O designer trouxe para a passerelle Afterimage, uma coleção em que silhuetas, tecidos e detalhes carregam histórias e memórias que parecem querer falar connosco. Saiba tudo.
“Ainda te lembras de mim? Ainda sabes de onde eu vim?”. A voz ecoa na sala antes mesmo de o primeiro look surgir. Este domingo, 15 de março, na ModaLisboa, o desfile de Luís Carvalho abriu com “Memória”, interpretada por Rosalía e Carminho. E por um momento, a sala parecia suspensa nessa pergunta insistente: o que é que realmente recordamos? Não podia haver ponto de partida mais certeiro para Afterimage, a nova coleção do designer português.
A proposta nasce precisamente da incerteza com que nos debatemos entre o que aconteceu e aquilo que acreditamos lembrar, um espaço em que as memórias aparecem transformadas, distorcidas ou reinventadas. Tal como na letra da canção, onde se admite que “siempre que me acuerdo de algo / siempre lo recuerdo un poco diferente” (“sempre que me lembro de algo, lembro-me sempre de forma um pouco diferente”, em português), também a coleção trabalha essa ideia de recordação imperfeita.
Afinal, a memória raramente é linear, porque é fragmentada, seletiva e emocional. E foi a partir dessa premissa que Luís Carvalho começou a desenhar a coleção, especialmente tendo como mote algo muito concreto: o comportamento do tecido. “Havia um tecido que parece que tem memória, que tem um fio metálico, os próprios enrugados dos materiais”, explica à MAGG. A partir daí, a ideia começou a ganhar corpo, com silhuetas alongadas, quase austeras, interrompidas por cinturas bem definidas.

A base do designer não deixa de ser a alfaiataria, território onde continua a provar mover-se com a maior das naturalidades. Isto fica patente em blazers, casacos longos e calças de corte rigoroso, que desenham o esqueleto da coleção, evocando um guarda-roupa de inspiração masculina. Mas, desta vez, há também uma sensualidade mais evidente a atravessar algumas propostas.
Essa nuance surge sobretudo na construção das peças, que se revestem de pregas profundas, drapeados inesperados e superfícies enrugadas, responsáveis por dar mais movimento às silhuetas. “São coisas que ficam marcadas no tecido”, afirma Luís Carvalho, frisando que algumas peças “exigiram um trabalho técnico particularmente exigente”, como foi o caso de um blazer cheio de pregas.
Quanto aos detalhes, aos quais também é sempre preciso prestar atenção, estes seguem a mesma lógica narrativa. Os bolsos que vemos em várias peças, por exemplo, não aparecem só como elementos funcionais. “É quase uma metáfora, como o sítio onde nós guardamos essas memórias ou os nossos sonhos”, diz o designer, reiterando que é uma forma de reforçar o conceito sem o tornar literal.
A paleta cromática acompanha essa contenção, com cinzento, preto, bege e branco a dominar a coleção e a criar um cenário visual depurado, quase “turvo”, como o descreve. Um guarda-roupa contido que reforça a dimensão introspectiva da proposta, até que o vermelho entra em cena. Profundo, próximo do “vinho ou do sangue”, quebra a sequência monocromática e introduz a intensidade que Luís Carvalho sentia que estava em falta. O mesmo se pode dizer dos tecidos brilhantes que surgem no final.
E tudo regressa à pergunta que abriu o desfile: “Ainda te lembras de mim?”. Talvez seja precisamente aí que reside a força de Afterimage. Mais do que falar de memória, a coleção procura dar-lhe forma em silhuetas, texturas e pequenos gestos de construção que parecem guardar histórias. E talvez seja isso que torna estas peças tão interessantes: a sensação de que carregam qualquer coisa familiar, ainda que impossível de nomear.







































