No mesmo dia, o rapaz apanhou duas tareias dos colegas, uma de manhã e outra à tarde .“Pediu ajuda aos adultos na escola, que simplesmente o ignoraram, disseram-lhe para ir para as aulas e que não apresentasse queixa, dava muito trabalho”, recorda a mãe, Isabel Sousa. Quando a engenheira chegou a casa, encontrou-o  “a chorar compulsivamente”, e a dizer-lhe “que não aguentava mais e que se ia suicidar”. O garoto de 10 anos, pertencente ao quadro de honra e muito apegado à mãe, era vítima de violência física e psicológica há algum tempo, embora Isabel só o tenha descoberto no final do ano letivo.

“Quando me apercebi que o meu filho estava a ser vítima de bullying, a situação já ia muito avançada. Como vivemos muito perto da escola dele, praticamente a dois minutos a pé, descobri que tocavavam à campainha de nossa casa durante o ano inteiro e perseguiam-no quando ele ia para os treinos”, conta à MAGG Isabel.

A história deste miúdo, cujo nome a mãe pediu repetidamente que não fosse identificado apesar de ter ocorrido há três anos, não é raro no País. Segundo um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), divulgado em novembro de 2017, Portugal é o 15.º país (em 39) que regista mais queixas de bullying na Europa e na América do Norte.

A palavra bullying já não deixa ninguém indiferente. O conceito é explicado aos jovens desde cedo, seja pelos professores, pelos pais, pela comunicação social e até pelo cinema e televisão (basta olhar para o sucesso da série “Por 13 Razões”, focada no caso de Hannah, vítima de bullying físico e psicológico, que acaba por cometer suicídio).

E se é verdade que o bullying continua a ser uma realidade dos jovens portugueses, não é menos verdade que é sobretudo na escola que as crianças o sofrem. De acordo com o mesmo relatório da UNICEF, 31 a 40% dos adolescentes portugueses, com idades compreendidas entre os 11 e os 15 anos, afirmaram ter sido vítima de algum tipo de violência física ou psicológica, na escola, uma vez em menos de dois meses.

O que é o bullying?

O termo é facilmente reconhecido. Mas onde é que se traça a linha entre as discussões e brigas ditas normais entre jovens e o bullying? “Para uma situação de violência ser considerada bullying, tem de reunir três fatores essenciais”, conta à MAGG Rosário Carmona e Costa, psicóloga clínica e co-autora do jogo de tabuleiro “Bullying: Um Dia na Escola”.

As discussões dos pais podem transformar os filhos em adultos agressivos

A especialista explica que a intencionalidade é o primeiro destes fatores. “Tem de existir uma intenção de magoar e/ou ofender o outro. Por exemplo, se um jovem magoa outro no decorrer de um jogo de futebol, não estamos obviamente perante um cenário de bullying, dado que nesse contexto o objetivo principal é ganhar o jogo.”

A continuidade é o segundo fator a ter em conta. Segundo Rosário Carmona e Costa, “quando uma agressão é prolongada no tempo e recorrente, é bullying. Pelo contrário, episódios esporádicos e pontuais de violência não entram nesta designação”.

O desequilíbrio de poder é o último ponto. “Também falamos de bullying quando existe uma situação de violência de alguém mais velho contra o mais novo, de um grupo contra um, numa situação real de desequilíbrio de poder. No entanto, esse desequilíbrio também pode ser percebido, quando a vítima, por qualquer razão, se considera inferior em relação ao agressor, mesmo que essa não seja uma situação real”.

Rosário Carmona e Costa acrescenta que o bullying se pode dividir em cinco sub-tipos, sendo que existem casos em que todas estas situações podem co-existir. “Existe o bullying físico, psicológico, social, sexual e cyber-bullying”, esclarece a psicóloga clínica.

Esteja atento aos sinais do seu filho

Ainda antes de perceber que o filho estava a ser vítima de bullying, Isabel Sousa começou a notar algumas diferenças no seu comportamento.

“Estava sempre a chamar a nossa atenção, isolava-se muito no quarto, mas o grande alerta para mim aconteceu quando começou a bater na irmã mais nova. Ele adora-a e aí percebi que algo não estava bem”, recorda à MAGG Isabel Sousa.

Acompanho uma jovem de 15 anos que sofre de bullying, chora constantemente durante as consultas mas é a melhor aluna da turma. Às vezes, estar à espera que as notas baixem para atuar, pode ser uma má política”.

Decidida a perceber o que se passava com o filho, Isabel pediu-lhe que visse com ela um dos episódios da série de reportagem “E se fosse consigo?”, focado no tema do bullying.

“Quando o programa acabou, confessou-me que estava a passar por aquelas situações”.  E pouco tempo depois apanhava as tais duas tareias no mesmo dia.

A psicóloga Rosário Carmona e Costa explica que existem sinais de alarme a que pode estar atento e que podem demonstrar que há uma situação de bullying na escola.

“Se as crianças começam a recusar-se a ir à escola de uma forma recorrente, com a desculpa das dores de barriga, isso pode ser um sinal claro de que algo está a acontecer. A dificuldade em adormecer, mudanças de comportamento repentinas a partir de domingo à tarde (interiorização), a perda constante de coisas quando regressam da escola (como camisolas, mochilas, material escolar) ou até se pedem mais dinheiro do que o habitual (que pode ser significativo de alguém lhe estar a tirar dinheiro) podem ser sinais de alarme”, enumera a especialista.

O choro fácil, a irritação com figuras de referência em casa (pais e irmãos), a agressividade e o mau estar emocional também são escapes emocionais que podem ser sinais. No entanto, a psicóloga alerta que “se uma criança ficar mais agressiva em casa de repente, isso não é obrigatoriamente uma ligação direta com uma situação de bullying”.

Rosário Carmona e Costa também salienta que a diminuição do aproveitamento escolar é o pior dos sinais, dado que as vítimas de bullying são, por vezes, alunos muito empenhados.

“Há crianças que, sendo vítimas de violência, acabam por se refugiar nos estudos, investem muito neste campo, nem que seja para agradar aos professores. Acompanho uma jovem de 15 anos que sofre de bullying, chora constantemente durante as consultas mas é a melhor aluna da turma. Às vezes, estar à espera que as notas baixem para atuar, pode ser uma má política”, explica a especialista.

Se as crianças sofrem bullying, devem os pais mudá-las de escola?

Quando a filha de Luísa Margarida Jordão tinha 12 anos e se encontrava a frequentar o sétimo ano, a empresária foi confrontada com um dramático desabafo.

“Estava a ajudá-la a estudar numa tarde de sábado e, de repente, a minha filha começou a chorar compulsivamente. Acabou por partilhar comigo que estava a ser vítima de gozos constantes e estava sempre a receber mensagens de WhatsApp, através de um grupo fechado”, conta Luísa à MAGG.

Depois de alguma insistência da parte da mãe, a rapariga acabou por a deixar ver as mensagens. “Fiquei chocada. Utilizavam um slogan conhecido de uma marca de queijos que continha a mensagem ‘uma vaca feliz’ e adaptaram a letra, personalizando-a com o nome da minha filha, bem como situações especificas do quotidiano dela na escola.”

A minha filha dizia-me que preferia morrer a enfrentar os colegas.”

Vaca, lenta, puta. Tudo nomes que era frequente chamarem à filha de Luísa que, após esta descoberta, não perdeu tempo e enviou de imediato um e-mail à diretora de turma da filha com o relato do sucedido e capturas de ecrã das mensagens que esta recebia, solicitando uma reunião de urgência.

“Não recebi qualquer resposta. A minha filha dizia-me que preferia morrer a enfrentar os colegas. Contactei a pediatra para me orientar nos procedimentos a tomar e, dado que continuava sem obter um contacto da escola, dirigi-me à direção da mesma e solicitei medidas urgentes”, relata Luísa Jordão.

A atitude da escola, inicialmente, desiludiu Luísa, dado que “chamaram os pais dos agressores para uma conversa, chamaram os alunos à atenção e pouco mais”. Com o final do ano letivo a aproximar-se, a empresária tentou mudar a filha de escola mas, devido à falta de vagas, tal não foi possível.

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“Quando percebi que a minha filha ia ficar na mesma escola, falei novamente com a direção, que se comprometeu a substituir a diretora de turma no ano letivo seguinte. E, na verdade, com o apoio dado em casa e do pediatra, com a mudança da professora e as férias de verão, tudo se superou.”

Luísa Jordão recorda que a catarse final da filha chegou no ano seguinte, já com outra diretora de turma, quando a professora pediu à adolescente que, perante a turma, contasse o que se tinha passado no ano anterior. “Com o testemunho da sua vivência, a minha filha ganhou o respeito dos colegas.”

Rosário Carmona e Costa explica que a mudança de escola neste contexto de bullying, apesar de parecer uma solução fácil, deve ser avaliada caso a caso e nem sempre é o mais acertado.

Caso o jovem não adquira novas competências e ferramentas (como a assertividade e a gestão emocional), mesmo mudando de escola, existe o perigo de a situação de bullying ser recorrente no novo contexto.”

“Depende muito do contexto de permeabilidade dos jovens. Apesar de cada caso ser um caso, e de já ter acompanhado jovens em que acreditei que o melhor era a mudança de escola, bem como outros em que recomendei a manutenção do mesmo estabelecimento de ensino, costumo preferir trabalhar as competências das crianças antes de partir para uma mudança.”

É necessário, em conjunto com o psicólogo, que as vítimas de bullying trabalhem nelas mesmas e percebam o que devem mudar para fazer face a esta situação, explica a especialista, que alerta que, “caso o jovem não adquira novas competências e ferramentas (como a assertividade e a gestão emocional), mesmo mudando de escola, existe o perigo de a situação de bullying ser recorrente no novo contexto”.

Rosário Carmona e Costa explica também que, muitas vezes, os próprios jovens são os primeiros a entender que a mudança de escola não vai ser suficiente. “Tenho miúdos que acompanho que me dizem que não querem mudar, que sentem que ainda não trabalharam o suficiente neles mesmos e têm a noção que o cenário poderia repetir-se num novo contexto.”

Para o filho de Isabel Sousa não só foi preciso mudar de escola como escolher uma noutra localidade. “Agora quando o encontram [os antigos colegas] na rua ainda lhe mandam umas bocas mas nunca mais se aproximaram”.

“É preciso acabar com a palavra queixinhas.”

As consequências de uma situação de bullying são gravíssimas para um jovem, podendo causar fortes marcas no seu desenvolvimento pessoal.

“O bullying priva os miúdos de momentos de desenvolvimento chave na vida. É na adolescência que as crianças adquirem competências sociais, sendo que se estiverem a ser vítimas destas agressões constantes, vão ser privados de competências sociais ajustadas”, afirma Rosário Carmona e Costa.

A especialista acrescenta que o sentimento de insegurança na escola, por exemplo, que deveria ser um local seguro, pode comprometer e muito o tipo de adulto em que se vão tornar e recorda o caso de uma paciente de 17 anos, “que me diz que quando crescer não quer ter amigos, só conhecidos, dado que sente que se se expuser e confiar em alguém, vai acabar por sair magoada”.

O bullying na infância e na adolescência também pode ser o causador de várias patologias do foro psicológico como a ansiedade, a depressão e as tendências suicidas — basta recordar os testemunhos de Luísa e Isabel, em que ambos os filhos expressaram o desejo de terminar a própria vida em virtude das situações de violência de que eram alvo.

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Após a descoberta de uma situação de bullying, e desta ser confirmada, Rosário Carmona e Costa explica que o primeiro passo para os pais é pedir ajuda. “A escola deve ser imediatamente contactada, não numa perspetiva acusatória, mas sim de colaboração, para escola e família perceberem em conjunto o melhor caminho a trilhar”, explica a especialista, que acredita que o recurso a um psicólogo é necessário, até para fazer a ponte entre a escola e os pais, numa ótica de mediador.

No entanto, a psicóloga clínica considera que a verdadeira chave está na prevenção e na importância extrema de acabar com um termo muito conhecido em ambiente escolar.

“É preciso acabar com a palavra queixinhas. Esta é uma designação incutida nos miúdos, por muitos pais e professores, que só causa problemas. Tantas crianças que, quando confrontadas pelos pais sobre o porquê de não terem falado antes sobre uma situação de violência, respondem com ‘porque não sou queixinhas’”, salienta a especialista.

Rosário Carmona e Costa explica que há que saber diferenciar uma queixa de uma denúncia, distinguido as que afetam as crianças e as que não têm qualquer influência na sua vida.

É importante que os pais passem uma mensagem de que os filhos podem confiar em outros e garantir que estes têm alguém a quem recorrer, sejam professores, auxiliares e até amigos mais próximos.”

“Se um aluno repara que um colega está a tirar macacos do nariz, essa é uma situação que não deve reportar e que pode ser considerada uma queixa gratuita, dado que não afeta a vida da criança em nada. Mas se é uma situação que causa sofrimento de uma forma direta, aí já estamos a falar de uma denúncia que deve ser feita e valorizada pelos adultos, sejam professores ou pais.”

A psicóloga afirma também que os pais são a primeira linha na educação dos filhos e têm de estar aptos, desde cedo, a acolher as denúncias, a valorizar o sofrimento dos mais jovens e a transmitir-lhes competências.

“Se um pai ouvir o seu filho a contar-lhe que um colega lhe roubou a bola na escola, para além de valorizar o sucedido, deve de imediato ensiná-lo a resolver essa e outras situações semelhantes, com um discurso assertivo, explicando ao colega o porquê de não gostar dessa atitude.”

No entanto, Rosário Carmona e Costa alerta que os pais não devem ficar obcecados em serem o único porto de abrigo dos filhos, nem exigir que lhes contem tudo apenas a eles.

“É importante que os pais passem uma mensagem de que os filhos podem confiar em outros e garantir que estes têm alguém a quem recorrer, sejam professores, auxiliares e até amigos mais próximos. Acompanho em consulta uma menina de 10 anos que teve vergonha de contar à mãe o que se estava a passar, mas confiou numa amiga, que prontamente contou à mãe da minha paciente e a situação começou a resolver-se”, conclui a psicóloga clínica.