Sempre que a minha mãe me pede ajuda para marcar uma viagem de avião tem sempre que lembrar: “Atenção à data de nascimento”. A do cartão do cidadão diz 21 de março, mesmo que festejemos a verdadeira a 16 de janeiro.

Não houve um erro na conservatória, nem desleixo da parte dos meus avós. O que houve foi uma coisa chamada “Estado Novo” que ditava que todas as crianças filhas de quem não fosse casado tivessem no BI a inscrição “filho de pai incógnito”. O mesmo Estado Novo que mandou o Manuel Ferreira para a Guiné com apenas 21 anos ou que prendeu e torturou António Barata por vender livros considerados impróprios.

Parecem de outro mundo, mas quando muito são de outro século. Todas estas histórias aconteceram antes de 1974 e, por serem tão recentes, deixemos que sejam contadas por quem as viveu.

Leonor Guimarães, 82 anos
Casou para que a filha não ficasse como “filha de pai incógnito”

As fotos a dois só apareceram mais tarde. No dia do casamento só estavam presentes Leonor, Zé e o padre

“Queres uma fotografia do meu casamento? Ui filha, isso não existe. Convencer o teu avô a casar foi um castigo e só aceitou quando concordei que fôssemos só nós os dois. Na cabeça dele ninguém tinha nada a ver com a nossa vida e, comunista como ele era, um casamento numa igreja não fazia sentido.

Saímos de casa de madrugada e casamos às 5 da manhã. Teve que ser a essa hora porque tínhamos que ir trabalhar [estiveram à frente da Padaria Estrela, em Ponte da Barca, durante mais de 50 anos] e porque, convenhamos, o teu avô não queria que ninguém soubesse. Até me disse para levar sapatos rasos, que as socas iam fazer muito barulho a bater na calçada.

A moda portuguesa mudou com o 25 de Abril. Sabe o que se vestia antes?

Ele ia de calças de ganga, eu com uma saia de roda. Na igreja estava só eu, ele e o padre. Foi uma coisa muito simples, muito rápida. Ainda me lembro de irmos a casa tomar o pequeno-almoço — um café e uns bolos —e depois irmos trabalhar, como todos os dias.

Na verdade, só casamos por causa da Laura. Se não casássemos a tua mãe ia ficar como ‘filha de pai incógnito’ e o teu avô não queria isso. Nem eu.

Foi por isso que nem a batizamos antes. Ela nasceu dia 16 de janeiro, mas como só casamos no dia 16 de março, esperámos para fazer o registo só depois dessa data. É por isso que, perante a lei, ela nasceu no dia 21 de março.

Mas histórias dessas tenho tantas. Ser de ‘uma familia de comunistas’, como se referiam a nós, não era fácil. Uma vez até me tentaram atropelar, ia eu de mão dada com a tua mãe, ainda pequenina. Mas nada disso me fez parar. Ia sempre sem medo nenhum.”

Manuel Ferreira, 71 anos
Foi mandado para a Guiné com 21 anos

Manuel Ferreira (à esquerda) esteve dois anos no Ultramar

“Parece de propósito. Estás a ligar-me a meio de um almoço com um soldado que esteve comigo no Ultramar. É a prova que a Guiné não me trouxe só coisas más.

Mas não foi fácil, vi coisas que ninguém merece ver, muito menos um puto de vinte anos.

Estava ainda a estudar quando me chamaram para a recruta. Fui para as Caldas da Rainha, passei por Tavira, por Tancos, tirei uma especialidade em minas e armadilhas, até que me chamaram para ir para a guerra. Eu não queria nada ir. Ainda durante a recruta matei —salvo seja — todos os meus tios e avós só para poder ir a casa e ficar uns dias com a minha mãe.

No dia em que fui para a guerra ela chorava sem parar, mas pior reação teve o meu pai. Enfiou-se na cama, tapou-se com cobertores e quando me fui despedir dele, dá-me um maço de francos e diz-me ‘filho, tens à porta um carro pronto para que possas fugir para a França’. Eu fiquei espantadíssimo, mas disse-lhe que para morrer tanto morria em França, em Braga ou na Guiné. Dei o dinheiro à minha mãe e embarquei para África.

Ainda hoje Manuel (quarto a contar da esquerda) se encontra com alguns dos companheiros do Ultramar

Foram dois anos difíceis. Lembro-me de um bombardeamento às onze da noite. Do nada começámos a ver o céu todo iluminado com umas bolas incandescentes. Começou uma morteirada daquelas, mas felizmente não morreu ninguém. Dessa vez não morreu ninguém. Vi morrer muitos amigos e muita gente que não merecia. Uma vez, parámos à beira da estrada porque vimos uma mulher com um bebé. Na verdade era uma armadilha. Houve um tiroteio, balas perdidas e essa mãe acabou por morrer. Ficámos com o bebé, demos-lhe o nome de Jorginho, viveu com a nossa recruta e sei que ficou com a recruta seguinte.

São essas histórias que ficam. Essas e estes almoços com gente que sabe do que falo. É que voltar não foi fácil, sabes? Lembro-me de estar a almoçar em casa, com os meus pais, passar um helicóptero e eu atirar-me para o chão. Ou já com Ana, minha mulher, num S. João, começarem os foguetes e eu escondido debaixo da mesa. Ir não foi fácil, mas voltar também não.”

Elsa Barata, 54 anos
Viu o pai ser preso por vender livros proibidos

António abriu a Livraria Barata em 1957, onde vendia livros censurados pela PIDE

“Tinha dez anos no 25 de Abril, tenho poucas memórias mas muitas histórias para contar. Sei que, por exemplo, no dia em que fiz um ano, o meu pai não estava. Tinha sido preso, como acabou por acontecer muitas vezes ao longo dos anos. Dessa vez, apesar de o terem avisado que a polícia ia estar lá, ele, teimoso, insistiu em ir buscar uma encomenda de livros que tinha chegado do estrangeiro. Ficou na Cadeia do Aljube durante um mês.

O que é que se comia antes do 25 de Abril?

Chamava-se António e abriu a Livraria Barata em 1957. Além da montra de livros, manteve um armazém — que curiosamente a PIDE nunca descobriu onde era — com livros proibidos pela censura. São vários os clientes que se lembram de o meu pai trazer esses livros escondidos e metê-los no saco onde punha um livro ‘dos normais’. Toda a Lisboa sabia que era na Barata que se encontravam esses livros.

A PIDE andava sempre à cata, tenho aqui vários autos de livros apreendidos. Só que às vezes eram coisas tão ridículas como proibir a venda de um chamado ‘Concreto Armado’, sobre betão armado, que por ter a palavra ‘armado’ no título já não passava pelo lápis azul.

Este é um dos autos de livros apreendidos pela PIDE que Elsa faz questão de guardar

Esta era a forma de o meu pai fazer a sua luta. Era um homem sério, de poucas palavras. Socialista mas sem demonstrações públicas. Mesmo no dia 25 de Abril, a imagem que me fica até hoje é de ver o meu pai, em frente à televisão, a chorar sozinho ao ver as imagens dos presos políticos a sair de Caxias. A emoção era maior talvez porque ele sabia bem o que se passava lá dentro. Além de preso, foi várias vezes torturado e nunca abriu a boca. Nem quando aplicavam a tortura da frigideira, durante a qual punham os presos dentro de uma caixa de cimento a altas temperaturas ou os mantinham numa cela que, de tão minúscula, não se podiam nem sentar. Costumavam dizer que ele, por nunca denunciar ninguém,  ‘ou era um grande santinho ou um grande filho da…’

Apesar de já terem passado 25 anos desde que morreu, não há um dia que passe sem que um cliente me conte uma história sobre ele. É isso que me dá calor à alma e que me faz ter a livraria aberta até hoje. Mais ainda porque faço questão de manter o horário escolhido pelo meu pai, das 9h às 23h. E agora que falo, lembrei-me que até esse horário tem uma história ligada ao antigo regime. Durante o Estado Novo, todos os estabelecimentos eram obrigados a fechar às 19h, com a exceção das tabacarias, que podiam estar abertas até às 20h. Então, claro está que o meu pai arranjou forma de ter tabaco à venda só para estar aberto um bocadinho até mais tarde. Sempre que a PIDE cá vinha e perguntava: ‘Mas afinal, isto é uma livraria ou uma tabacaria?’, o meu pai respondia sempre: ‘Isto é uma tabacaria que vende muitos livros’.