Acidente Vascular Cerebral. Falamos de um problema que surge na sequência de os vasos que transportam o sangue ao cérebro entupirem ou romperem. Como consequência, dá-se uma paralisia da zona deste órgão, resultante da ausência de circulação sanguínea. No pior dos cenários, pode causar incapacidade permanente ou a morte.

Não só o acontecimento está longe de ser raro, como também os piores resultados são frequentes. No Dia Mundial do AVC, que se celebra esta terça-feira, 29 de outubro, as autoridades de saúde relembram que três portugueses sofrem um AVC por cada hora que passa, sendo que um dos afetados não sobrevive. Todos os anos, o Acidente Vascular Cerebral mata seis milhões de pessoas em todo o mundo.

Podia não ser assim. De acordo com a Sociedade Portuguesa de Acidente Vascular Cerebral, metade dos casos poderiam ser prevenidos e tratados de forma eficaz, caso os cuidados de saúde fundamentais e eliminação de fatores de risco fossem levados a cabo, como, por exemplo, o controlo de pressão arterial ou abandono de hábitos tabágicos. Além disso, caso o tratamento fosse aplicado na fase aguda do acontecimento (isto é, se os primeiros sintomas não fossem ignorados), as taxas de morte e de incapacidade poderiam ser reduzidas em 50%.

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O aumento do AVC nas mulheres é normal

Apesar de ser um fenómeno muito mais frequente no sexo masculino, que tem no seu próprio corpo fatores que naturalmente lhe aumentam o risco — como as hormonas sexuais masculinas —, a realidade é que os casos em mulheres estão a aumentar.

Mas é por uma razão simples: também a esperança média de vida está a aumentar. E, quanto mais velhas, mais suscetíveis estão ao AVC. A partir do momento em que entram no período pós-menopausa, deixam de ter aquilo que lhes serviu de escudo a vida toda: os estrogénios e progesterona, as hormonas sexuais femininas, que garantem “proteção cardiovascular”, explica à MAGG Jorge Lima, ginecologista e obstetra, coordenador da Obstetrícia e da Unidade de Alto Risco Obstétrico do Hospital CUF Descobertas.

É por isso que as taxas de incidência de AVC em mulheres novas é tão baixa. “O AVC continua a ser raríssimo em mulheres em idade fértil”, diz o especialista. No entanto, quando a mulher está grávida e em período pós-parto, a situação é ligeiramente diferente. “Mas comparando a gravida à não grávida, a grávida corre mais riscos. Mas, mesmo assim, a taxa é sempre muito superior nos homens.”

Porque é que a mulher grávida está mais exposta a este problema? Ironicamente, é o corpo a trabalhar para garantir que, tanto a criança, como a mãe, sobrevivem ao parto e ao período que lhe sucede: no período do gestação, vários fatores alteram a dinâmica cardiovascular do organismo, incluindo os mecanismos de coagulação. “Durante a gravidez acontecem alterações fisiológicas que tornam o sangue mais coagulável, o que, junto com as contrações do útero, previne a perda a hemorragia no parto e pós-parto.

Não há como escapar a esta reação do corpo da mulher grávida. Porém, há outros fatores de risco que podem aumentar as probabilidades. E quanto mais estiverem presentes, maior é o risco tromboembólico — que não se cinge ao cérebro, podendo ocorrer em outras partes do corpo, incluindo pulmões ou pernas. Entre os comportamentos que acrescem o perigo estão, segundo Jorge Lima, o tabaco, o stresse, a obesidade e doenças crónicas como a diabetes, hipertensão, doença cardíaca valvular, trombofilias hereditárias ou adquiridas, anemia falciforme ou lúpus.

Complicações na gravidez e no parto são também aspetos que podem aumentar o risco de AVC na mulher. Aqui entram a hiperemese gravídica, a anemia grave, a trombocitopénia (número baixo de plaquetas), a hemorragia pós-parto, especialmente a com necessidade de transfusão de sangue, a infeção, a pré-eclâmpsia e a cardiomiopatia pós-parto.

“É por isso que é comum fazer-se uma avaliação de risco trombóembólico”, explica Jorge Lima. “É feito com um score, isto é, uma avaliação que resulta numa pontuação. Quem tem mais pontos, tem de fazer medicação”.

Como este fármaco, que é manipulado e adaptado à grávida, vai interferir na coagulação do sangue, diminuindo-a,  é necessário que, durante o parto, se tenha mais atenção e cuidado à perda do sangue. “São fármacos que não têm efeito no bebé, não são patogénicos, não passam para a placenta”, garante o especialista. “É preciso parar [a medicação] com antecedência, controlar o parto. A equipa [médica] é que fica responsável por manusear estas regras.”

Há ainda outro fator de risco que acresce a possibilidade de AVC: as mulheres são mães cada vez mais tarde, o que significa que há gravidezes que se desenvolvem em organismos que podem já conter alguns dos fatores de riscos apontados, assim como uma alteração no nível das hormonas sexuais femininas.

Temos mulheres de 50 anos a terem bebés, que não é a mesma coisa do que os terem aos 20. Não podemos dizer que isto é negativo: a esperança de vida aumentou e isso é bom. E ter um filho aos 50 não é anormal, tendo em conta que hoje as mulheres vivem até aos 90. Temos é de adequar a vigilância.”

Manuel Manita, neurologista no Hospital CUF Infante Santo, justifica o facto de haver uma incidência maior de AVC na mulher pelos mesmos motivos que Jorge Lima: o aumento da esperança médica de vida e as gravidezes mais tardias. “Há mais pessoas de idade, por isso é que há mais mulheres com AVC”, diz. “Nas camadas mais jovens continua a ser muito mais frequente nos homens.“

Além disso, nota que também acontece as mulheres não valorizarem de imediato os sintomas do AVC, que se podem manifestar de várias formas: fraqueza ou formigamento na cara, no braço ou na perna, particularmente num lado do corpo; confusão mental; alterações da fala ou de compreensão; alteração na visão, num olho ou em ambos; alterações no equilíbrio, na coordenação, tonturas, mudanças no andar ou dores de cabeça súbitas.

Ao mesmo tempo, considera poder haver uma recuperação menos eficaz e rápida do que nos homens. E isto não acontece porque o corpo funciona de uma maneira que atrasa o processo. A justificação para os dois aspetos apontados por Manuel Manita pode estar relacionados com a acumulação de tarefas, tão característica da mulher, que não raras vezes é mãe, mulher e trabalhadora.

Apesar de tudo, e em qualquer uma das circunstâncias apontadas, o homem continua a ter sempre um risco mais elevado de ter um AVC.  Jorge Lima termina dizendo que a prevenção para a ocorrência de um AVC reside no bê-á-bá para uma vida saudável. “Os hábitos de vida saudáveis são fundamentais: fazer exercício, ter uma boa dieta, fazer um controlo de peso e dormir bem.”