Nos últimos 25 anos, os casos de cancro do pâncreas duplicaram e nas próximas duas décadas prevê-se que aumentem mais 50%. Estes são os dados de um estudo divulgado pela Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG) esta quinta-feira, 21 de novembro, no Dia Mundial do Cancro do Pâncreas.

Todos os anos há cerca de 1400 novos casos de cancro do pâncreas em Portugal, com uma maior incidência nos homens do que nas mulheres, já que estes atingem o pico máximo de risco entre os 70 e os 74 anos de idade — cerca de 15 anos mais cedo que as mulheres. Na generalidade da população portuguesa, 99,8% das mortes registam-se depois dos 40 anos.

Estes números levantam várias questões: porque é que há tantos casos? Porque é que se prevê um aumento? Haverá uma forma de travar? Foi para responder a estas e outras questões que a MAGG falou com Ana Caldeira, presidente do Clube Português do Pâncreas (CPP), uma secção especializada da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia.

Antes disso, é preciso perceber que o pâncreas é um órgão situado atrás do estômago e que é constituído por três partes: a parte maior é chamada de cabeça do pâncreas, a intermédia é o corpo do pâncreas e a mais pequena representa a cauda do pâncreas.

De acordo com a presidente do CPP, é na cabeça do pâncreas que acontecem aproximadamente 60% dos casos cancro. E como é que estes aparecem? “Quando as células malignas se formam e se multiplicam no tecido pancreático. Ao contrário das células normais, as células de cancro sofrem alterações no seu genoma (DNA) e perdem mecanismos de controlo. Desta forma, não morrem quando envelhecem ou se danificam, e produzem novas células, que não são necessárias”, explica a especialista.

É principalmente nos países desenvolvidos que têm surgido mais casos de cancro do pâncreas, sendo atualmente a terceira causa de morte por cancro na Europa, diz Ana Caldeira, acrescentando ainda que é o cancro que tem uma menor taxa de sobrevivência no panorama europeu — com uma expectativa de vida no momento do diagnóstico de apenas 4,6 meses.

Os números são de facto alarmantes e existe uma explicação para os mesmos. Para começar, não é um cancro fácil de descobrir.

No cancro do pâncreas não há exames de rastreio

O cancro do pâncreas é difícil de detetar precocemente, dado que o pâncreas está localizado na região posterior da cavidade abdominal, o que significa que não está em contacto com as estruturas envolventes que poderiam revelar algum sintoma.

Esta é uma das razões pela qual este cancro é um dos que mais vítimas faz, já que quando é detetado, normalmente está já numa fase avançada. Os sintomas quando o tumor se começa a manifestar podem ser: “Dor mais frequente na região superior do abdómen com irradiação para as costas, que se agrava após as refeições e na posição de decúbito dorsal”, refere a especialista.

Já no caso dos tumores da cabeça do pâncreas, os sinais podem ser uma cor amarelada da pele e urina turva. Há ainda outros sinais menos frequentes como prurido (comichão), indigestão, alteração dos hábitos intestinais, fenómenos de trombose vascular ou diabetes de diagnóstico recente.

Ao contrário de outras doenças cancerígenas, no cancro do pâncreas não há exames de rastreio, “sendo executados apenas quando a situação clínica especifica do doente o indica”, refere a presidente do CPP, Ana Caldeira.

É que esta é uma doença heterogénea, cujo rastreio para o diagnóstico precoce representa um desafio. No entanto, há algumas situações em que a realização de determinados exames podem ser fundamentais. É o caso de “indivíduos assintomáticos com episódio recente de pancreatite aguda sem causa identificada especialmente com mais de 50 anos, doentes com diagnóstico recente de diabetes mellitus [subida anormal e descontrolada da glicemia ou “açúcar no sangue”], especialmente depois dos 50 anos, e indivíduos com história familiar de cancro do pâncreas”.

Contudo, há uma forma de precaver um diagnóstico tardio: “Existem ainda lesões precursoras que se forem identificadas precocemente por métodos de imagem, podem ser tratadas antes de sofrerem transformação maligna. A vigilância deve manter-se em alguns doentes com lesões focais quisticas/sólidas, com história familiar e com pancreatite crónica”, diz a especialista à MAGG.

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Estes métodos de imagem podem ser uma ecografia ou uma tomografia computorizada. No caso de se confirmar através destes exames a existência de um tumor, pode ser necessário realizar uma ressonância magnética para aprofundar a investigação e definir melhor a localização do tumor.

A presidente da CPP adianta que quando estes exames detetam alguma anomalia, pode ser necessário realizar punção (recolha de um pedaço de tecido através de agulha especial) da massa para confirmar o diagnóstico. A ecoendoscopia também permite fazer a punção e detetar lesões pancreáticas de dimensões mais reduzidas. Esta combina a endoscopia à ecografia de alta resolução, como o nome indica. É através de um ecoendoscópio que se realiza uma ecografia no interior do tubo digestivo.

“Os pacientes obesos têm um risco 47% mais elevado de ter cancro do pâncreas”

Existem vários fatores de risco que podem promover o aparecimento do cancro do pâncreas e um deles é a obesidade que, de acordo com a presidente da CPP, representa um risco de 47% de cancro do pâncreas e uma pior taxa de sobrevida.

Há ainda um outro fator que é, aliás, transversal a vários tipos de cancro: o tabagismo. “Está relacionado com 20% de todos os cancros do pâncreas e causa um aumento de 75% em comparação com não fumadores. O risco aumenta com o número de cigarros fumados e o tempo de exposição”, refere a especialista.

A estas condições junta-se a diabetes e o álcool. A genética já não é um fator que possa ser controlado, mas é responsável por até 10% dos casos de cancro do pâncreas.

Os hábitos saudáveis são por isso uma forma de travar o aparecimento de cada vez mais casos deste tipo de cancro, e “estima-se que dois terços dos principais fatores de risco associados ao cancro do pâncreas sejam potencialmente modificáveis, oferecendo uma oportunidade para a prevenção da doença”, o que pode diminuir os números relativos à incidência da doença em Portugal nas próximas duas décadas.

Contudo, a investigação é fundamental e é nesta que podem surgir novos métodos para travar o aparecimento do cancro do pâncreas.

“Estudos recentes demonstraram que a remoção de bactérias do intestino e do pâncreas retardava o crescimento do cancro e reprogramava as células imunológicas para reagir contra as células cancerígenas”, diz a especialista, referindo ainda que esta descoberta poderia aumentar a eficácia da quimioterapia ou imunoterapia e aumentar as bactérias “boas” dos doentes, de forma a retardar o crescimento do tumor ou a diminuir o risco de cancro do pâncreas.