“Rabo de Peixe” está a chegar (ao fim). Falámos com o elenco e o realizador sobre a última temporada

Estivemos à conversa com o elenco e Augusto Fraga, o criador e realizador da série de sucesso da Netflix. Eis o que é que pode esperar desta terceira e última temporada. Leia a entrevista.

A série portuguesa mais conhecida e rentável da Netflix está prestes a chegar ao fim. Depois de conquistar o público com duas temporadas de sucesso, “Rabo de Peixe” estreia a sua terceira e última sequência de episódios esta sexta-feira, dia 10 de abril, para pena de muitos que se habituaram às aventuras e dilemas do quarteto principal. Ao longo dos anos, o público acompanhou Eduardo, Sílvia, Rafael e Carlitos enquanto navegavam entre amizade, desafios e dilemas morais, e, agora, a história promete encerrar com intensidade, emoção e uma visão de justiça.

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Mas para dar um pequeno contexto, regressamos primeiro à segunda temporada, que terminou de forma dramática: Eduardo, interpretado por José Condessa, assumiu a culpa por um crime que não cometeu para proteger Sílvia (Helena Caldeira), enquanto o grupo enfrentava perdas e conflitos internos. As experiências vividas moldaram a maturidade dos protagonistas e redefiniram as suas prioridades, e a verdade é que cada personagem teve de lidar com mudanças significativas, quer fosse quando Uncle Joe morreu, quando Sílvia engravidou ou até quando Carlitos ficou viciado. 

Além disso, os laços entre os amigos tornaram-se mais complexos e significativos, com a narrativa a explorar não apenas os dilemas individuais mas também a forma como as ações de cada um impactaram o coletivo, quase que distanciando-se uns dos outros. Agora, a série apresenta novas camadas emocionais, relações renovadas e um conceito central que promete marcar esta última fase: a famosa Justiça da Noite. É neste contexto que a história se reinventa, combinando tensão, drama e momentos de leveza.

O início do fim

Imagens da terceira temporada de
créditos: Netflix

O final da segunda temporada, como já explicado, deixou os protagonistas em momentos críticos, e a evolução de Eduardo nota-se perfeitamente nesta última fase. “Há uma noção do que é a justiça para ele. A ‘Justiça da Noite’ é criada pelas pequenas injustiças que estão à volta, e ele percebe que consegue fazer pequenas mudanças que são justas para o dia-a-dia das pessoas”, disse José Condessa à MAGG. Eduardo, mais maduro e consciente do impacto das suas ações, deixa de se centrar apenas em si e começa a agir em prol do coletivo, reforçando um dos temas centrais da série: a responsabilidade pessoal.

Sílvia, agora mãe, apresenta também novas facetas. “Há um lugar mais vulnerável dela própria, porque isso é o que uma criança obriga a existir. Há ali certos momentos com a criança, e até mesmo nas decisões do grupo, em que ela já decide de uma forma completamente diferente”. A maternidade acrescenta, assim, complexidade e profundidade à personagem, mostrando que mesmo os indivíduos mais fortes podem ser transformados pelas responsabilidades da vida. 

Ao mesmo tempo, Rafael mantém o seu papel de alívio cómico, mas com nuances de maturidade, enquanto Carlitos começa a explorar a própria autonomia e a tomar decisões por si mesmo. “Vejo o Carlitos finalmente feliz por estar a conseguir ter espaço para ele também. Na segunda temporada ele esteve muito isolado, também pela questão da adição, e acho que aqui, nesta terceira temporada, ele começa a ganhar um bocadinho de espaço para tomar as decisões dele, para conseguir ter pulso também sobre aquilo que ele quer e que gosta”.

“Justiça da Noite” e o novo grande vilão

Imagens da terceira temporada de
créditos: Netflix

Um dos conceitos centrais desta temporada é a Justiça da Noite, inspirada num movimento real do século XIX, que oferece a Eduardo uma ferramenta narrativa e ética para intervir nas pequenas injustiças do cotidiano. “Já não é sobre ele, já é sobre os outros, já é sobre a comunidade, e a Justiça da Noite é uma ferramenta que faz todo o sentido na história dele, na mudança que ele próprio atravessa”, disse Augusto Fraga, o criador. 

Além disso, esta temporada apresenta uma evolução nos antagonistas: enquanto a primeira temporada tinha vilões locais e a segunda internacionais, o grande desafio agora é o sistema, com suas falhas políticas e sociais, quase como uma paródia, mas de grande impacto na vida dos protagonistas. “O grande vilão é o sistema, é a forma como as coisas se fazem, mas quase de uma forma paródica. O trabalho que fizemos com a Vitória Guerra, por exemplo, era uma representação paródica, mas tudo o que ela diz não é muito diferente dos discursos políticos populistas que ouvimos alguns líderes políticos fazerem”. 

A dinâmica do grupo, que se encontra mais unido após três anos, também permite explorar relações de apoio mútuo, lealdade e inspiração, com José Condessa a admitir que, visto de fora, esta era a temporada e a narrativa necessária para o grupo ter um final digno de “Rabo de Peixe”. “Visto de fora, como atores, era a temporada que nós precisávamos para acabar. Era preciso crescermos uns pelos outros, e eles serão sempre muito melhores rodeados pelas pessoas que os amam”. 

A história paralela da inspetora

Imagens da terceira temporada de
créditos: Netflix

Além de tudo isto, a verdade é que as relações entre os personagens continuam a ser o coração da história, e isso sente-se imediatamente com Pedro Neves, interpretado por Ângelo Rodrigues, jornalista que namora com a inspetora Frias (Maria João Bastos). “É interessante retratar o lugar da pessoa que vive ao lado de alguém que atravessa uma dor como a Paula. Ele tenta encontrar o norte para alguém que acho que perdeu completamente a bússola”, disse o ator. 

Cada olhar, silêncio e gesto torna-se tão significativo quanto as palavras, refletindo a complexidade psicológica das personagens e a intensidade das situações que enfrentam. A inspetora é, sem dúvida, um dos elementos mais sombrios numa temporada menos escura, e dá sempre um aperto no coração cada vez que passa pelo ecrã. “Uma das coisas que mais me marcou depois de ter visto, e esquecendo que era eu que estava ali, é mesmo o olhar vazio da inspetora. É um olhar sem vida já, que existe em muitas cenas”. 

Dentro desta relação, o quarteto protagonista só aparece com o jornalista, até porque a inspetora já não está, de todo, para aí virada – o seu único foco é saber o que aconteceu com a sua filha. “Se o foco dela até então era descobrir a verdade, lutar contra a corrupção dentro da polícia, nesta terceira temporada isso cai por terra. Ela mantém a ligação com o Eduardo, porque eles criaram uma relação, mas o foco não é esse”, disse Maria João Bastos.

A edição final e a escolha do narrador

Imagens da terceira temporada de
créditos: Netflix

A música, cuidadosamente escolhida, funciona quase como mais uma personagem da série, como explicou Augusto Fraga, com paisagens sonoras que evocam introspecção, solidão e tensão –  desde a referência a westerns clássicos até canções de época que conectam os protagonistas à sua realidade. O narrador Rafael também acrescenta uma camada especial à história, oferecendo uma visão íntima dos acontecimentos. “Achámos que era interessante que o Rafael tivesse a contar essa história a alguém, até porque ele tem uma maneira muito específica de contar as coisas”. 

No final, a terceira temporada de “Rabo de Peixe” é, além do encerramento de uma série popular, uma celebração de amizades profundas, de evolução pessoal, de justiça e de comunidade. “Não era possível ser de outra forma. É um adeus que deixa saudade, mas também celebra amizade, justiça e crescimento”, remata José Condessa. 

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