Desde o início de março que o Facebook está debaixo de fogo após ter sido revelado que os dados privados e pessoais de milhares de utilizadores tinham sido utilizados de forma ilegal para influenciar a campanha de Donald Trump. Ficámos chocados e, a cada novo detalhe que era descoberto, cerrávamos os punhos, fazíamos cara feia e mostrávamos o nosso desagrado e falta de confiança na plataforma.

Descarreguei todo o histórico do meu Facebook. E descobri que ele sabe mais de mim do que eu

Dias depois, descobriu-se que a rede social guardava todo o histórico de mensagens e chamadas dos utilizadores da aplicação para sistema operativo Android. Voltámos a cerrar os punhos e a abanar a cabeça como quem diz que isto assim não pode ser. Mas ainda por lá continuamos — independentemente do motivo, é difícil desistir do Facebook e a rede social sabe disso.

Enquanto escrevo este texto já tentei apagar a minha conta pessoal por duas vezes. Primeiro, a plataforma assume uma atitude passivo-agressiva e alerta-me para o conteúdo que vou perder se decidir desistir definitivamente da conta. Fotografias, vídeos, contactos, tudo.

Ao dar seguimento ao processo, a atitude do algoritmo muda e a agressividade dá lugar à manipulação e ao embuste. É que no último passo é-me apresentada uma lista dos cinco amigos com quem interajo diariamente. Por cima, uma caixa de texto que diz: “O Roberto vai ter saudades tuas.” Como é suposto continuar depois disto? Não se faz.

A tarefa fica logo difícil muito antes de a executarmos. Mas há todo um leque de desafios a considerar para uma vida livre de Facebook e todos eles são válidos.

Permite estarmos ligados em rede

Interagir através dos vários botões da plataforma, como o “Gosto” ou o “Partilhar”, dar os parabéns a alguém através da notificação de aniversário que o Facebook disponibiliza, ou até mesmo comentar as fotografias de amigos, são simples ações que já não questionamos de tão automáticas que se tornaram.

Ao participar num tipo de comunicação em rede, estamos a afirmar-nos perante uma vasta comunidade através da exposição do nosso perfil, e da nossa vida, ao escrutínio de terceiros. Com tudo o que de positivo e negativo isso tem.

A ideia é simples — criar mais e novas ligações com os mais variados objetivos em mente. Seja o de aumentar a rede de contactos para uso profissional, ou reatar com amigos e familiares que há muito tempo julgávamos perdidos dada a distância física que nos separa. O Facebook é, então, uma forma de ultrapassar as barreiras físicas e temporais que nos distanciam uns dos outros.

Mas é também uma ferramenta de censura perigosa onde basta um simples botão — o de bloqueio —, quando decidimos que não queremos mais ver ou ler uma determinada pessoa na nossa rede. Com um simples clique aquela pessoa deixou de existir. E não há que ter medo de dizer que por vezes sabe bem. Mas isso não torna a ferramenta menos assustadora.

É possível transmitir a melhor imagem de nós mesmos

Quanto mais comunicamos mais revelamos. A nossa identidade vai sendo construída com base em pequenas informações que vamos deixando um pouco por toda a plataforma que, por sua vez, geram reações de outras pessoas.

Acabei de assumir perante o mundo que vou à próxima edição de um festival de verão, clicando no botão “Vou” dentro da página oficial da organização. Vários dos meus contactos que também vão ao mesmo festival foram alertados, e já reagiram com um simples “Gosto” à minha resposta. Parece insignificante, mas ficámos ainda mais ligados por um interesse em comum. Há a possibilidade de nos cruzarmos, no mundo online, em novos eventos semelhantes e talvez até aderirmos aos mesmos hobbies na vida real.

O mesmo acontece quando seguimos as mesmas páginas que os nossos amigos seguem, quando revelamos as causas que defendemos, a música de que gostamos, ou o tipo de filme que mais vemos. São tudo manobras de gestão de imagem que nos permite revelar a melhor (e por vezes, a pior) parte de nós com precisão e regularidade aos nossos contactos.

A internet obriga a usar o Facebook

Grande parte da internet depende da interação com o Facebook. Não há como negá-lo: há grandes probabilidades de o meu site favorito de notícias ter uma aplicação móvel que requer o login através da rede social.

Em 2011, por exemplo, quando o Spotify chegou ao mercado, os utilizadores da plataforma de streaming só podiam entrar através do registo de uma conta via Facebook. O que quer dizer que todos aqueles que não fossem já utilizadores da rede social de Mark Zuckerberg estavam impedidos de usar o serviço.

Outro exemplo bem conhecido é o do Tinder, a famosa aplicação de encontros, que só há poucos meses permitiu que os seus utilizadores pudessem entrar na plataforma sem a necessidade de associar uma conta de Facebook.

Devido ao domínio da rede social no mercado, um dos problemas que o utilizador comum enfrenta na decisão de eliminar a sua conta é a de ver todos os seus acessos a outros sites revogados e, assim, perder a oportunidade de se relacionar com mais e novas pessoas no meio digital. O Facebook tornou-se quase que obrigatório para o acesso ilimitado a novas plataformas e novas formas de conteúdo. E não há forma de combater isso enquanto a rede social dominar o mercado.

Os algoritmos são males necessários

É normal que, com os escândalos recentes, a aleatoriedade e agressividade do algoritmo do Facebook possa ser visto com maus olhos. Mas há que dizê-lo: é o mal necessário que, por vezes, nos estimula a ser mais sociais.

Damos a nossa informação pessoal em troca de uma melhor experiência. Exemplo disso são aquelas notificações — por vezes chatas, confesso —, que dão conta de eventos a que os nossos amigos vão e que nos poderão interessar. A rede social faz um trabalho de análise aos nossos contactos, aos eventos a que colocaram “Vou”, e cruza-os com a nossa lista de interesses.

O resultado disso é a notificação de novo conteúdo que nos poderá ser relevante. Desde recomendações de amigos novos, a sugestões de restaurantes para o próximo jantar com os colegas.

Segundo a teoria do nudge, avançada por Richard H. Thaler, vencedor do Prémio Nóbel da Economia em 2017, estamos mais inclinados a tomar certas ações quando somos estimulados para isso. E de facto, se o Facebook não me relembrasse do aniversário dos meus amigos, provavelmente nunca lhes cantaria os parabéns por escrito com muitos emojis festivos à mistura.

Da mesma forma que se a plataforma não me alertasse para eventos que fossem ao encontro dos meus interesses, provavelmente teria mais dificuldade em conhecer novos locais, novas plataformas e novas pessoas. Tudo isto em troca da minha privacidade, dos locais onde já estive, das músicas que já ouvi, e das pessoas com quem já falei. É o preço a pagar por uma comunidade ligada em rede.

Enquanto jornalista, estou dependente do fluxo de informação constante que vai sendo partilhado em cada interação entre contactos meus. Claro que há alternativas, como o Twitter, mas serão tão viáveis quanto o Facebook, onde há a certeza quase total de que todas as figuras de interesse para o meu trabalho estão inscritas na rede social? Não sei se me sinto preparado para querer descobrir.