A MAGG teve a oportunidade de ver a terceira e última temporada de “Rabo de Peixe”. Entre a banda sonora, as novas personagens e o crescimento do quarteto, aqui fica a nossa opinião (sem spoilers).
A terceira e última temporada de “Rabo de Peixe” chega esta sexta-feira, 10 de abril, à Netflix, e sentimos que é o verdadeiro culminar de uma das produções mais marcantes da ficção portuguesa recente – é, mesmo, o final digno de uma produção imparável. Até porque, desde a sua estreia, a série conseguiu aquilo que, por inúmeras razões, poucas conseguem: transcender fronteiras, conquistar públicos internacionais e afirmar-se como um produto de qualidade global. É, sem dúvida, um orgulho português.
Agora, depois de duas temporadas inquietantes, este capítulo final não só honra todo esse percurso como eleva ainda mais a fasquia. E sim, logo desde os primeiros episódios percebe-se que o quarteto protagonista, Eduardo (José Condessa), Sílvia (Helena Caldeira), Rafael (Rodrigo Tomás) e Carlitos (André Leitão), continua a ser o grande coração da série. E, se há algo que se destaca neste capítulo final, é sem dúvida o apoio que dão uns aos outros. Não é por acaso que “Stand by Me”, de Ben E. King, é o elemento sonoro de uma das imagens mais bonitas.
A verdade é que há uma química inegável entre as personagens, construída ao longo das temporadas que aqui atinge o seu expoente máximo. Estão todos à beira do colapso, mesmo que se apresentem da melhor forma, e, ainda que tenham os seus próprios problemas, há um objetivo egoísta que rapidamente se torna heróico: a vingança de Eduardo para com aqueles que lhe tiraram tudo. Nesta temporada, cada um traz camadas adicionais às suas interpretações, o que eleva (e bem) toda a narrativa construída.
Mas se formos a falar de camadas, Silvia, interpretada por Helena Caldeira, destaca-se particularmente neste último sprint. O facto de ter sido introduzida à maternidade acrescenta-lhe uma nova dimensão emocional, que é trabalhada com sensibilidade e realismo – mas sem, claro, perder aquela essência tão característica da mulher do grupo, que tanta falta faz aos rapexinhos. Nota-se um cuidado genuíno na forma como a personagem equilibra a dureza do mundo com a proteção da sua criança, fazendo desta uma das âncoras emocionais mais fortes de toda a temporada final.
Já Rafael mantém-se como a alma do grupo, trazendo leveza e energia mesmo nos momentos mais tensos. A sua presença continua a ser essencial para o equilíbrio da história, funcionando muitas vezes como o elemento que não diz nada de jeito mas que se torna imprescindível. É divertido ver uma personagem assim, mais cómica num mundo mais sombrio, e Rodrigo Tomás está mesmo de parabéns – conseguiu transformar Rafael numa personagem que nunca perde relevância, que nunca enjoa e, assim de tudo, que nunca aborrece o público.
Carlitos, por sua vez, oferece um dos arcos mais gratificantes desta temporada. Há uma sensação clara de conquista pessoal, de alguém que finalmente começa a trilhar o seu próprio caminho e a perseguir os seus sonhos. Não dizemos que o resto do grupo não o consegue fazer, mas ver alguém que passou por tanto, não só pelo preconceito de ser homossexual como também pelo próprio rumo da história, conseguir alcançar algo de uma forma tão genuína, é muito bonito. É mesmo difícil não sentir uma certa satisfação enquanto espectador ao acompanhar essa evolução.
E, de todo o grupo, Eduardo é aquele que se apresenta mais firme e determinado do que nunca, o que demonstra uma evolução enorme desde a inocência que mostrou ter na primeira temporada. As suas convicções estão mais vincadas, e isso reflete-se nas suas ações: a segunda temporada acaba com o protagonista a dizer que quer vingança, a terceira começa da mesma maneira. Ou seja, ele sabe o que quer e está disposto a tudo para o alcançar, o que acaba por impulsionar um dos temas centrais da temporada, a chamada (e muito aclamada) “Justiça da Noite”.
Inspirada em práticas que marcaram determinados contextos sociais na Ilha Terceira, nos Açores, nos anos 90, esta ideia de justiça popular ganha aqui uma nova vida. Sem cair em excessos, a série explora este conceito como uma resposta ao sentimento de abandono e injustiça vivido pela comunidade, o que vai dar àquilo que dissemos no início: a primeira vingança de Eduardo transforma-se, na verdade, num gesto heróico. Nesta temporada, os protagonistas assumem, de certa forma, esse papel de justiceiros, tentando devolver à população aquilo que lhes está a ser tirado.
Desta forma, já se percebeu claramente que um dos aspetos mais evidentes nesta última temporada é a mudança de foco narrativo. Apesar de a droga que chegou à costa ainda ser um dos temas deste final de “Rabo de Peixe”, a verdade é que já não é o assunto principal, depois de ter marcado profundamente as temporadas anteriores – quer fosse quando efetivamente chegou à vila, quer fosse depois quando se descobre de quem é afinal a mercadoria. A terceira temporada centra-se na preservação da identidade e da pertença, e Rabo de Peixe deixa de ser apenas um cenário para se tornar numa causa.
Outro ponto interessante é a dinâmica entre as personagens interpretadas por Ângelo Rodrigues e Maria João Bastos, onde a atriz volta ao seu papel duro enquanto Inspetora Frias e a mais recente adição ao elenco chega como o jornalista Pedro, o seu namorado. A relação entre ambos introduz uma nova camada na história, especialmente pela forma como a personagem de Ângelo traz alguma leveza à rigidez e ao peso emocional de Paula.
Este contraste acaba por funcionar mesmo bem e acrescenta humanidade à narrativa, apesar de a inspetora já não ter quase nenhuma dentro dela. Depois do final da segunda temporada, onde a sua filha, interpretada por Madalena Aragão, desaparece, a personagem de Maria João Bastos acaba por carregar no seu olhar um sentimento de solidão, onde uma única coisa interessa: saber o que aconteceu. É, na verdade, um dos temas que mais pesa nesta temporada final, e que deixa o espectador à beira da cadeira.
Mas além destes, o elenco de luxo está reforçado com nomes como Joaquim de Almeida, Victoria Guerra, Inês Castel Branco e por aí fora. São nomes que interpretam personagens importantes, marcantes e reveladoras até, trazendo uma narrativa diferente a “Rabo de Peixe”: já não interessa a droga (interessa na mesma, calma, só não é o foco), mas sim o ambiente político em que a vila está inserido, e no que é que é preciso fazer para proteger todos os seus habitantes.
No geral, esta última temporada da série portuguesa consegue aquilo que muitas séries não conseguem: fechar a história com coerência, emoção e identidade. É um adeus digno a uma produção que não só revolucionou a ficção nacional, como colocou Portugal no mapa das grandes narrativas televisivas, deixando um legado que precisa de ser agarrado pelos que ficam. E uma pequena nota: mais do que às paisagens, esteja atento às músicas que passam ao longo dos episódios, que elas mostram, e bem, a essência da produção.