Margarida Salgado assume a sua história como um double divorce. O primeiro aconteceu quando tinha 8 meses, e o progenitor (ela prefere chamar-lhe assim) e a mãe se separaram. Dez meses depois, a mãe casava-se outra vez com aquele a quem ainda hoje chama de pai. Teve mais dois irmãos e, 15 anos mais tarde, Margarida aconselhava a mãe a separar-se mais uma vez. O casamento já não era feliz: “Foi um alívio para todos”, conta à MAGG.

Os meus pais separaram-se quando eu tinha 18 anos. Num dia de semana como outro qualquer, chamaram-me à sala e anunciaram de forma muito natural que o casamento tinha chegado ao fim. Já não era uma criança e sempre fui muito racional nas minhas relações: se não dá, não dá. Foi isso que lhes disse, e é isso que, três anos depois, continuo a dizer. Só faz sentido enquanto as duas pessoas estiverem felizes.

O divórcio dos meus pais não foi um drama para mim. O processo de separação decorreu com cordialidade e, embora nem todos os encontros depois daquela noite tenham sido confortáveis — para eles e para mim —, hoje está tudo bem. Manter o respeito foi essencial: olhando para trás, penso que foi por isso que nunca me abalou. Eles estavam a separar-se enquanto casal, é certo, mas nunca deixaram de ser meus pais. Em nenhuma altura me senti mais filha de um e menos de outro.

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Portanto, contrariamente ao que toda a gente me faz sentir quando digo que os meus pais são divorciados, não sofri, não sou revoltada e não me afastei de nenhum deles. “Foi traumático”, perguntam-se sempre. Apesar de responder que não, sinto sempre um olhar de pena, como se uma separação fosse sempre o fim do mundo. Não foi. Seria o meu caso assim tão excecional?

Foi isso que decidi tentar perceber. Nas redes sociais, lancei esta pergunta e, confesso, fiquei surpreendida com a quantidade de respostas. Dezenas de pessoas enviaram-me mensagens a dizer que o divórcio dos pais tinha sido tudo menos traumático. “Foi um alívio”, disseram-me várias vezes.

“O divórcio não é sempre um processo traumático”, explica a psicóloga e coordenadora da equipa infantojuvenil da Oficina da Psicologia, Inês Afonso Marques. “O ajustamento dos filhos depende em larga medida da forma como os adultos conduzem todo o processo.”

Um “bom” divórcio está nas mãos dos pais

Há 30 anos o divórcio não era visto da mesma forma. Quando os pais de Sónia Quaresma se decidiram separar, foi o pai quem a informou. “Era ele quem queria sair por isso a minha mãe decidiu que seria assim”, recorda à MAGG. Numa época em que “não se tirava os filhos às mães”, a decisão lógica foi ficar com a mãe.

Sónia tinha 13 anos e um ambiente familiar que descreve como “bom”. Ainda assim, confessa que sempre existiu alguma tensão, por isso sentiu como que uma lufada de ar fresco quando o pai saiu. Continuaria a gostar dele da mesma maneira, mas já não fazia sentido vê-lo partilhar a mesma casa com a mãe. A relação tinha acabado, e estava tudo bem — para eles, claro, mas também para Sónia.

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Mais difícil foi lidar com os comentários dos amigos e de desconhecidos. Ainda hoje, sempre que diz que os pais estão separados, recebe um “ah…” seguido de um suspiro. Porque é que isto acontece? Na opinião de Sónia, “a sociedade em que vivemos definiu que a família tem ser o pai e a mãe juntos”. E vai demorar algum tempo a perceber que nem sempre é assim.

“Fiquei radiante”. É assim que Isabel Vicente descreve o momento em que percebeu que os pais se iam divorciar. Parece estranho. Como é que alguém fica feliz com o divórcio dos pais? Ela explica: tinha 7 anos e a relação com o pai sempre tinha sido distante. A mãe também não era feliz e Isabel percebeu que, para o pai, a filha era um fardo.

O divórcio foi um alívio, portanto. No entanto, e porque estávamos em 1978 e a família de Isabel vivia numa aldeia pequena, daquelas em que tudo se sabe, teve de lidar com o desprezo dos que a rodeavam. “Sentia que as pessoas se calavam quando eu passava, estavam a falar de mim”, recorda. Na escola, os miúdos eram hostis: ninguém tinha os pais separados e mal se falava nestas coisas. “Chegava à escola e diziam-me que o meu pai me tinha abandonado, que eu era uma coitada. Eles não sabiam de nada”.

Alguns cuidados a ter no momento de partilhar com os filhos a notícia do divórcio

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  • Não associar a notícia a uma data ou época especial, como uma data de aniversário ou o Natal, por exemplo;
  • Não tornar o momento de dar a notícia numa reunião familiar demasiado formal, “séria”;
  • Assegurar à criança que, independentemente do que se está a passar na relação dos pais enquanto casal, estes continuarão a amá-la incondicionalmente e a funcionar como uma equipa em tudo o que diz respeito aos filhos — os pais deixam de ser namorados, mas continuam a ser amigos e nunca deixarão de ser pais dos seus filhos e de cuidar deles;
  • Usar uma linguagem simples, adequada ao nível de desenvolvimento da criança, não dando detalhes desnecessários;
  • Explicar o que vai ser diferente (exemplo: duas casas) e o que se manterá (exemplo: mesmo amor dos pais, mesma escola, mesmos amigos);
  • Dar espaço e tempo, mas sem pressionar, para que a criança possa fazer questões;
  • Se os adultos se mostrarem calmos, seguros, confiantes, no momento de darem a notícia aos filhos, as crianças irão reagir com maior tranquilidade;
  • Mostrar disponibilidade e dar espaço para que a criança possa expressar aquilo que pensa e sente, e para colocar as questões que quiser;
  • Não pressionar a criança a fazer perguntas ou comentários;
  • Dar respostas honestas, verdadeiras, numa linguagem simples e que seja ajustada ao nível de desenvolvimento da criança;
  • Garantir sempre respostas que ajudem a diminuir possíveis níveis de ansiedade.

Hoje os miúdos encaram com mais naturalidade o divórcio — até porque se tornou uma realidade para a grande maioria das crianças, adolescentes e até adultos. Segundo dados da Pordata, em 2018, em cada 100 casamentos, 58,7% terminava em divórcio. Em 2011, esta percentagem atingiu o maior pico de sempre, com 74,2%.

Há mais divórcios, mas isso não significa que todas as separações sejam bem geridas. O divórcio não tem de ser um drama, é verdade, mas depende dos pais garantir isso mesmo.

Se um casal promove um ambiente agressivo, de desrespeito, de frieza e de discussão, “a vida familiar nessas circunstâncias mantém-se assente em alicerces frágeis, pouco genuínos”, explica Inês Afonso Marques, também autora do livro “A brincar também se educa“. No momento da separação, uma ideia deve estar sempre presente: “Mesmo após um divórcio, é suposto haver uma dimensão familiar que deve permanecer inabalável”.

Em alguns casos, é difícil para o casal distinguir o fim de um relacionamento e o fim da relação com os filhos, que nada têm que ver com o divórcio. “Nem sempre há a capacidade de separar as águas, acabando as crianças por cair numa rede densa de emoções complexas, sentindo-se desprotegidas e no meio de um campo de batalha provocado por aqueles em quem mais confiam para cuidarem deles — os seus pais”, explica a psicóloga.

Aqui é importante que se perceba que o conceito de família e de relação são duas coisas distintas. A figura de casal deixa de existir, é certo, mas a figura de pais deve permanecer para sempre, “focada no bem-estar da criança, sem que seja minada por temas do ex-casal.”

Como garantir que o divórcio não é traumático para os filhos

O processo para lá chegar não é simples. Não existe um tutorial no YouTube, nem uma fórmula perfeita para garantir que nada falha. “Cada caso é um caso, cada dinâmica tem as suas especificidades, cada família tem as suas histórias e estão em fases diferentes do seu ciclo familiar, e cada elemento da família tem as suas características pessoais”.

Mas neste processo é importante que tenha alguns cuidados — são pequenos pormenores que provavelmente não identificaria à partida, mas que no processo de receção e de tratamento da informação da criança podem ser relevantes.

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“O paradigma tem-se alterado. Felizmente, na prática clínica observo cada vez mais dinâmicas pós-divórcio vividas de forma genuinamente focadas no bem-estar da criança. Ainda assim, infelizmente, continuam a existir muitas crianças ‘no meio’ das separações dos pais, vítimas não da separação em si (que nalguns casos são vividas como uma espécie de alívio para os mais novos, mesmo que mantenham uma idealização romântica de uma reconciliação) mas vítimas da má gestão da situação dos pais que deixam as dinâmicas parentais serem minadas por heranças emocionais do ex-casal”, explica a psicóloga.

Acima de tudo, é essencial afastar as crianças das discussões (bem como uma possível tensão) entre o casal, garantir que continuam a ser uma família e assegurar que ambos os progenitores continuam lá para apoiar os filhos. Consoante a idade destes, porém, a mudança pode sempre causar desconforto, mesmo que seja bem gerida. Podem surgir alterações de comportamento, como mudanças nos padrões de sono (como maior dificuldade em adormecer, pesadelos), alteração no controlo dos esfíncteres (como voltar a fazer chichi na cama), alterações de apetite.

Todas estas mudanças, desde que não se prolonguem no tempo, podem ser encaradas como naturais num processo de divórcio, mesmo quando decorre de forma tranquila. É uma questão de hábito, por isso os pais podem estar descansados que acabará por passar.

Um dos maiores medos dos pais em relação ao divórcio é perder a relação com os filhos. No meu caso, nada mudou, pelo contrário — sobretudo com o meu pai, até melhorou. No caso de Sónia Quaresma, também. Isabel Vicente e Margarida Salgado têm uma perspetiva diferente em relação a ambos os pais, mas apenas porque estes não foram capazes de assegurar que se mantinham presentes. Portanto, as mágoas não incidem sobre o divórcio: “Mais vale um bom divórcio do que um péssimo casamento”, remata Isabel.