Estávamos em meados de 1989 quando “Seinfeld” começava a fazer parte das rotinas televisivas de milhares de espectadores. Cerca de 30 anos depois, os cenários e a estética da série podem não ter envelhecido tão bem quanto se gostaria, mas em termos narrativos continua tão atual como quando se estreou em televisão. Exemplo disso é o dilema de Elaine Benes (Julias Louis-Dreyfus) durante as primeiras temporadas em encontrar um apartamento para onde se possa mudar para viver em Nova Iorque, nos Estados Unidos.

A ideia é a mesma de tantos jovens atualmente: querer assumir independência. No entanto, as rendas proibitivas impedem a personagem de o fazer e obrigam-na a ficar em casa do amigo Jerry Seinfeld enquanto este se encontra fora a correr o país com espetáculos de stand-up.

Lisboa está a encher-se de azulejos que contam histórias de moradores despejados das casas

O dilema de Elaine é, na verdade, transversal ao século XXI. Prova disso é a dificuldade que os jovens têm sentido para comprar ou arrendar casa em Portugal. Uma investigação realizada pelo Idealista, o portal de anúncios imobiliários, não deixa margens para dúvidas: as casas estão cada vez mais caras e, todos os meses, há novos alertas que mostram que a tendência é para continuar.

Sem surpresa, é em Lisboa que os valores são mais elevados com proprietários a pedir, em média, mais de 4 mil euros por metro quadrado. Logo a seguir vem Cascais e Grândola, em Setúbal, onde os valores pedidos rondam os 3.286€ e 3.188€, respetivamente.

Talvez por isso o documentário “O Que Vai Acontecer Aqui?” tenha esgotado bilhetes durante a sua passagem pelo DocLisboa, o festival cinematográfico dedicado a cinema documental e de outros géneros, e que aconteceu entre 17 e 27 de outubro.

O documentário, realizado pelo coletivo espanhol Left Hand Rotation e com apoio de associações portuguesa como a Stop Despejos e Habita, conta a história que promete ser de fácil identificação com o espectador. No centro da narrativa está Eduardo Nicola, um dos vários habitantes de um alojamento em Marvila, que vê a sua vida mudar quando recebe uma carta a avisar que a sua casa acabara de ser vendida a duas agências imobiliárias.

À MAGG, os responsáveis pela produção e realização da produção dizem que este é um “documentário sobre os movimentos sociais que defendem o direito a habitar na cidade de Lisboa, num momento de intensificação das lutas pelo espaço urbano provocada pela expansão do capitalismo financeiro que concentra riqueza em mãos de uns poucos e aumentando a desigualdade social.”

O drama de quem não consegue arrendar casa em Lisboa

E continuam: “É um documentário sobre aqueles que desafiam a conversão da cidade numa mercadoria, sobre os que desobedecem à injustiça construindo poder do lado de quem procura um lugar para viver.”

No DocLisboa, onde foi transmitido, esgotou os bilhetes em apenas dez minutos, e desde então esteve inacessível para visionamento. No entanto, os responsáveis decidiram libertar o documentário para visionamento e consumo ilimitado com legendas em espanhol ou em inglês.

O acesso pode ser feito através do link oficial no Vimeo, onde a produção com 1h22 minutos está hospedada integral e gratuitamente.