Histórias de casais que vivem em casas separadas. Serão mais ou menos felizes?

Sofia vive há 19 anos numa casa diferente do namorado, Magda tomou a mesma decisão em outubro. Uma psicóloga dá os dois lados da moeda.

O realizador Woody Allen e a atriz Mia Farrow viveram muitos anos em casas separadas, apesar de estarem casados

Vivem em casas separadas, mas isso não significa que a relação seja menos séria, que haja menos amor, compromisso ou paixão. Têm anos de namoro ou de casamento, mas prezam a independência e um espaço próprio. Não dividem contas ou rendas, mas é bem possível que morem no mesmo bairro e que tenham as chaves da casa um do outro. Fogem da monotonia ou do conflito, mas falam todos os dias e até se podem ver diariamente. Dormem juntos, porém só às vezes. São os casais a que se deu o nome LAT (Living Apart Together) e que nos fazem pensar: seriamos mais felizes vivendo em casas separadas?

Os casais LAT são uma minoria a aumentar em alguns países

Já em 2004, uma investigação avançou que, na Suécia, era cada vez mais comum casais, sobretudo mais velhos, preferirem viver em casas separadas — apesar de manterem relações longas e íntimas.

Um relatório do Departamento de Estudos Psicológicos da Universidade de Bradford, adiantou que, em 2013, 9% dos britânicos preferiam viver em casas separadas, apesar de manterem relações estáveis.

No Canadá, em 2016, 1,9 milhões de pessoas eram casais LAT, número que aumentou desde 2001, como demonstrou um estudo.

 

A moda não é nova, mas está a crescer em países como Inglaterra, Estados Unidos, Canadá ou Suécia, como indicam diferentes investigações. O mediático casal Woody Allen e Mia Farrow optou por fazê-lo, vivendo em pontos opostos do Central Park, em Nova Iorque, durante mais de uma década. Pronto, podem não ser o melhor exemplo de casal tendo em conta o relacionamento do realizador com a filha adotiva da atriz, Soon-Yi, ou a polémica em torno dos alegados abusos sexuais contra Dylan, outro filho adotivo da estrela de “Rosemary’s Baby”. Mas há muito mais histórias conhecidas: temos o realizador Tim Burton e a atriz Helena Boham Carter (“Fight Club“), que foram casados e vizinhos. Recuando ao início de século encontramos outros exemplos, como o caso de Jean-Paul Sartre com a escritora Simone de Beauvoir.

E por cá? Sofia (nome fictício) e o namorado estão juntos há quase duas décadas, e vivem em casas separadas há 15 anos. Já Magda Silva Veríssimo saiu de casa com a filha depois de quatro anos a viver com o marido — e isso salvou-lhes o casamento.

“Quem namora casa e quem casa quer casa”. Será?

Sofia não tem papas na língua. Não guarda rancores, mas diz sempre o que sente e o que acha. Não foge de discussões. O namorado é o inverso: odeia o conflito e quando se chateia cala-se. Em julho vão fazer 20 anos que se conheceram. Depois de um ano de namoro, foram viver juntos. Quatro anos depois, decidiram que o melhor seria cada um ter o seu espaço.

Na base da decisão estava a filha, na altura ainda pequena, do namorado. Era complicado, e as idades eram outras: ela tinha 28, ele tinha mais nove do que ela. Além da interferência de terceiros, neste caso da mãe da menina, ele educava a criança de uma forma que Sofia não se identificava — mas não podia dizer nada.

“Ao fim de quatro anos achámos que viver de baixo de quatro paredes era complicado, sobretudo porque havia uma filha da parte dele. As coisas não resultavam bem vivendo no mesmo espaço. Eu arrendei uma casa, ele ficou na casa que comprámos”.

A psicóloga e terapeuta de casais Rosa Amaral, da Clínica Europa, explica à MAGG que esta decisão é comum quando há filhos de um ou dos dois lados. “Tenho alguns casais que fizeram essa tomada de decisão porque têm filhos de relações anteriores. E quando estabeleceram essa nova relação optaram por ter as casas separadas. E vivem bem assim.”

Estão separados há 15 anos. Sofia garante que há muito amor, amizade e respeito entre os dois, os três pilares que considera fundamentais para uma relação e que, muitas vezes, se desmoronam pelo pouco espaço que se dá um ao outro. “Acredito que muito gente se separa e divorcia porque não põe sequer essa hipótese.”

Para este casal foi a decisão mais acertada: “É melhor. Temos mais saudades, coisa que se vivermos juntos não sentimos tanto.” Veem-se todos os dias, uma vez que partilham um negócio (são donos de uma loja de cigarros eletrónicos) e fazem tudo em conjunto — “menos viver juntos”.

As contas do supermercado são separadas, bem como as da água, luz ou gás. As despesas não se dividem e pesam mais no orçamento. Este é o único “lado negativo” de viver assim. Cada um tem a sua estrutura montada, completamente independente da do outro. Não há horários para visitas e dormidas. “É conforme nos apetece”, relata. No entanto, houve uma regra estabelecida desde início: “Vivemos a cinco minutos de carro um do outro. Eu tenho as chaves dele e ele tem as minhas. Se precisar pode vir cá, quando quiser, e eu posso ir lá.”

Apesar de Sofia e o namorado serem felizes em casas separadas, foram alvo de críticas — incluindo da família. Houve quem dissesse que a relação não tinha credibilidade porque “quem namora casa e quem casa quer casa”. Será? Para eles não foi bem assim. Seguiram o caminho que escolheram e 19 anos depois estão juntos. Ainda discutem, como fazem os namorados, mas os problemas resolvem-se rapidamente.

Uma vez, já em casas separadas — mas ainda não trabalhavam juntos —, chatearam-se e Sofia terminou o namoro. “Estive uma semana sem falar com ele. Mas um dia cheguei a casa e recebi uma SMS a dizer: ‘Vai à janela da cozinha’.” O namorado estava no quintal do prédio a fazer-lhe uma serenata, com a ajuda de dois amigos. Ele cantava, um tocava maracas e o outro pandeireta. No final, já com as vizinhas à janela a perguntarem se podiam assistir, desceu e fizeram as pazes.

Apesar de funcionarem muito bem neste registo, não descartam a possibilidade de viverem um dia na mesma casa. Querem envelhecer juntos, mas num sítio com quartos separados, porque é preciso haver espaço — não só para a relação como para os feitios diferentes.

Em duas décadas, passadas quase sempre em casas separadas, Sofia garante: “Nunca pensei noutro homem.”

“Ele hoje vem cá dormir”

É uma frase que repete, quase como se estivesse a alertar os pais — como fazem os adolescentes — para o facto do namorado vir passar a noite consigo. Mas não. O alerta é dado à filha e a pessoa em causa é o marido, com quem não vive desde outubro, decisão que foi feita não pela extinção do amor, mas porque a relação estava a degradar-se pela partilha do quotidiano doméstico.

“Ele tratava da cozinha porque gosta de cozinhar. Eu ficava com a roupa. Uma vez foi para fora e eu tinha de fazer o jantar. Não encontrava nada do que queria e não havia ingredientes que quisesse usar. Não pude fazer comida”, conta Magda Silva Veríssimo, 33 anos, que viveu com o marido durante quatro anos.

A situação pode parecer banal, corriqueira e insignificante, mas há o efeito cumulativo que faz com que episódios aparentemente irrelevantes ponham em causa a continuidade de uma relação.

“Nós temos hobbies em comum, horários similares, mas depois, como tínhamos vivido os dois sozinhos bastante tempo, estávamos habituados a ter um estilo de vida muito próprio em casa. Estávamos habituados a fazer as coisas de uma certa forma. Os pontos em que queríamos estar em contacto não eram os do quotidiano.”

O que temos hoje está mais parecido com o que tínhamos quando namorávamos. Mas a única coisa que mudou foram as rotinas de casa e o tempo que passamos juntos. Só se quebrou a rotina diária que era bastante massacrante.”

Em outubro do ano passado, Magda tomou uma decisão: mudou-se com a filha para uma casa. A escolha não foi consensual de início, mas a ideia enraizou-se e, passados poucos meses, os dois estão bem com esta nova forma que o casamento ganhou.

Veem-se quatro vezes por semana. Ele dorme em casa dela quando está de folga e ela em casa dele quando acontece ao contrário. Noutras ocasiões, é o marido que faz 60 quilómetros (ela vive em Lagos, ele em Vilamoura) para dormir com a mulher, porque há toda a questão da logística da filha, que anda na escola e tem atividades extra-curriculares.

“Acho que a nossa relação está mais feliz. Somos os dois felizes. E, antes, não éramos. Ele sentia-se muito na obrigação por causa dos horários, que acabava por ser eu a estipular em função da minha filha, e isso fazia-nos viver num clima de tensão que era tóxico.”

A separação física impediu a separação matrimonial. Os sentimentos são os mesmos, exceto os maus, que foram atenuados pela distância. “O que temos hoje está mais parecido com o que tínhamos quando namorávamos. Mas a única coisa que mudou foram as rotinas de casa e o tempo que passamos juntos. Só se quebrou a rotina diária que era bastante massacrante.” De resto, fazem tudo da mesma forma: “Viajamos juntos, vamos a festas de família juntos, convivemos e dormimos juntos.”

“Sim, é quase como um eterno namoro”, explica a psicóloga e terapeuta de casais Rosa Amaral. “Há um lado positivo em viver com alguém que só vive quando eu quero e ele quer. Vamos jantar fora, vamos ao cinema, passamos fins de semana fora. Não há desgaste. Não há meias fora do sitio. São relações que poupam a relação”.

No entanto, o modelo não funciona para todos. E o percurso natural, em circunstâncias normais, continua a ser outro, porque faz parte da “natureza humana”, que faz um caminho de “evolução típica”: “Quando se começa uma relação a dois, o culminar dessa evolução é a dos projetos conjuntos. Queremos dormir juntos, partilhar, chegar a casa e ter lá a pessoa que nos acarinha e que está connosco em todos os momentos.”

Estas relações são melhores do que as outras?

Não há respostas definitivas quando se fala de relações. Somos diferentes e valorizamos aspetos diferentes. Temos bagagens mais ou menos pesadas, que influenciam, ou não, o curso das nossas vivências. O bolo somado, aliado à personalidade, é que ditará se o equilíbrio e felicidade de um casal será melhor debaixo de um teto diferente.

A psicóloga Rosa Amaral vê vantagens e desvantagens neste novo formato. O novelo é grande, mas há um fio mais evidente: as novas famílias, cheias de ramos, são um dos pontos que mais poderá levar a que se mantenham relações em lares diferentes. É, aliás, o que nota em consulta. E as coisas funcionam bem.

Junta-se a isto a idade. “Para uma pessoa já mais madura, que tem a vida, as suas rotinas e particularidades estabelecidas, que funciona bem como casal na parte mais simpática da relação — jantar fora, idas ao cinema, conversas — poderá ser complexo viver com outra pessoa e adaptar-se aos ritmos, à higiene, às arrumações e desarrumações”, explica a psicóloga. “Viver em casas separadas numa relação pode ser positivo porque são pessoas distintas e que, vivendo na mesma casa, não conseguiriam manter-se juntas.”

Em casais sem bagagem, mais novos, poderá ser sinal de alerta. Por mais que se racionalizem as vantagens — menos conflito, espaço para cada um, menos monotonia — há que ter em consideração o instinto da posse, não no sentido da obsessão e ciúme, mas naquele que é inerente ao ser humano e que o faz querer ter alguém na sua vida que ame, que a faça sentir-se amada e com quem possa partilhar todas as rotinas.

Se por um lado a falta de vontade de viver na mesma casa poderá ser sinal de que há medo em assumir uma relação (porque é mais fácil a rutura estando em lares diferentes), poderá ser também indício de que, estando nestes moldes, os sentimentos são, de facto, reais.

Há prós e contras. Mas a relação pode seguir para a frente em casas diferentes, desde que se respeite uma regra: “Esta proposta só funciona se for em sintonia, como se se tratasse de uma tomada de consciência: ‘Não dá. Vamos tentar assim. Olha, até funciona’”, diz. “Se for assim, acredito que se encontre maneira de fazer a relação funcionar. Mas, havendo fragilidades individuais, estas podem exacerbar-se ou levar a um rutura.”

Apesar de o instinto se manter, há que considerar as mudanças dos paradigmas culturais. “Cada vez mais os seres humanos disponibilizam-se para pensar o amor noutras formas, menos tradicionais e fechadas em definições. Antes as pessoas casavam e aturavam tudo e um par de botas. Agora, aposta-se cada vez mais em modelos de bem-estar, de felicidade e de tranquilidade.”

O que importa é que haja um acordo e que a decisão seja do agrado dos dois, sem levantar inseguranças ou medos. “Costumo dizer que o que interessa é que funcione bem. Há casais em que é impensável, porque se um quer mais e outro menos, geram-se desequilíbrios. Mas quando é consensual, e quando há forças maiores de que esta é a forma certa, então funciona bem.”

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