David Fonseca: “Aos 80 anos ainda haverá alguém a perguntar-me porque é que canto em inglês ou em português”

A propósito do seu novo disco, o músico falou de vários temas, desde a violência pensada de Trump e de Kanye, aos críticos que o fazem rir.

"Radio Gemini" é o novo trabalho de David Fonseca que, desta vez, voltou às canções em inglês

Universal Music

Entrámos nos estúdios da Universal Music, em Lisboa, e fomos recebidos por David Fonseca com a boa disposição e descontração que já lhes são características. Numa das paredes dos estúdios, decorada com inúmeros discos de vinil de vários artistas, estava o primeiro disco a solo do músico, natural de Leiria, virado de pernas para o ar junto a um disco de Luísa Sobral.

“Porque é que o meu disco está virado ao contrário? De certeza que foi a Luísa [risos]”, disse, embora o tenha deixado como estava por “destoar dos demais e parecer mais engraçado”. De certa forma, esta é uma atitude que representa a atitude de David Fonseca na vida e na música, que diz nunca se levar muito a sério e ter uma “abertura gigantesca para ser insultado de alto a baixo” e rir de si próprio.

O artista, conhecido por singles como “Someone That Cannot Love”, “The 80’s” e “A Cry 4 Love” falou de tudo — de como foi visitar pela primeira vez o Japão, de como já não sabe o que responder quando lhe perguntam porque alterna entre o português e o inglês nas canções, e de como é viver numa altura em que Donald Trump e Kanye West fazem uso de uma comunicação que tem como objetivo gerar conflito e discórdia.

Como surgiu este novo disco?
Geralmente quando parto para os discos já tenho mais ou menos uma ideia daquilo que quero fazer e este não foi muito diferente. Eu queria fazer um disco sobre dualidades, ou seja, ter dois pontos de vista em que um dialoga com o outro. Achei que este era um bom ponto de partida para ver onde é que isto ia dar mas, à medida que o disco foi sendo escrito, acabou por se multiplicar em várias coisa e passou a ter vários lados e várias vozes.

A ideia inicial era que o disco se chamasse apenas “Gemini” mas depois aquilo tomou um sentido radicalmente diferente e acabou por ter muitas mais frentes e muitas mais vozes do que eu estava à espera. Foi a partir daí que achei interessante começar a perceber o disco como uma espécie de frequência, e achei que a metáfora do programa de rádio era uma boa forma de explicar isso.

Dada a metáfora do título, é uma pessoa que liga a signos?
Não, nada. Mas gosto da metáfora do signo em si. Regra geral, gosto muito de metáforas e se a metáfora pode e serve, é indiferente se acredito em signos ou não.

O videoclipe da canção “Oh My Heart” foi gravado no Japão. Foi a primeira vez que lá foi?
Sim, foi. Fazer o vídeo no Japão foi uma junção de duas coisas: a minha vontade de o querer visitar e fazer um vídeo em playback, que não costumo fazer.  Mas foi um risco porque, como nunca lá tinha ido, não fazia ideia do que ia encontrar e não sabia se era possível levar a cabo a ideia que eu tinha na cabeça. Não só foi possível como foi incrivelmente fácil. Não houve autorizações, nem nada desse género. Simplesmente ia para os sítios que queria filmar e, como qualquer turista, filmava. A única coisa diferente é que era eu quem estava à frente da câmara.

Procurei, junto de uma amiga que adora o Japão, encontrar os sítios turísticos porque quantas mais pessoas estivessem no vídeo, mais graça teria. Eu calculava que a maior parte das pessoas me iriam ignorar por isso achei que seria engraçado ter imensa gente a andar normalmente e eu estar ali a fazer uma grande festa como se só eu é que soubesse o que se estava a passar.

Durante as gravações do videoclipe, os japoneses metiam-se consigo ou ignoravam?
Eles todos olhavam pelo menos uma vez, e depois ignoravam-me. Há muitas cenas que eu gravei e que não estão no videoclipe, algumas delas até dentro do metro com muita gente lá dentro e eu ali a cantar com eles todos à minha volta. Até nesses momentos eles olhavam mas depois ignoravam por completo. Como não era nada com eles, ignoravam mas respeitavam sempre o que eu estava a fazer. Houve um ou outro que de vez em quando lá se metia comigo como, aliás, até aparece no vídeo que, de uma forma muito bem disposta, veio dançar comigo e até me convidou para ir para a festa com ele.

Qual o homem que nunca deixou crescer a barba e o cabelo para ver como ficava? Toda a gente fez isso, menos eu, porque estou numa área em que a minha imagem está muito ligada à minha profissão e as pessoas identificam uma certa maneira de ser.”

Com este novo disco voltou novamente ao inglês. É uma escolha pensada ou é-lhe natural?
Não é pensado nem é natural. Eu no outro dia brincava com essa pergunta porque é muito difícil saber o que responder a isso. Eu achei que, a certa altura, essa pergunta se ia desvanecer mas estava enganado. Na maior parte das entrevistas que fiz a propósito do meu último disco em português, o “Futuro Eu”, foram várias as perguntas a querer saber porque é que não havia canções em inglês.

Acho que é uma coisa que tenho de continuar a fazer para manter esta rotina entre entrevistado e entrevistador. Tenho a sensação que aos 80 anos e, se ainda estiver fazer música, ainda haverá alguém a perguntar-me porque é que canto em inglês ou em português.

Não é uma maneira de não estagnar? Tal como quando deixou crescer a barba e o cabelo?
Não, nada. A barba e o cabelo nada tiveram a ver com isso, foi só preguiça [risos]. Qual o homem que nunca deixou crescer a barba e o cabelo para ver como ficava? Toda a gente fez isso, menos eu, porque estou numa área em que a minha imagem está muito ligada à minha profissão e as pessoas identificam uma certa maneira de ser. Quando estive envolvido no disco de versões de David Bowie, eu não era a cara do disco e por isso pensei que era a oportunidade perfeita para esta experiência capilar e foi assim que aconteceu.

Depois passou-me…

Mas não gostou?
Não gostei nem desgostei, foi-me completamente indiferente. A certo ponto, a minha imagem é uma coisa que acaba por ser tão explorada de tantas maneiras que acaba por não ter grande peso na minha vida real. Por isso não penso muito nisso e não sou assim tão vaidoso.

Há diferenças entre cantar em português e inglês?
Sim, porque as línguas funcionam de forma completamente diferentes. Basta traduzir uma canção de inglês para português, ou vice-versa, para perceber isso mesmo. Pessoalmente, acho muito mais fácil escrever uma música em português do que em inglês porque a nossa língua é estupidamente mais rica do que a inglesa. No entanto, para mim é muito mais complexo cantar em português do que em inglês.

Eu creio que não faço música para críticos, mas sim para mim e para quem a quiser ouvir. Para quem a quiser delapidar, não. É uma coisa que acontece porque é assim que o meio funciona.

Não sei se é por estar habituado ou por ter ouvido muita música em inglês. Mas agora que penso nisso, acho que estou a dizê-lo mal. Eu acho que não é nem mais fácil nem mais difícil, é só diferente.

O urso na floresta e o insulto inesquecível

É um artista que liga muito a críticas?
Não, nem às boas nem às más porque já tive de todas. Houve um momento em que me apercebi que as críticas não tinham assim tanto significado para mim. Há uns anos fiz um disco chamado “Our Hearts Will Beat As One” e duas publicações diferentes de dois jornais diferentes, e de referência, fizeram uma crítica ao disco. Um deles dava-me dez estrelas, numa escala de 0 a dez, e eu achei aquilo exagerado. Eu gosto do disco mas aquilo não era nenhuma obra prima.

Do outro lado, houve alguém que me deu uma estrela e eu pensei “ok, também não é assim tão mau…” Eu creio que não faço música para críticos, mas sim para mim e para quem a quiser ouvir. Para quem a quiser delapidar, não. É uma coisa que acontece porque é assim que o meio funciona. Se fico contente de ler coisas boas? Claro que sim. Mas não fico zangado por ler coisas más e, por vezes, até acho alguma piada.

Qual foi o insulto ou a crítica negativa mais estapafúrdia que recebeu?
Há um específico que eu faço questão de contar nos meus espetáculos ou em conversas com amigos. Nunca mais me esqueci dele desde a primeira vez que o li. E é qualquer coisa como: “Se forem atacados por um urso na floresta, cantem-lhe uma canção de David Fonseca. Vão morrer na mesma, mas assim o urso também sofre.” É genial [risos]. Não só é original e engraçado, como tem ali uma toquezinho que ninguém estava à espera.

Não se leva muito a sério?
Não. Eu gosto muito de música e, principalmente, gosto daquilo que faço. Mas nunca me levo muito a sério porque acho que uma pessoa que se leva demasiado a sério acaba por perder muitas coisas na vida e eu estou determinado a não perder essas coisas e, portanto, tenho uma abertura gigantesca para ser insultado de alto a baixo e rir de mim próprio. Isso não impede que eu faça a minha música seriamente, assim como também não impede as pessoas de odiarem a minha música.

Mas eu prefiro que alguém odeie a minha música do que ficar indiferente. Confesso que fico muito contente quando vejo alguém com um ódio visceral por mim, porque significa que estou a servir para qualquer coisa.

Qual é a sensação quando acaba de gravar um disco?
Quando acabo um disco fico muito contente mas uma semana ou duas depois volto a ter o bichinho de querer criar qualquer coisa nova. Principalmente porque adoro muito o processo de fazer música, de tocar os instrumentos, de estar no estúdio e começo logo a magicar uma coisa qualquer que, geralmente, não é disco. É uma coisa qualquer.

O meu disco saiu há uma semana e desde então que já vi aí umas coisas e estou a preparar novidades para breve. Esta é uma forma de estar que decidi há muitos anos na minha vida: se eu gosto de ser músico e um músico faz música, então tenho de fazer mais música. Os músicos por norma fazem música de três em três anos. Eu costumo fazer de dois em dois, porque acho que três anos é muito tempo. Mas mesmo assim, esperar dois anos depois de um disco estar feito é muito tempo.

Há três dias estava numa discoteca e deu uma canção que eu conhecia mas que não me conseguia lembrar do nome. O que é que eu fiz? Shazam com ela no meio da discoteca”.

Qual é o disco mais especial que alguma vez gravou?
Há vários discos que foram muito importantes na minha carreira, especialmente o primeiro porque vínhamos de uma banda de cariz alternativo. Falo dos Silence 4 que, de alguma maneira, veio parar ao mainstream de forma absurda e isso fez-me aprender uma série de coisas que eu não sabia. Depois destaco o “Dreams in Color” que foi feito depois de ter ido ao festival South by Southwest, no Texas, onde havia muitos músicos que tocavam sozinhos.

A certa altura dei por mim a ouvir as canções e reparei que as canções daqueles músicas funcionavam sozinhas e as minhas tinham uma dificuldade muito grande em funcionar sem uma instrumentação muito específica. Essa foi a primeira vez em que eu quis pensar num disco em que a canção não estivesse dependente da instrumentação e que vivesse sempre. Isso determinou não só a forma como esse disco foi feito, como também todos os outros a seguir a esse.

Shazam e a música online

Considera que houve mudanças no consumo de música com a chegada das plataformas de streaming?
Mudou tudo, logo a começou a por mim e eu dou o meu exemplo muitas vezes apesar de não ser o exemplo mais normal. Sempre fui um consumidor ávido de música, na medida em que comprava tudo, desde CDs a disco de vinil a toda a hora. Atualmente já só compro discos de vinil porque gosto do objeto mas, na realidade, ouço mais música online do que propriamente através de discos.

Em parte porque para ouvir um disco tenho de estar fisicamente ao lado do leitor. Assim, faço como muita gente faz atualmente que é ouvir através de uma plataforma de streaming, o que resultou em que ouvisse muito mais música e muito mais variada. Há três dias estava numa discoteca e deu uma canção que eu conhecia mas que não me conseguia lembrar do nome. O que é que eu fiz? Shazam com ela no meio da discoteca. O iPhone identificou a canção em três tempos, abriu-a de imediato na plataforma de streaming que eu uso e tive acesso a todos os discos do artista.

Embora achemos que o Trump só diz disparates, a verdade é que é indiferente distinguir quem diz a verdade de quem diz a mentira. Desde que chegue a muita gente, é indiferente.”

Em junho de 2016 escreveu um artigo de opinião acerca de Kanye West. Apelidou-o de punk rocker 2.0 e assumiu-se fã. Está a par das mais recente polémicas?
Não, nada. Sei que lançou um disco muito recentemente e que, por acaso, eu já ouvi. Mas não estou a par.

Antes de lançar o disco, Kanye disse, no Twitter, que a escravidão e submissão da comunidade negra tinha sido uma escolha. Além disso, usou um chapéu com a frase “Make America Great Again”, alusiva à eleição de Donald Trump. É possível separar o artista da música que cria ou isto é um mito completo?
Eu acho que não é preciso separar. Ele, de facto, diz muita asneira que não tem jeito nenhum e que é muito difícil que uma pessoa se ponha do lado dele. Eu ouvi essa última de ele dizer que a escravidão tinha sido uma escolha mas, lá está, não podia ser uma declaração mais imbecil.

Numa das canções deste novo disco, Kanye refere esse episódio e as críticas que recebeu, o que levou vários críticos a entender que este novo disco representa o artista a olhar-se ao espelho num momento de desequilíbrio. Concorda?
Eu não sei se ele está em desequilíbrio como muita gente parece querer acreditar. Eu acredito que o que ele está a fazer é utilizar estes meios todos como, por exemplo, a mulher dele o faz. Ele sabe que cada vez que diz uma cretinice, ela viaja o mundo todo. Todas as cretinices que ele diz viajam muito mais o mundo do que qualquer coisa politicamente correta que ele diga.

Não defende a tese de que estamos perante um Kanye West debilitado, vítima de uma qualquer doença mental?
Ele pode dizer que tem uma doença mental mas, na verdade, ele não pode ser assim tão estúpido. Não acredito nisso, lamento. Vivemos numa altura em que é mais impactante uma opinião que gere discórdia e conflito e Donald Trump é o exemplo mais paradigmático destes tempos.

Embora achemos que o Trump só diz disparates, a verdade é que [para ele] é indiferente distinguir quem diz a verdade de quem diz a mentira. Desde que chegue a muita gente, é indiferente. E eles usam essa forma de comunicação de uma forma sem escrúpulos que é usada como meios [para chegar] a um fim. Desse ponto de vista, eu acho que isto devia ser analisado nos próximos anos porque importa perceber como é que isto tem tanto impacto.

É um sinal da mudança dos tempos?
Nós vivemos numa era do clickbait e isso nota-se nas entrevistas que eu dou. Não interessa se numa entrevista eu disser coisas muito interessantes se, a meio, disser também que matei um pombo. O mais provável, e isto depende muito do órgão de comunicação, é que a maior parte deles se sinta inclinado em usar isso como clickbait, mesmo que isso não tenha importância nenhuma na entrevista.

Kanye e Trump usam uma comunicação apoiada na ideia do conflito, independentemente daquilo que ela queira dizer. E eles sabem-no perfeitamente, tanto o é que continuam a fazê-lo diariamente.

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