O corpo humano é altamente complexo e inteligente. E todas as reacções que desencadeia acontecem por um motivo. A transpiração e o tremor são, por exemplo, duas respostas da função termoreguladora, aquela que trabalha para manter a temperatura sempre estável e constante.

Quando se fala de exercício físico ao ar livre no inverno, é comum associarmos a temperaturas baixas a um maior gasto de calorias, logo, a uma perda de peso mais eficaz. A lógica é fácil e não está errada: se o organismo sente frio, precisará de gastar mais energia para repor os valores normais. Mas será isto realmente eficaz para a perda de peso?

O professor Paulo Armada da Silva, do Departamento de Desporto e Saúde, do Laboratório de Fisiologia e Bioquímica do Exercício, da Faculdade de Motricidade Humana, explica à Magg que, de facto, “existirão motivos que podem causar um aumento do metabolismo [gasto de calorias] quando o exercício é realizado no frio.”

Quando está tanto frio que trememos

Aquilo que permite fazer desporto ao ar livre e tolerar as temperaturas baixas, “sem incorrer o risco de hipotermia”, é o “aumento de produção de calor” pelo próprio corpo, continua Paulo Armada da Silva. Contudo, quando estes números são demasiado reduzidos, e sentimos frio, o organismo responde com tremor. Ao tremermos, o corpo fica tenso, desde os ombros, às pernas. Tudo isto são calorias: “Haverá aumento do dispêndio energético e serão ‘consumidas’ mais calorias.”

O frio pode aumentar o número de calorias gastas. Mas será significativo?

A questão é: será este o quadro ideal para treinar? Como adianta Paulo Armada, apesar de haver desportos que o exigem (como ski ou natação), “nestas condições, a capacidade para realizar o exercício físico fica comprometida e o desconforto será elevado e, no limite, há risco de hipotermia.”

Num cenário menos gelado, também é possível que haja um dispêndio energético maior por estar exposto a temperaturas baixas. Apesar de, com o desporto, o organismo aquecer e não haver tremores, há partes que ficam sempre mais frias e que podem aumentar “ligeiramente” a quantidade de calorias gastas, considera o professor.

Quando há demasiada roupa

Praticar desporto em contexto outdoor durante a estação fria exige cuidados redobrados face aos têxteis utilizados. A roupa deverá proteger contra o frio, a chuva e o vento, mas convém também que deixe a pele respirar, que seque rapidamente a transpiração e, muito importante, que não sobreaqueça o corpo. Este aquecimento excessivo — há muito adotado por quem procura atingir resultados mais rápidos — poderá também aumentar o gasto calórico. Mas é um esforço que acaba por ser contraproducente. Além de se tratar sobretudo de eliminação de água, se o aumento da temperatura corporal for significativo, poderá “provocar desconforto ou fadiga, obrigando a diminuir a intensidade do exercício e, consequentemente, a quantidade de calorias despendidas.”

Portanto, se  “o objetivo é aumentar a duração e a intensidade do exercício, então a estratégia mais adequada é evitar o aumento exagerado da temperatura corporal durante o esforço físico.”

A gordura castanha e a gordura amarela

A gordura amarela é aquela que armazenamos no corpo (nas coxas, na barriga, nos braços, ou nos glúteos). Toda a gente tem, em maior ou menor quantidade. Depende dos hábitos alimentares e do estilo de vida de cada um — se comer muito e mexer-se pouco o corpo vai armazená-la e, assim, aumentar a percentagem deste tecido no corpo. De forma mais simples e direta: vai engordar.

A gordura castanha existe para produzir calor e pode aumentar o número de calorias gastas

A gordura castanha é diferente: “É um tipo de gordura em que as células aumentam o metabolismo para produzir calor”, explica o investigador. A sua principal função é manter o corpo aquecido, processo ao qual está associado um dispêndio energético maior, desencadeado quando o organismo é exposto a temperaturas baixas.

Esta exposição, quando realizada ao longo de algumas semanas, parece provocar o aumento da atividade da gordura castanha, havendo aumento do dispêndio energético e diminuição da quantidade de gordura corporal.

Até há pouco tempo acreditava-se que apenas os animais e os recém-nascidos tinham este tipo de gordura, por serem “mais susceptíveis ao frio”. No entanto, estudos recentes vieram comprovar o contrário: “Sabe-se que nos adultos também existe e que um dos benefícios do exercício é o promover alguma transição da gordura amarela em gordura castanha”. A relação entre o desporto e este fenómeno está relacionado com dois fatores: primeiro, pela exposição ao frio, depois, pela libertação da irisina, uma proteína que promove a transferência destas gorduras.

Mas há circunstâncias específicas. Segundo um artigo, citado pelo investigador, “constatou-se que, em adultos, a atividade metabólica da gordura castanha aumentava em resposta a exposições relativamente curtas (entre uma a duas horas) a temperaturas ambientes entre 14ºC e 17ºC”. E acrescenta: “Esta exposição, quando realizada ao longo de algumas semanas, parece provocar o aumento da atividade da gordura castanha, havendo aumento do dispêndio energético e diminuição da quantidade de gordura corporal.”

Treinar ao frio emagrecer?

É verdade: treinar com temperaturas mais baixas promove um gasto calórico mais elevado, quer pela transformação da gordura, quer pelo trabalho que o corpo faz para repor os valores de temperatura normais.

Mas será este valor suficiente para perder peso? Até pode contribuir, mas não chega. Como diz o investigador, este aumento “será sempre pouco significativo.” Além disso, por mais que treine, nunca vai emagrecer se não houver cuidados alimentares.

Mas nem tudo está perdido. O inverno pode, de facto, ser sinónimo de um número bem mais significativo de calorias gastas durante o exercício. E tudo depende de si. O raciocínio é básico. Treinar com calor exige mais esforço e poderá levar ao cansaço mais rápido, logo a tempos piores. Durante o inverno, acontece o inverso: há mais resistência, maior duração e melhores performances.  Aí terá o seu gasto energético. De forma saudável e segura.