Ghostwriter. “Um escritor-fantasma em Portugal é mesmo um fantasma”

Manuela Pereira já escreveu mais de 40 biografias e fala-nos sobre um trabalho que ainda é (muito) pouco reconhecido por cá. E mal pago.

Não é fácil ser-se escritor-fantasma em Portugal. O trabalho é pouco reconhecido e mal pago comparado com o estrangeiro

Foi por acaso que, há cinco anos, Manuela Pereira começou a trabalhar como escritora-fantasma. Formada pela em Humanidades pela Universidade de Filosofia, em Braga, deu aulas durante quatro ou cinco anos até se envolver na comunicação social. Foi apresentadora de televisão na MVM TV durante quase um ano, depois passou para a locução de rádio na NFM. Depois de dois livros da sua autoria, “Pacto de Silêncio” e “Maternidades Fugazes”, a flaviense de 47 anos lançou-se no difícil mundo de escrever em nome de outra pessoa.

Todos os trabalhos têm tanto de bom como de mau, mas provavelmente nenhum foi tão marcante como aquele que reunia testemunhos de seis pais que viram os filhos lutar contra o cancro. Sem poder entrar nela, aquela era a sua história também.

O trabalho é pouco (ou nada) reconhecido em Portugal, ganham muito menos do que em países como os Estados Unidos da América (EUA) ou Brasil mas têm um enorme prazer no que fazem. É pelo menos esta a história de Manuela Pereira que, em cinco anos, já escreveu em nome de outras pessoas, mais de 40 biografias com a editora A Minha Vida Dava um Livro. O mais difícil? Desvincular-se quando o trabalho termina e aceitar que já não lhe pertence.

Como é que surgiu a oportunidade de ser escritora-fantasma?
Sou fantasma há cinco anos. A Minha Vida Dava um Livro, que é o nome da editora para a qual trabalho, surgiu na minha vida há cinco anos assim como que por magia — foi criada por uma pessoa do meu círculo de amizades, e fui a primeira pessoa a integrar a equipa como escritora-fantasma. Desde então, já escrevi mais de 40 biografias.

Qual é o conceito da editora?
Escrever apenas e só histórias de vida. Eles não têm outra linha editorial. Curiosamente, é das coisas que mais gosto de escrever, e que mais liberdade me dá. Há escritores que criam as narrativas do nada, só da imaginação, mas já tenho muita dificuldade em fazê-lo. Preciso de ter uma realidade concreta para depois a transformar.

Como é ser um escritor-fantasma em Portugal?
O mercado dos escritores-fantasma é muito pobre, comparando com o Brasil ou com os EUA. Um escritor-fantasma em Portugal é mesmo um fantasma, ele tem de se impor para que as pessoas percebam o trabalho que faz. Quando comecei na editora, o maior nicho eram as pessoas anónimas — pessoas que andam na rua como nós e queriam de alguma forma deixar escrita a sua história de vida. E, curiosamente, toda a gente tem este sonho.

Recebem muitas propostas de anónimos que querem ver a sua história de vida em livro?
É incrível. As mensagens que a editora recebe todos os dias com esse desejo é absurda. Mas, na verdade, as pessoas anónimas não trazem reconhecimento. Houve então a necessidade de começar a puxar as figuras públicas para lançar o trabalho da editora, e também para o fantasma ter algum reconhecimento naquilo que faz.

Quais foram as biografias que mais a marcaram?
Tenho duas histórias de pessoas anónimas que me marcaram muito, mas as das figuras públicas também foram muito marcantes. Não só pela exposição que elas têm, mas também por aquela ideia que temos que elas não são pessoas iguais a nós. Elas são. A [atriz] Lídia Franco, por exemplo, foi uma das figuras públicas com quem trabalhei durante um ano e que amo de paixão.

Como é que a história de Lídia Franco a marcou?
É uma mulher inspiradora, não deixa ninguém indiferente. Ela batalhou muito, passou pelas dificuldades de uma “pessoa comum” — de dinheiro, de fome. Teve que sair de Portugal na altura do 25 de Abril, o marido era militar e ela não arranjava trabalho cá como bailarina. Decidiu ir ter com ele. Portanto sim, a Lídia Franco foi uma das obras que mais mexeu comigo. Outra figura pública que também me marcou foi Lourenço Cunha [“Dar Corpo à Alma”], um transexual que entrou na Casa dos Segredos [2013-2014].

Foi a polémica da transexualidade, o processo que ele passou, as dores, tristezas, angústias. Chorei com o Lourenço, mexeu muito comigo.”

Qual é a história de Lourenço?
O Lourenço foi mulher até aos 30. Nessa altura começou o processo de mudança de sexo e teve a transformação total aos 34. Vai casar este ano. Ele contactou a editora, e foi fenomenal trabalhar com ele. Foi a polémica da transexualidade, o processo por que ele passou, as dores, tristezas, angústias. Chorei com o Lourenço, mexeu muito comigo.

Porquê?
Ele era uma mulher. Uma vez disse-lhe: “É a primeira vez que falo com um homem que entende o que é estar menstruada”. Falei a brincar, mas era a sério. Estava perante alguém que tinha sido mulher toda a sua vida, com angústias iguais a nós, e que estava num processo de transformação total para ser um homem. Foi das histórias que mais me ensinou, em termos de resiliência e de sacrifico. Recordo-me também de Atílio Coelho [“O Gladiador”], campeão mundial de MMA [Artes Marciais Mistas]. Começou num dos bairros mais complicados do Porto, o bairro da Cruz, foi delinquente, esteve preso. Cresceu no mundo da droga e do crime, e o desporto mudou-o aos 17 anos. O livro tem uma mensagem fortíssima para os jovens, vai ser lançado agora.

O próximo livro é sobre Rebeca

Neste momento Manuela Pereira está a escrever a biografia da cantora Rebeca. “No início de junho estará terminada. É uma história que também está a mexer muito comigo, a Rebeca é uma pessoa fantástica. É uma mulher e mãe exímia.”

Já falámos das figuras públicas, mas disse-me que houve duas histórias de anónimos que também a marcaram.
Tive uma situação muito complicada, que mexeu muito comigo — falo da Carla, que já faleceu. Ela estava com cancro de mama, começámos a escrever a biografia e um mês depois a Carla faleceu. A biografia ficou nas primeiras páginas, e a família não quis dar continuidade. Foi a primeira vez que me aconteceu uma coisa do género. E depois houve a Elisa [Pereira], que teve o lançamento na semana passada [“Nem Tudo que Brilha é Diamante”].

Qual é a história de Elisa?
É uma menina de 23 anos que tem uma doença degenerativa grave, Ataxia de Fridereich. É muscular, e vai tirando capacidade ao corpo ao nível dos órgãos. Neste momento a Elisa anda com muita dificuldade, engasga-se muitas vezes e o mais certo é vir a falecer por paragem do sistema respiratório. Aos 23 anos, ela tem essa consciência tão clara que chega a ser assustador. E ela quis escrever esta biografia antes de perder mais faculdades, mais raciocínio, ou até mesmo de partir sem antes deixar uma marca. A Elisa é uma menina, é uma princesa. É das histórias que mais me tocou também.

Os livros sobre figuras públicas são os que vendem mais, imagino.
São mais facilitadores ao nível da exposição. Acabam por dar entrevistas à televisão, rádio. A Lídia Franco foi um exemplo, apareceu em tudo o que era meio de comunicação social na altura. Ainda há dois meses foi à “A Praça” [RTP] com base na biografia. Portanto, as figuras públicas trazem mais mediatismo. E o meu nome, neste caso, o do fantasma, deixa de ser um pouco fantasma. Essas pessoas acabam por me arrastar um bocadinho no trabalho delas. Quando as pessoas são anónimas, às vezes também conseguem alguma projeção porque a história é forte.

Então às vezes o escritor-fantasma deixa de ser fantasma.
Às vezes acontece. A Lídia por exemplo fez sempre questão de dizer que não foi ela que escreveu o livro. Tanto é que a narrativa está na terceira pessoa, não na primeira. Fui eu que escrevi. Há pessoas que fazem questão de assumir que vão lançar um livro que foi escrito por outra pessoa. Nestes casos específicos, o meu trabalho deixa de ser um bocadinho menos fantasma. Mas o meu nome nunca aparece nos livros; aparece sim nas entrevistas, em alguma exposição de comunicação da obra. No livro não.

Manuela Pereira já escreveu mais de 40 biografias com a editora A Minha Vida Dava um Livro

Fale-me um pouco mais de como é ser escritora-fantasma.
Um escritor-fantasma é a pessoa responsável por colocar no papel a obra que uma pessoa “normal” não consegue fazer, por incapacidade, por jeito ou por paciência. Saramago dizia que todos nós somos escritores, a diferença é que uns escrevem e outros não. Isto define exatamente o que é um escritor-fantasma. É alguém que coloca no papel uma história.

E nem sempre tem de ser uma biografia.
Pode ser uma história de vida ou pode ser uma história baseada em personagens e locais já pré-definidos.

Mas só escreve biografias.
Eu só escrevo histórias de vida, sim. E adoro.

Eu obrigo-os a refletir. E eles não querem refletir. Têm más relações com o passado — a maior parte das pessoas não fez as pazes com o passado. Mas não há biografia sem verdade.”

Como é que é feito este trabalho? Numa biografia tem de entrevistar as pessoas.
Depende muito da disponibilidade que elas têm para estar comigo — um livro pode demorar seis meses a ser feito ou um ano. A biografia de Atílio Coelho, por exemplo, durou um ano e dois meses. Não é expectável que dure tanto tempo, mas já aconteceu. É um trabalho presencial, de orientação jornalística quase porque é uma entrevista. Uma entrevista orientada, que os obriga a seguir uma linha cronológica muito rigorosa. Às vezes vou de gravador, estou três horas com eles e eles dispersam-se na história.

Nem sempre deve ser fácil coordenar essas entrevistas.
Querem contar tudo, baralham tudo, voltam à frente e atrás. E eu tenho de os obrigar a parar, a refletir. Uma das características deste trabalho é isto mesmo que acabei de dizer: eu obrigo-os a refletir. E eles não querem refletir. Têm más relações com o passado — a maior parte das pessoas não fez as pazes com o passado. Mas não há biografia sem verdade.

Essa é a parte mais difícil?
Essa é a parte mais difícil do trabalho. Não é estarmos sentados num sofá a conversar. É obrigá-los a parar em determinados pontos da história que nós sabemos que são importantes para os leitores e que eles às vezes recusam-se a explorar. Não querem.

Quantas vezes costuma estar com uma pessoa sobre a qual vai escrever a biografia?
O ideal para mim seria uma vez por semana. O meu trabalho não é gravar tudo e escrever no final. O que faço é: recolho a gravação, transcrevo a gravação e começo a escrever. Quando vou para a segunda gravação, já transcrevi e comecei a trabalhar na primeira gravação. Às vezes não é possível, mas o ideal seria gravar uma vez por semana.

Envia-lhes os textos para eles irem vendo?
Sim, para eles verem, modificarem ou não o conteúdo, acrescentar informação. É um trabalho que se faz a partir da partilha de ideias. Às vezes estou a transcrever gravações, lembro-me que naquele momento me faltou uma informação qualquer e já estou a telefonar, já estou a abordar outra vez. Portanto, o ideal seria uma vez por semana, mas estamos diariamente em contacto.

Tem algum truque para imergir na vida das pessoas?
Não. Se calhar sou uma privilegiada neste sentido: nestes 47 anos de vida, tive várias situações muito complicadas. Perdi a minha filha com cancro, divorciei-me… tenho um rol de experiências na minha vida que me permitiram experienciar várias circunstâncias, momentos e emoções. Quando ouço essas pessoas, muitas emoções ou situações que elas já viveram, de alguma forma eu já passei por elas. Não me custa colocar no lugar das pessoas, é algo que faço muito facilmente. Consigo sentir numa conversa, por exemplo, que estamos a chegar a um momento mau.

Como?
Pelo tom de voz, pela linguagem corporal. É algo intuitivo. Para mim é fácil, não me custa nada.

O trabalho de um escritor-fantasma pode ser um bocadinho ingrato?
Então não é? [risos] Se calhar estou a ser injusta, mas quando digo que é ingrato é porque, quando chegamos ao final do trabalho, temos de nos desvincular daquela obra. Aquela obra não é nossa. Portanto, se calhar é um pouco ingrato neste sentido. Se perguntarem quem é que escreveu aquele livro, eu não posso dizer que fui eu. Aquela obra é do Atílio, é da Lídia, não é minha. Se calhar é ingrato neste sentido, porque pomos muito de nós e no final acaba por não ser nosso. De resto, é um privilégio.

Porquê um privilégio?
Porque entro na vida das pessoas e elas abrem a porta, as janelas, a alma, despem-se, entregam-se. Confiam.

Um fantasma nos EUA pode fazer um contrato de 150 a 200 mil euros. No Brasil, conheço alguns que recebem 11, 12, 13 mil. Aqui podem pagar-me quatro mil.”

Quando termina uma biografia, não fica um vazio?
Fica. É uma sensação de desvinculo total, é mesmo uma obrigação. Nós temos de nos desvincular, até daquela pessoa que estava na nossa vida — eu ligava, mandava mensagens pelo WhatsApp, a qualquer momento falava. Havia sempre um motivo para estar com aquela pessoa. Quando a biografia termina, já não há mais motivo nenhum. A não ser a amizade, mas não há mais motivo. É como quando alguém parte definitivamente da nossa vida, parece que tudo acabou. E de repente temos de nos ajustar a uma outra pessoa que chega.

Quanto ganha em média um escritor-fantasma?
Vou começar pelo estrangeiro para depois chegar cá. Um fantasma nos EUA pode fazer um contrato de 150 a 200 mil euros. No Brasil, conheço alguns que recebem 11, 12, 13 mil. Aqui podem pagar-me quatro mil.

Qual foi a biografia que mais prazer lhe deu fazer?
A do Lourenço. Achava que a transexualidade era um fricote. Talvez assim uma mania. Respeitava o assunto, mas agora honro-o. Deu-me prazer porque assisti à transformação de alguém. A primeira cirurgia do Lourenço foi a mastectomia. Lembro-me da descrição que ele fez do dia em que acordou da anestesia, e da ansiedade em chegar até ao espelho para ver que já não havia ali nada que o ligasse tão visivelmente àquele corpo. A descrição que ele fez dá um nó na garganta, porque eu sou mulher. Não é fácil.

E a mais difícil?
Todos são difíceis. Primeiro porque já tive momentos em que escrevo uma página ou duas, chego ao fim, releio e tenho de apagar tudo porque quem está lá sou eu, não são eles. Aquela emoção ou experiência é tão idêntica a algo que eu experenciei na minha vida que confundo aquela narrativa com a minha própria história. Portanto, todas são muito difíceis porque preciso de me ausentar dos meus próprios pensamentos e emoções. Só posso estar presente nas emoções deles. Escrevi um livro chamado “Entre o Céu e a Terra”. Esse foi se calhar o mais difícil. Todos são, mas o “Entre o Céu e a Terra” tem seis histórias de pais que viram os filhos lutar contra o cancro. Eu entrevistei seis pais que viveram a experiência devastadora de lutar com filhos de três, quatro, cinco anos, contra o cancro.

Essa era uma história que lhe era muito próxima.
A minha filha faleceu com um neuroblastoma com 11 anos. Quando estamos a escrever um livro destes, em que temos histórias, descrições, momentos e olhares tão iguais aos que nós já vivenciámos, é terrível. É ter que parar, é ter se calhar que chorar um bocado, ter que voltar à página. É termos que nos focar, dizermos “não és tu, é ele”. É difícil porque está lá tudo.

Isso deve ter sido extremamente pesado.
Foi, foi um livro muito complicado. O Jorge Coutinho, o pai da Nonô, escreveu o prefácio. A minha filha chamava-se Vitória. Há uma altura, no final, em que ele escreve: “Manuela, sou-te Muito Grato pelo convite para escrever este prefácio e também para partilhar a história, ou melhor, a Missão da Nonô. Vitória, brinca muito aí em cima com a Nonô.” Quando alguém termina um prefácio desta maneira e temos que começar uma história logo a seguir, é difícil sermos isentos.

É complicado.
É, muito. Há histórias que têm momentos de vida que, por alguma razão, nós já lá estivemos também.

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