Entrevista

Padre Paulo Duarte. "Eu também sofro, eu também me zango, e até já me zanguei com Deus"

Sofreu de bullying, fez a primeira comunhão aos 16 anos e chegou a ser assistente de bordo. Hoje é um padre que quer quebrar com os estereótipos da Igreja.

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Paulo Duarte tem 40 anos e é natural de Portimão

Paulo Duarte tem 40 anos e é natural de Portimão

Calças de ganga, lenço colorido ao pescoço, ténis azuis e amarelos e barba de alguns dias. Paulo Duarte não é o padre que esperamos, mas esse preconceito, segundo ele, está em nós.

“As pessoas acham que o padre está metido na paróquia, acanhadinho”, garante. Mas não é assim. Este padre viaja, está com os amigos, vai a todos os copos de água dos casamentos que celebra e escreve livros para que as pessoas percebam que há Deus fora da Igreja.

A MAGG sentou-se à conversa com este padre de olhos verdes que parecem ler a alma, para falar sobre o seu último livro, “Rezar a Vida, editado pela Matéria Prima.

Falámos de religião, claro, mas também de uma vida fora dela. Paulo foi assistente de bordo e, antes disso, foi uma criança calada a sofrer de bullying.

Já perdoou quem tinha que perdoar e até já perdoou Deus, por lhe ter levado a sua amiga Sandra, na altura com 15 anos. Esse foi o ponto de viragem para começar a responder aos porquês e para passar a querer fazer da Igreja uma coisa sua. Com mais abertura e menos moralismos.

O seu encontro com Deus não se deu na Igreja.
Não, deu-se com a morte de uma amiga, aos 15 anos. A Sandra morre e eu começo num questionamento muito grande. E se quiser ser mais preciso até posso dizer que foi num laboratório de química da escola.

A professora de Química pediu-me para ir buscar os reagentes e a mãe da Sandra trabalhava lá, mas nesse dia não estava. Quando cheguei percebi que ela não estava e só depois soube o porquê. É a prova de que o encontro com Deus pode dar-se no local mais inusitado.

O Paulo foi assistente de bordo e decidiu começar a sua primeira missa com um “Welcome a Board” (Bem-vindos a bordo). Lembra-se das reações?
Gargalhada geral.

A sério? Podia ser pior.
Acho que em Lisboa há mais formalidade. Essa missa aconteceu em Portimão e nos meios pequenos não noto tanto isso.

Foi uma forma de fazer a transição da sua vida anterior para a atual?
De algum modo sim. A saudade de voar ainda cá está. Já deixei de ser comissário de bordo há 16 anos mas de vez em quando ainda me dá vontade de vestir a farda e ir trabalhar. Durante muito tempo eu sonhava que a Portugália [companhia na qual trabalhava] estava com falta de tripulantes e me telefonava para saber se eu me importava se fazer um voo.

Qual era a sua resposta?
A minha resposta era sim, e que dizia que agora não podia fazer o trabalho a tempo inteiro, mas que podíamos arranjar uma escala. No sonho, entrei várias vezes no avião, mas nunca descolei.

Existe um Paulo antes e depois de ser padre?
Sim e não. Sim, sou o Paulo, que tem um percurso, que tem uma história, que tem os amigos antes de ser religioso, depois de ser religioso…

São os mesmos?
Não perdi amigos por entrar na vida religiosa. Pelo contrário, houve até gente que se aproximou. Eu percebo que esta história do ser comissário de bordo e padre faça lançar muitas questões, porque de um lado e do outro existem muitos estereótipos. Há o glamour do comissário de bordo que está sempre a viajar e de repente vai para padre, e o padre está metido na paróquia, acanhadinho.

Não é assim?
Não, de todo. Havia dias de quatro voos, havia dois dias com nove voos. Havia um voo que era Lisboa-Porto, Porto-Milão, Milão-Lisboa, Lisboa-Porto. Dormíamos no Porto e no dia seguinte fazíamos Porto-Bilbau, Bilbao Barcelona, Barcelona-Bilbau, Bilbau-Porto, Porto Lisboa. Não era assim tão glamoroso quanto isso, ainda que tivesse muita coisa boa. Agora, do lado do padre, mantém-se aquela imagem do padre conservador, retrógrado, sério, fechado, e não é bem assim. Tem que haver cada vez mais um lado de abertura com as pessoas. Eu, por exemplo, quando trabalhei em colégios, tinha os miúdos a subir por mim acima e eu a rebolar com eles no chão.

Mas tem noção de que foge um bocado à regra?
Tenho essa noção, não vou estar com rodeios. Mas para isso é preciso haver um grande trabalho de autenticidade e de verdade comigo e com Deus. Isso é fruto do meu percurso, da psicoterapia e até da dança.

Quando faço casamentos convidam-me sempre para o copo de água. Faço questão de ir para não colar a imagem do padre apenas à parte beata. O padre convive, celebra, conversa, dança”

Dança?
Sim, eu danço contemporâneo. Sou jesuíta há 16 anos e há 14 que tenho aulas de dança. Até usei a dança como tópico da minha tese de mestrado. Nós somos corpo, somos corpo total.

A nossa tendência é pensar na religião como o acompanhamento do sofrimento, mas é também no acompanhamento da alegria. Quando faço casamentos convidam-me sempre para o copo de água. Faço questão de ir para não colar a imagem do padre apenas à parte beata. O padre convive, celebra, conversa, dança.

Mas para mim o mais importante é que as pessoas, através deste meu comportamento, conheçam o Deus que é próximo, que salva sem julgar.

Sente que há um regresso à religião hoje em dia?
Há uma sede espiritual muito grande a acontecer nos tempos de hoje. Vejo as pessoas a aprofundar o mindfulness, a meditação. Isso é ótimo, mas se pensarmos bem a nossa tradição religiosa também tem tudo isso.

Apesar do seu percurso, nada na sua infância indicava este caminho religioso.
Não, de todo. Os meus pais eram católicos, ou melhor, são.

Vão mais à missa agora?
A minha mãe sim, o meu pai nem tanto. Mas antigamente não iam à missa a não ser em casamentos ou batizados. Tanto que eu fugi da catequese aos 7 anos. Foi lá alguém dizer-me que ia haver catequese e eu pedi ao meu pai para me levar. Cheguei lá e vi uma imagem de Nossa Senhora enorme e disse: “Não quero ficar aqui”. Ainda por cima era ao sábado de manhã, havia desenhos animados. Lembro-me de gritar no corredor: “Pai, espera!”, e voltei para casa com ele.

Só mais tarde, e pela mão de uma amiga, entrei num grupo de jovens católicos. Só aí é que fiz a primeira comunhão, com 16 anos. Está a imaginar? Eu, com 16 anos, uma torre, no meio de um grupo de crianças.

Foi um caminho solitário?
Não tenho essa ideia. É um caminho de descoberta. Agora que olho para trás, sempre senti uma grande sensibilidade. Hoje posso-lhe chamar de caminho de transcendência, mas na altura não sabia. Lembro-me, por exemplo, de falar com amigos imaginários.

Era muito introspetivo?
Sim, muito observador. E isso trouxe-me problemas. Gostava mais de estar em casa, sozinho, gostava de ir para a biblioteca e claro que os outros miúdos começaram a meter-se comigo. Era o “rato da biblioteca”. Começou assim até evoluir para as chapadinhas, os pontapés, ou o chamarem-me maricas. Lembro-me de querer ir daqui aqui [desenha uma linha reta com as mãos], mas se eles estavam no meio, e eu fazia assim [e desenha um círculo gigante]. Já ultrapassei tudo isto, mas é demasiado violento. Passou-me muita coisa pela cabeça. Já não fazia sentido.

O que é que não fazia sentido?
A vida.

Tentou o suicídio?
Não, isso não. Mas depois de levar um soco no estômago, são coisas que nos passam pela cabeça.

Conseguiu perdoar essas crianças?
Na altura acho que nem há muito esse sentimento, mas agora em adulto já me aconteceu ter algumas dessas pessoas a virem ter comigo nas redes sociais a pedirem perdão. Eu fui ter com elas, encontrámo-nos em Portimão e demos um abraço. Há um autor que eu adoro e que diz que o perdão não é um esquecimento, é uma cura da memória. Quando curamos a nossa memória, dão-se passos de perdão muito mais bonitos.

O Paulo consegue perdoar e esquecer?
Acho que é algo natural. Eu agora falo desse bullying, mas sei lá se foi o Manel ou o António. Se a ferida estiver viva sou capaz de me lembrar de tudo ao minuto, se a ferida começa a estar curada, essa situação simplesmente aconteceu. É uma memória ativa que já não dói. O que me dói é pensar que ainda há gente a viver isto. Aí percebo a força de ser padre, o poder que tenho em partilhar estes temas.

O mesmo aconteceu quando partilhei que tinha feito psicoterapia. Tive muitas mensagens privadas de religiosos a agradecer a coragem. É que há a ideia de que nós, religiosos, estamos sempre bem. Não há que expor o caminho da dificuldade, mas há que mostrá-lo. Não há ninguém que não passe por sofrimento e o meu papel é ajudar a ultrapassá-lo. Sem um espiritualismo moralista, mas sim escutando a pessoa. Eu também sofro, eu também me zango, e até já me zanguei com Deus.

É suposto um padre zangar-se?
[risos] Lá está, mais um estereótipo. O padre está sempre bem, lindo e maravilhoso. Não, o padre zanga-se. Também Jesus, quando expulsou os vendilhões do templo, não o fez pedindo: “Olá, como estão? Não se importam de tirar as pombas e os bois daqui?”. Não. Diz o texto que ele pegou num chicote e acabou com aquilo.

O que é que o faz zangar-se?
A injustiça, principalmente quando há falha humana, quando há falta de dignidade, de compreensão. Ainda agora se assinalou o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher e eu conheci muitos casos de violência doméstica. Obviamente que me zango com este nível de injustiça. É preciso morrer tanta gente para que a justiça mude? Aí zango-me.

Zanga-se também com coisas que acontecem na Igreja?
Claro. Não fico indiferente a casos de pedofilia na Igreja. Mas também me zango com as generalizações. Quando dizem que todos os padres são pedófilos, oh pá, calma.

Existem dogmas da Igreja que gostava de ver derrubados?
Dogmas nenhum, algumas doutrinas sim.

A mim deixa-me triste ver uma Igreja do não. É não ao aborto, não à eutanásia, não à homossexualidade. E quando é que vemos a perspetiva do sim?”

Quais exatamente?
Acho que se tem que repensar a moral. A mim deixa-me triste ver uma Igreja do não. É não ao aborto, não à eutanásia, não à homossexualidade. E quando é que vemos a perspetiva do sim? E não falo aqui do sim à vida como chavão. É um sim a tudo o que passa pela cabeça da mulher antes de abortar. É fazer um outro sentido de viagem, não pela condenação, mas pela salvação. O mesmo com a eutanásia. Dizem que a Igreja diz não à eutanásia. Calma, a Igreja não é um não à eutanásia, a Igreja gosta de cuidar da pessoa com respeito profundo até ao momento da sua morte. A morte é uma coisa muito séria e bonita, no sentido de passagem.

Mesmo quando não é da vontade da pessoa continuar vivo?
Mas como é que podemos acompanhar a pessoa nessa vontade? Se está ali num sofrimento atroz, se não há possibilidade de melhorar, todos vamos concluir que o encarniçamento terapêutico também é anti ético.

O que quer dizer com encarniçamento terapêutico?
É o forçar a vida. A sociedade vive de discussões de 240 caracteres, vive de sins e de nãos. Há coisas que não são de 240 caracteres. Não se conhece uma pessoa em 240 caracteres. Não se conhece um casal em 240 caracteres. Esta é uma discussão de emotivismos, que leva a ideologias perigosas. Falando do aborto, por exemplo, na Islândia, se uma criança for diagnosticada com Trissomia 21 o caminho é aborto. Oi? Isso dá-me que pensar. Hoje é Trissomia 21, amanhã o que poderá ser? Está a crescer o número de crianças com Asperger, com autismo e que não é detetado antes. E essas crianças também nos desafiam bastante e acabam por nascer porque são fisicamente perfeitinhas.

O livro "Rezar a Vida" foi editado pela Matéria Prima e custa 16€ (PVP)

Tem medo que no futuro também essas crianças estejam em risco?
No futuro, o meu receio é que desumanize de tal maneira que o ser humano passe a ser completamente criado para uma produtividade.

Como é que é uma missa das suas?
[risos] É uma missa como as outras.

Hum, não me parece.
O ritual não muda, mas o contexto pode ser diferente. Eu não vou celebrar da mesma forma num campo de férias como vou celebrar a missa de dia de Natal ou da Páscoa.

A Diana, a minha professora de dança, foi assistir a uma das minhas missas e disse-me: “Nós éramos os únicos a acreditar no que se estava ali a passar, não éramos?” [levanta-se e imita as poses das pessoas que assistem à missa]. Um a olhar para o lado, o que foi ler parecia que estava a ler as notícias de ontem.

Eu estou lá inteiro, não estou lá para despachar uma missa. A celebração não é minha, é de Deus. Os silêncios são longos, a homilia às vezes tem uma música de fundo e, no geral, dou sempre trabalhos de casa.

E que trabalhos de casa dá nos seus confessionários?
Digo às pessoas para se abraçarem, para fazerem silêncio, que preparem uma refeição para elas próprias.

Mais do que rezar Avé-Marias e Pais Nossos?
[Anui com a cabeça]. A penitência tem uma carga forte, mas não tem que ser um pagar a multa. O perdão de Deus está garantido. Não sou eu que perdoo, eu estou ali em nome de Deus.

Escreveu este livro para lembrar às pessoas que a fé não existe só na igreja?
Sim. A fé está em qualquer encontro.

É algo que se pode construir?
Sim, mas mais do que construir, pode desenvolver-se. Mas a fé acontece de várias formas. Se entro no autocarro, tenho fé que o motorista me leva ao meu destino, se vou a um restaurante, tenho fé que o prato que me servem será ótimo.

A sua fé em Deus é inabalável?
Não sei se quero dizer já inabalável, mas é uma fé assente.

Um Deus que dá o sofrimento é um deus com D minúsculo”

Duvidou de Deus quando a sua amiga morreu. Voltou a duvidar mais alguma vez?
Não duvidei de Deus, mas já duvidei das suas imagens. Um Deus que dá o sofrimento é um deus com D minúsculo. O que me tem ajudado é a descoberta de um Deus profundamente amor. É a fé em alguém que me desafia cada vez mais.

Acha que consigo está a nascer uma nova geração de padres?
Há muitos padres que entraram na Igreja porque tinha que ser. Eram tempos de pobreza em que os seminário dava uma resposta. Hoje em dia, as pessoas entram na vida religiosa com um sim muito consciente à sua vocação.

O que é que vê os padres mais antigos fazer que não quer repetir?
Essas perguntas têm sempre o perigo da generalização. Mas não gostaria de repetir o cansaço acumulado e alguma amargura.

Além de um discurso progressista, também o seu visual é diferente do que estamos habituados. É um homem bonito, gosta de se arranjar. Já foi abordado por mulheres ou homens nesse sentido?
Já, sim.

A tentação existe?
Existe. Do princípio ao fim da vida, disso não tenho dúvidas.

O Paulo tem um blogue, é ativo nas redes sociais, tira selfies com os noivos que casa. Essa postura já lhe trouxe alguns dissabores por parte da Igreja mais conservadora?
Já tive uma pessoa que me escreveu a exortar para tirar um gosto que tinha posto numa publicação sobre homossexualidade. E disse-me até que algumas pessoas pensavam denunciar-me ao meu superior. Bolas, o que é que é isto? Respondi-lhe delicadamente e disse que o meu superior sabia daquele gosto.

Eu não gosto de polémicas, muito menos da polémica pela polémica. Às vezes penso duas vezes antes de publicar e já deixei de publicar porque não quero contribuir pelo ruído.

Considera-se um influenciador?
Não [risos].

Mas tem a sua área de influência.
Já passei pela fase de estar dependente do número de gostos, agora já não. É muito fácil saber quais os textos que dão gostos, mas isso a mim não me adianta. Quero manter a autenticidade do que partilho.

Mas essa influência acontece fora das redes sociais. Eu posso dar uma missa para 200 ou 300 pessoas e sei que o que digo tem impacto.

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