Em 2008, Jenna Myers Karvunidis estava grávida do primeiro filho. Viciada em celebrações — estamos a falar de alguém que chegou a fazer bolos de aniversário para o peixe —, a americana teve a ideia de dar uma festa para revelar o sexo do bebé. Era uma boa forma de juntar toda a gente e estimular o entusiasmo pela nova adição à família. Do lado do marido tinha acabado de nascer uma criança, portanto o anúncio de uma segunda a caminho não estava a ter o impacto desejado.

Na ecografia das 20 semanas, Jenna pediu à médica obstetra que não revelasse o sexo do bebé — o “segredo” foi deixado num envelope selado, que a futura mãe só viria a abrir no dia da festa. Quando ainda não fazia a menor ideia se ia ter uma menina ou um menino, preparou dois bolos com a forma de um pato: um recheado com creme rosa e outro com creme azul.

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No dia do evento de revelação do género do bebé, a família não sabia bem para o que ia. Mas no momento em que abriram o bolo e perceberam que Jenna ia ter uma menina, explodiram. Lágrimas, suspiros, alguém chegou mesmo a gritar: “Sinto que ela já nasceu!”. Foi possivelmente uma das melhores festas organizadas por Jenna.

A americana contou tudo sobre o evento no blogue que tinha na altura. Uma revista viu o texto e decidiu fazer uma notícia. De um meio de comunicação saltou para vários e de repente estava toda a gente a fazer o mesmo. Nem as celebridades escaparam — no anúncio da terceira gravidez, Kate Hudson, o marido e os filhos rebentaram vários balões em simultâneo, o que causou uma explosão de serpentinas e confetes cor de rosa na relva.

11 anos e três filhos depois, porém, Jenna Myers Karvunidis garante-se arrependida. A confissão foi feita em julho deste ano, quando a americana de 39 anos disse ter um “misto de sentimentos” em relação ao facto de ter inventado estas festas.

“O que é que interessa o género do bebé? Eu fiz aquilo porque não vivíamos em 2019 e não sabíamos o que sabemos hoje — que focar num género à nascença deixa de parte um enorme potencial e talento que nada tem que ver com o que está no meio das tuas pernas”, escreveu na altura no Facebook. “Plot twist: a bebé da primeira festa de revelação de género é uma menina que veste fatos”.

Bianca tem hoje 10 anos, identifica-se com o género feminino mas recusa-se a aceitar que as raparigas têm de se vestir ou agir de determinada forma. “A Bianca diz-me que existem mais de dois géneros e muitas sexualidade. Eu nunca tinha pensado nisto antes”, explica Jenna ao “The Guardian“.

Graças à filha, Karvunidis tem agora uma preocupação com a perpetuação de preconceitos que não ajudam a comunidade trans e não binária. Por isso mesmo, arrepende-se destas festas: “Pelo menos quando a criança nasce, recebemos todas as informações de uma vez só: sexo, cor dos cabelos, com quem é que eles se parecem, quanto tempo têm, qual é o batimento cardíaco. Com a revelação do género, isolámos um único aspeto dessa pessoa. Quando se eleva como central à sua identidade, isso é problemático”.

Na opinião de Jenna, a revelação do género ajudou os conservadores a criarem caixas cor de rosa e azuis cada vez mais restritivas para as crianças, que apoiam a sua agenda anti-liberal. “Eu sei que contribui para isso, o que me deixa doente.”