É difícil conceber estes números, mas são eles que dão a quem está longe consciência da dimensão da tragédia. Já morreram, pelo menos, 23 pessoas nos incêndios que há cinco meses tomam conta do território australiano. Estima-se que já terão morrido 500 milhões de animais, com espécies inteiras em risco de ter desaparecido. Ao todo, arderam já seis milhões de hectares, área que equivale aproximadamente a seis milhões de campos de futebol. De acordo com os bombeiros, 1300 casas foram consumidas pelas chamas, sendo que mais de 400 ficaram danificadas.

Tudo começou em setembro de 2019 mas, em janeiro de 2020, as chamas continuam a não dar tréguas. O país continua a arder, com os estados de Nova Gales do Sul, Vitória e Austrália Ocidental especialmente afetados. Segundo a Australian Broadcasting Corporation (ABC), 2019 foi o ano mais quente e mais seco de sempre registado na Austrália, sendo esta conjuntura a principal causa para que, em conjunto com os ventos fortes, o caos das chamas e da destruição se fixassem neste país, ainda sem data para abandonar.

No meio do desespero e desta tragédia difícil de conceber, os habitantes juntam-se, unem forças e ajudam-se. Enfrentam as chamas, resgatam animais e dão-lhes tratamento. Disponibilizam habitação a quem ficou sem teto e combatem incansavelmente as chamas, isto durante vários dias consecutivos.

Estas seis histórias mostram como no meio da catástrofe, nascem gestos comoventes.

Mas porque é que a Austrália ainda arde?

Uma rede de acolhimento de pessoas

A ideia inicial de Erin Riley era bem menos ambiciosa do que a realidade acabou por mostrar. Tudo começou com um tweet de ano novo, a disponibilizar um anexo atrás de sua casa, em Sidney, para o acolhimento de animais.

As pessoas seguiram-lhe o exemplo e começaram a responder com ofertas semelhantes. E a ideia ganhou uma nova forma: uniram-se as forças e nasceu um banco de dados de voluntários que, em quatro dias, deu origem ao FindABed, uma plataforma de oferta de acomodação que é já capaz de alojar mais de três mil pessoas. Até agora, e em menos de uma semana, já ajudaram 50 pessoas cujas áreas de residência e habitação foram afetadas pelos fogos, tendo recebido também muitos animais de estimação.

Esta disponibilização de espaço tem várias formas. “Pode ser qualquer coisa, desde um sítio para tomar uma chávena de chá e esperar, um sítio para ficar mais a longo prazo”, explicou Riley ao “Guardian Australia“. “Tivemos até uma pessoa que só queria tomar banho.”

Uma passagem de ano especial

Kathy Mikkelsen estava com a sua família em Mallacoota, a propósito de um concerto que iria dar com a sua banda num clube de golfe, a 30 de dezembro. Só que aconteceu o pior: o fogo aproximou-se e todos tiveram de ser evacuados para Tathra. Mas também neste sítio acabaram por ficar pouco tempo. É que as chamas foram mais rápidas: também esta zona se tornou perigosa, com o fogo a pôr a vida de todos em risco.

Seguiram então para Bega, onde acabaram por ficar encurralados. Entre familiares e amigos, eram seis adultos, seis crianças e três cães. Sem alternativa, começaram a montar um acampamento num estacionamento subterrâneo para se protegerem das chamas, até que Ibrahim, um condutor de reboques, refugiado do Sudão, os convidou para passarem a noite em sua casa. 

“Ele arranjou camas para todos. E a sua namorada preparou-nos um grande jantar”, escreveu Kathy na sua página de Facebook. “Nós abrigamo-nos lá durante a noite e tocámos música com os únicos instrumentos que tínhamos, um gravador, um ukulele, algumas colheres e duas lanternas para o espetáculo de luzes. O casal disse-nos que foi a melhor véspera de Ano Novo que eles já tiveram.”

“Foi um gesto bonito”, disse Kathy Mikkelsen ao “Guardian Australia”.

No meio das chamas, houve uma farmácia que não fechou as portas

Raj Gupta, 52 anos, é dono de uma farmácia em Malua Bay, uma das muitas zonas gravemente afetadas pelos incêndios florestais que estão a devastar o território australiano. Apesar do perigo, apesar desta zona estar já sem serviços de energia ou de rede móvel,  e apesar da sua própria casa ter sido atingida pelas chamas, o homem decidiu manter o seu estabelecimento aberto e a funcionar.

Tudo pelos seus clientes. “Entraram [na farmácia] e disseram que não só perderam a casa e os seus bens, como também os medicamentos”, contou à SBS News. Apesar de estes não terem como pagar, Gupta continua a servi-los: “As pessoas vão voltar e pagar. São pessoas muito honradas.”

É uma questão de prioridades: “A preocupação neste momento é garantir que as pessoas possam ser ajudadas, que possamos atender os seus pedidos.”

O caçador que resgata coalas das chamas

Entre território e propriedades, a perda de vida animal tem sido uma consequência brutal dos incêndios na Austrália. Patrick Boyle, 22 anos, é um caçador transformado em herói. Arriscou a sua vida, tomou uma decisão muito corajosa (e perigosa) e entrou numa área insegura (florestas de eucaliptos) em Victoria com o fim de resgatar os animais atingidos pelas chamas.

Tudo começou quando um amigo encontrou um coala assustado e escondido junto de uma estação de tratamentos de água, que levou a que este o desafiasse a ir salvar mais animais. Boyle acedeu. No início da busca, não tardou a encontrar mais um marsupial em perigo, mas se não quis ficar por aí. Boyle continuou a missão e, no final, acabou por resgatar das chamas nove coalas — levando-os depois até ao abrigo improvisado Wildlife Shelter, que é a residência pessoal de habitantes.

“Resgatei oito ou nove até agora. Encontrei mais de dez que estavam mortos e outros cinco que estão vivos e saudáveis, ​​por enquanto”, disse o jovem ao site “Stuff“.  “Sou um caçador – sou a última pessoa que os outros esperam que ajude estes animais.”

No “Today Show”, o jovem deu novidades quanto ao estado dos animais: “Eles ainda estão vivos… alguns estão melhores que outros, alguns estão desidratados e em estado de choque, outros estão realmente queimados e a lutar para comer folhas.”

Morreu o coala que foi resgatado das chamas na Austrália

Uma sesta de cinco minutos para descansar do colossal combate às chamas

Jenna O’Keeffe, de Nova Gales do Sul, um dos estados mais afetados, partilhou uma imagem do seu pai a dormir no jardim em frente a sua casa. O homem, envolto em fumo, estava a descansar do exaustivo combate aos incêndios. Na publicação, a mulher explicou que o pai estava nesta luta há dez dias, a trabalhar em turnos de 12 horas, junto de outros bombeiros voluntários, explica o site “Ladible“.

No comovente post, pode ler-se:

“Esta é uma foto do meu pai a dormir cinco minutos na relva, depois de ter terminado o seu décimo dia com mais de 12 horas consecutivas a lutar voluntariamente na comunidade com o RFS”, escreveu, acrescentando que, naquele momento, o irmão estava a vigiar o fogo que está a queimar no topo da quinta desta família.

“A minha família está a combater estes incêndios na nossa quinta e na nossa comunidade sem parar há mais de um mês. Eles estão cansados, doridos e sem recursos. Hoje ouvi meu pai chorar, ele disse ‘Jen, eu nunca vi nada assim, nunca acaba’. Ainda temos mais de 50 dias de verão, ainda não estamos no meio do caminho e atualmente não há fim à vista.”

Continua, incentivando a participação de todos no combate às chamas e na ajuda entre habitantes: “Por favor, não fique entorpecido com o que está a acontecer. Não fique preso à negatividade, à política, às notícias do Facebook, ao drama! A Austrália está a arder e há pessoas corajosas em todo o país a lutar voluntariamente, dia após dia, para manter as nossas vidas e lares seguros. Estes bombeiros precisam do nosso apoio mais do que nunca! Esse deve ser nosso único foco.

“Para todas as pessoas que ajudam direta e indiretamente em todo o país, obrigado! Para todos os demais, não se esqueçam de doar o que puderem para a sua instituição de caridade, tudo vai ajudar! Isto está longe de terminar!

“Para minha família, não posso expressar o quanto estou orgulhosa de todos vocês! Amo-vos e sou eternamente grata.”

Esta família já salvou mais de 90 mil animais das chamas

Os números são dramáticos: estima-se que as chamas já tenham tirado a vida a 480 milhões de animais na Austrália nos últimos três meses.

Bindi Irwin, filha de 21 anos do falecido personagem de televisão Steve Irwin (mais conhecido como “Crocodile Hunter”), está a fazer tudo o que está ao seu alcance para salvar o maior número de animais possível. Ativista ambiental, está em conjunto com a sua equipa do Jardim Zoológico (propriedade e sob gestão da sua família) a bater recordes no número de animais acolhidos e tratados, relata a “CNN“.

Até agora, já tiveram 90 mil pacientes: “Com tantos incêndios devastadores na Austrália, o meu coração parte-se pelas pessoas e pela vida selvagem temos perdido. Eu queria que vocês soubessem que somos seguros. Não há incêndios perto de nós ou nas nossas propriedades de conservação”, escreveu no Instagram.

“O nosso Hospital de Vida Selvagem está mais ocupado do que nunca, tendo tratado oficialmente mais de 90.000 pacientes. Os meus pais dedicaram o Hospital de Vida Selvagem do Zoológico da Austrália à minha linda avó. Continuaremos a honrá-la sendo guerreiros da vida selvagem e salvando tantas vidas quanto pudermos.”