequeno intervalo para podermos ser a Maria, a Teresa, a Carlota, o Pedro, o André ou o Manuel. Quando, ao fim de semana, podemos ser nós, fazer as nossas coisas, sentimo-nos mal com isso, porque os miúdos precisam de atenção, e por isso temos de brincar com eles. E entra-se neste loop.

Há outra coisa que também sei: os miúdos hoje são muito menos sociáveis do que eram, são muito mais atados, menos desenrascados, menos afoitos, menos ágeis, menos aventureiros, menos atrevidos, menos engenhocas. Serão seguramente muito melhores noutras coisas, mas têm menos skills sociais, o que, de futuro, pode vir a ser grave. Não se sabe ao certo onde é que isto nos vai levar, porque esta nova geração que nasceu a mexer em ecrãs táteis ainda não chegou à idade adulta, por isso ainda é cedo para se tirarem grandes conclusões sobre transtornos de personalidade ou vantagens efetivas de ser ter crescido num ambiente menos social e mais tecnológico, mas não estou propriamente otimista.

Tento fazer o meu papel, o de encontrar um ponto que considero equilibrado entre o estar com os miúdos, brincar com eles qb, mas também estimulá-los a criarem as suas próprias brincadeiras, a procurarem outros miúdos da idade deles que partilhem os mesmos interesses. Normalmente ouço algo como “Mas eu não quero brincar com o Joselito, de Alcáçovas, eu não conheço o Joselito, de Alcáçovas, eu não gosto do Joselito, de Alcáçovas”, mas se uma pessoa não insistir para eles comerem legumes eles também só vão comer batatas fritas, não é?

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