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"Pesadelo na Cozinha". "É um programa muito engendrado. Muito montado", diz proprietário da Apple House

Júlio Sousa, dono do restaurante que marca a estreia da nova temporada do programa, sente-se "usado" e muito desiludido. Desconfia de que baratas tenham sido postas no espaço.

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Júlio Sousa é o proprietário da Apple House

Júlio Sousa é o proprietário da Apple House

Entrámos na Apple House, nas Avenidas Novas, e a sala estava quase vazia. Mas poucos minutos depois, a ausência de clientes foi substituída por uma espaço lotado. “Não é normal”, disse-nos mais tarde o proprietário Júlio Sousa, 47 anos. Faz sentido: é que se fosse sempre assim, o estabelecimento não teria concorrido ao reality show “Pesadelo na Cozinha“, o programa da TVI que volta a estrear-se este domingo, 1 de novembro. O formato volta a ter como protagonista o explosivo chef Ljubomir Stanisic, que vai, alegadamente, salvar este restaurante  — que, já agora, é o local onde nasceu o primeiro Great American Disaster (hoje no Marquês de Pombal), a primeira hamburgueria de Lisboa.

Dizemos alegadamente porque, segundo nos informou a empregada de mesa, que atenta e celeremente nos atendeu, a maioria dos anteriores concorrentes anteriores do programa mesmo por falir. Mas, antes de afunilarmos as conversas que por lá tivemos, descrevemos a experiência nesta casa: pedimos um prato do dia (strogonoff de frango com arroz branco) e um hambúrguer Apple House. Por sorte ou não, os pedidos chegaram rápido, apesar de uma casa lotada — contrariando aquilo que já foi divulgado pelas revistas cor de rosa. Os sabores iam ao encontro do preço, exceto o cheesecake — esse era mesmo muito bom.

De um lado para o outro, andava Júlio. No chão, não havia sinais de baratas ou de sujidade como anunciado pelas mesmas revistas. A única coisa que havia era água trazida da rua pelos clientes (chovia muito) e alguns riscos no chão que, soubemos mais tarde, tinham sido feitos pelas câmaras da produção da TVI.

Na nossa passagem pela Apple House, as dicas do chef estavam todas a ser postas em prática (exceto nas sobremesas e prato do dia, mas já lá vamos). A ida ao programa representou a última tentativa de se salvar esta casa. “Foi puro desespero”, conta à MAGG Júlio Sousa. “Até liguei ao dono daquele restaurante em Santarém [Adiafa] que também participou para lhe perguntar o que é que achava e ele disse-me logo para não me meter nisto, que o programa lhe criou um conflito familiar e que não ajudou em nada o negócio”.

Ainda assim, Júlio foi em frente. Consciente do potencial de humilhação inerente à participação neste reality show, o homem natural de Tavira (que já viveu em muitos países do mundo, tendo trabalhado sempre em cozinha) preferiu sacrificar a sua imagem para ter os frutos de aprender com um chef conceituado.

Mas aquilo que aconteceu ficou muito aquém das expectativas: o apoio de Ljubomir foi praticamente nulo, a remodelação foi muito superficial e há até a suspeita de que a produção possa ter posto baratas no restaurante, de modo a criar um conflito mais apetecível ao espetador.

Ainda que o mote do formato seja salvar restaurantes, a realidade é que a entrada da TVI nestes estabelecimentos parece olhar única e exclusivamente para a criação de uma narrativa televisiva, em que se ignoram as repercussões em negócios à beira da falência — sem esquecer todos os que nele estão envolvidos. Mas vamos por partes.

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“No dia em que as câmaras foram instaladas nesta casa, baratas passeavam aqui como se esta fosse a casa delas”

Júlio Sousa sabia, em parte, o que é que ia acontecer. Apesar do conceito do reality show montar-se sobre a premissa de salvar restaurantes em vias de falir, este não deixa de ser um programa de televisão que precisa de audiências. E toda a gente sabe que os gritos e as abordagens desagradáveis do chef têm potencial para disparar o números de espectadores que, de casa, assistem ao “Pesadelo na Cozinha”.

Ainda sem saber qual é que será o impacto da transmissão do episódio, Júlio sente que a participação não lhe deu aquilo que ele mais queria: ferramentas suficientes para elevar o negócio. É que, além da “humilhação” (mais ou menos expectável), o algarvio sentiu-se “usado” — tanto que, no dia da reabertura do restaurante preparada pela produção, não surgirá com cara de muitos amigos, garante-nos.

“É um programa muito engendrado. Muito montado”, diz. “Houve coisas que vi na cozinha, que até eu fiquei indignado, e essas sei que não foram montadas pelo programa. Mas houve coisas que foram, que eu sei“, garante.

O caso mais chocante terá acontecido com insetos, que surgiram “aos montes” na sala de refeições: “No dia em que as câmaras foram instaladas nesta casa, baratas passeavam aqui como se esta fosse a casa delas”, conta. “Uma empregada que estava cá há pouco tempo até disse: ‘Ó Júlio, eu nunca vi aqui uma barata nas duas semanas em que estou aqui e agora há estas todas?'”.

Face ao cenário, o homem tem fortes suspeitas. “Quando um restaurante tem baratas naquela quantidade (eram mesmo muitas), tem-nas desde que elas são pequenas. Agora, de repente, de um dia para o outro, aparecem assim aos montes, enormes e com asas? Só se viesse da rua e mesmo assim era impossível serem tantas. Todos os meses temos aqui uma boa empresa que faz desinfestação, portanto nunca chegaria àquele ponto.”

Há ainda suspeitas de adulteração propositada do sabor de um ceviche. “Segunda-feira servi um ceviche — que não segue todos os passos da receita original, mas que é muito bom — a um grupo que veio cá jantar e correu tudo bem. Eles gostaram”, diz. “No dia em que o chef veio cá conhecer os pratos, deu-me a provar aquele ceviche e não tinha nada a ver. Estava intragável. É impossível ter saído da minha cozinha.”

A empregada de mesa que Júlio mencionou na história das baratas já não está a trabalhar na Apple House. “Ficou traumatizada, mesmo”, diz o homem. Em causa estará mesmo a dura participação no programa. De acordo com o proprietário, Lorena terá sido o membro da equipa mais achincalhado por Ljubomir Stanisic. “Ela também era nutricionista. E o chef dizia-lhe coisas horríveis, como: ‘Nutricionista e tão gorda?'”.

De acordo com o que a imprensa está a divulgar nas vésperas de estreia do programa, um dos problemas do restaurante estava relacionado com a constante ausência do proprietário. Júlio Sousa mostra-se indignado face à acusação: “Eu estou mais ausente porque tenho os [filhos] gémeos para cuidar. Em vez de estar cá 24 horas, como sempre estive, estou cá cinco — à hora do almoço e à noite. Venho cá todos os dias.”

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“A sensação é que veio aqui alguém e fugiu”

O que é que mudaram no restaurante? “Essa porcaria que você vê aí. Mudaram estas barras [colocaram barras de madeira nas paredes], puseram almofadas novas no encosto dos sofás, de um material muito pior do que o que está no assento, que eu mandei fazer há uns anos.”

As mesas também estão diferentes. Só que, a pedido de Júlio, quando passámos a mão na parte interior das mesmas, estavam muito ásperas.”Queriam deixar isso assim. Puseram um contraplacado marítimo , que até está bonito, mas porque nós quase os obrigámos. Mas fizeram um trabalho de porcaria. Isto mais cinco ou seis meses e começa-se a partir e a estragar. São mesas que pesam quase 50 quilos. E põem uma tampa destas?”, questiona.

A zona que dá acesso à área das casas de banho também está diferente. Mas o trabalho ficou incompleto. “Aquela porta por trás nem está pintada. E já se está a desmanchar toda.”

A dada altura, Júlio cita um amigo. “A sensação que dá, disse-me um amigo que já veio cá ver, é que passou aqui alguém e saiu a fugir.” Na cozinha, também não houve grande remodelação. “Mudaram uma máquina de lavar a loiça, que foi substituída por outra em segunda mão. Talvez tenham mudado a fritadeira, que tinha um termostato avariado.”

Quanto à carta, foi toda alterada. “Nada do que estava aqui era bom. Eu estou a tentar seguir o menu que ele deixou”, diz. “Mas deixaram aí com cada receita… as sobremesas que prepararam para a inauguração estavam intragáveis. Eu tive de ver as receitas e adaptar à minha maneira. Esse dia foi péssimo. O serviço demorou séculos. Um atraso enorme. Estavam dois cozinheiros meus e dois dele na cozinha.”

O proprietário faz ainda uma crítica ao chef, referente à incoerência das propostas que faz face à identidade e possibilidades do espaço em questão. “Meteu-me no menu um prato de gnocchi feito à base de pasta de trufas. Eles faz-me um prato a pensar num restaurante Michelin. Eu não tenho problema em fazê-lo — não tenho é onde ir buscar os ingredientes. Liguei para a produção, eles deram-me o nome de um fornecedor, que nem sequer nos quis vender o produto.”

Ljubomir Stanisic também eliminou do restaurante o prato do dia e Júlio sentiu logo uma quebra brutal na clientela. “Fiquei com o restaurante vazio. Houve dias em que nem um cliente tive. Tive de voltar a introduzir o prato do dia”, conta. Além disso, recebeu pedidos de clientes para repor alguns dos hambúrgueres que antes vendia.

Ao fazer isso, sabe que arrisca. “Ele disse-me que os outros restaurantes não tiveram sucesso por não seguirem a carta dele.”

Júlio Sousa ficou muito mal impressionado com Ljubomir Stanisic. “Nunca olhou para mim, nunca teve tempo para se sentar e conversar com as pessoas”, diz. “E fez coisas que, como chef, são nojentas: ele passou por baixo da divisão que separa o balcão da cozinha, de gatas, com as mãos no chão, e nem as lavou antes de começar a cozinhar.”

Houve outro problema grave: por haver vencimentos em atraso, o chef promete ao staff do estabelecimento que lhes vai pagar um salário. Só que a promessa demorou a ser cumprida — e os trabalhadores estavam numa situação financeira a roçar o dramático. Isto gerou alguma confusão entre a equipa: “Quando cheguei cá, os funcionários começaram a pedir-me o dinheiro. Eu não tinha nada. Tive de andar atrás da produção para eles pagarem o que tinham prometido.”

Das negociações para a venda à entrada da produção. “A casa era deles, não era nossa.”

Voltemos ao início. Os primeiros passos para que o “Pesadelo na Cozinha” fosse gravado na Apple House deram-se há um ano e meio. “Entretanto, soubemos que ia haver uma paragem no programa. E eles não nos disseram nada. Pensámos que não ia acontecer.”

Em 2018, a ideia de vender o restaurante foi-se intensificando. Depois de ir ao encontro da mulher na Ucrânia (entretanto já a viver em Portugal), que já estava grávida de dois filhos gémeos, regressou ao País decidido: com uma família para sustentar, e com o negócio num estado tão degradado, o melhor seria vender.

“O restaurante só nos tem trazido desgraças até agora. Traz-nos felicidade a nível pessoal, sim, porque temos aqui uma comunidade boa — os nossos clientes, os nossos vizinhos, que passaram a ser os nossos amigos. Mas não é isso que nos dá dinheiro para viver.”

Ainda assim, não esquece o significado do espaço que gere. “Isto é uma casa com história. Esta casa tem quase 50 anos. O tipo que era dono disto, que já morreu, era também o dono do Hotel Florida. Abriu aqui o primeiro restaurante com o nome The Great American Disaster e só depois é que inaugurou o do Marques de Pombal”, conta. “Estes quadros que estão aqui são os originais, de há muitos anos. Este foi o sítio onde muita gente comeu o primeiro hambúrguer e bebeu a primeira Coca-Cola. Por isso é que há seis anos alugámos o espaço — pagámos o trespasse —, apesar de isto, na altura, já estar nas lonas. A partir daí, entrou em declínio com o período das vacas loucas e nunca mais foi o mesmo.”

Apesar da lotação esgotada nas frequentes noites de quiz que organizam, o proprietário garante que estes eventos não são rentáveis. “Temos noites boas. Mas nem toda a gente consome. Podemos ter a casa com 60 pessoas e há pessoas que nem um café bebem. Os consumos são mínimos.”

Pela altura em que já estava em negociações, a produção do reality show da TVI voltou a dar sinais de vida. “Garantiram-nos que seriamos a primeira casa a ser filmada”, conta. “Quando contámos isto ao senhorio, a quem devo umas rendas, ele disse: ‘Epa, vocês devem-me dinheiro, mas prefiro que vão ao programa do que vendam o restaurante. Vão ao programa, até pode ser que a casa fique mais valorizada’.

A Apple House faz cerca de oito a nove mil euros mensais, valor que, adianta-nos Júlio, não é suficiente para pagar as despesas todas, incluindo os salários dos empregados, que já tinham vencimentos em atraso.

Júlio garante que o desespero foi a sua motivação: “Tenho este restaurante quase acabado e precisava de ajuda. Mais do que a publicidade, esperava que o chef me desse ferramentas. Nós precisávamos que nos ajudassem. ”

Ljubomir convidou Hugo Makarov, designer e tatuador, para fazer uma pintura na fachada do restaurante

Júlio ainda está à espera de conhecer as repercussões do programa, mas garante-nos que a experiência está longe de ter sido boa, assim como os resultados da remodelação estão longe de cumprir com as expectativas. “Não estou contente. Eram muitas expectativas e correu mal.”

Ainda assim, é cedo para falar em arrependimentos: “É preciso ver o impacto que o programa vai ter.”

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