Foi em 1990 que nasceu o Outubro Rosa, o movimento que dedica vários dias deste mês a causas diferentes. Esta terça-feira, 15 de outubro, as atenções viram-se para a importância de um controlo eficaz e contínuo da saúde mamária, com o Dia Mundial de Saúde da Mama.

Como é que este controlo pode ser feito? Esta é uma das questões que a cirurgiã oncológica, Emília Vieira, responde no livro “O Que Faço? Tenho Cancro da Mama“, também ele lançado esta terça-feira. 

Emília Vieira faz parte do corpo clínico do Hospital de Santa Maria e já fez cerca de 2000 cirurgias em patologia mamária

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O livro, tal como o movimento Outubro Rosa, têm como objetivo a consciencialização sobre esta doença, que, segundo as “Farmácias Portugueas“, afeta anualmente cerca de 6 mil mulheres, em Portugal. Mas os homens não escapam.  Apesar de uma frequência muito inferior, este problema também existe no masculino, representando menos de 1% dos número total dos casos — o que equivale a cerca de 60 novos casos anualmente, comparativamente à média de 11 novos casos diagnosticados às mulheres, diariamente.

Apesar da diferença gritante, também os homens devem estar alerta, aconselha Emília Vieira, em entrevista com a MAGG:”Embora estejam agora mais consciencializados, há muitos que ainda não sabem que podem ter [cancro da mama] e muitas vezes quando vêm ter connosco estão numa fase já um bocadinho avançada”.

A MAGG falou com a especialista e autora que nos adiantou que a acessibilidade da informação disponibilizada terá sido o seu maior “cuidado”. Desde a prevenção, à importância do exercício, impacto na vida sexual e importância de auto exames frequentes, conheça as regras principais para estar alerta e cuidar da sua saúde mamária.

O livro da especialista Emília Vieira, está à venda nas livraras com um P.V.P recomendado de 15,20€

Apresentou o livro em capítulos com perguntas. Estas são as mais frequentes entre as mulheres?
Foi baseado nas perguntas que me têm feito ao longo destes anos, embora todas essas perguntas tenham uma sequência em termos de prevenção da doença, da efetivação do diagnóstico, tratamento, pós-operatório, etc. Foram ordenadas com uma cronologia para tornar mais percetível.

Há algo que possamos fazer para prevenir esta doença?
Nós podemos fazer várias coisas para prevenir, embora prevenção aqui não signifique evitar que ele apareça, porque o nosso organismo é autónomo e nós não o conseguimos controlar. O que podemos fazer em termos de prevenção é descobri-la cedo. Costumo dizer que no cancro da mama prevenção é igual a deteção precoce.

O tumor que é descoberto pela imagem ainda sem ser apalpado, tem uma maior uma maior hipótese de cura. Por exemplo: o tumor que é detetado no chamado estádio 1 [o tumor estende-se para fora do órgão de origem], tem uma hipótese de cura nos 90%. O tumor que é detetado já pela doente e que depois é confirmado pelos exames, baixa bastante essa hipótese de cura e ronda os 50% a 60%.

Antes de aparecer o tumor da mama, ou em qualquer doença oncológica, o exercício físico é uma mais valia”

Da sua experiência, as mulheres têm o hábito de realizar o auto exame do cancro da mama?
Atualmente, já há um grande cuidado das mulheres nesse sentido. As mulheres estão mais conscientes da grande probabilidade de vir a ter cancro de mama e não há duvida de que tem sido feito a nível mundial uma grande campanha acerca da prevenção.

A mamografia é feita anualmente ou de dois em dois anos, consoante a história clínica da doente, a história familiar, etc. Nos outros 364 dias do ano, é importante que a mulher conheça o seu corpo e a sua mama e faça o auto exame periódico. Não tem de ser todos os dias.Se ela ainda for menstruada, deverá fazer o exame na semana a seguir à menstruação. Já se for pós-menopausa deverá fazer também mensalmente, num dia fixo. Também costumo dizer para, pelo menos, olharem as suas mamas ao espelho, porque nós não conseguimos olhar para as nossas mamas a não ser de cima para baixo.

É importante fazer um estudo genético?
É importante numa mulher que tem familiares diretos com casos de cancro da mama e/ou ovários, principalmente se esses tumores surgiram em mulheres pré-menopausa. Caso dê positivo, o que podemos fazer daí para a frente é prevenir o aparecimento. Nessa situação, em que a mulher é ainda saudável, é importante fazer a prevenção ou uma mastectomia e extração dos ovários preventiva também.

Enquanto profissional, como é que lida quando tem de dizer a uma mulher que “tem cancro”?
Não é fácil. É sempre um choque para a mulher. E por mais calmas que estejamos ao dizer, por mais que expliquemos numa primeira consulta, não entra muita coisa.

Primeiro de tudo nunca omito e nunca minto à doente. A doente tem todo o direito de saber o que está a acontecer e tem de tomar consciência da sua doença. Temos que, a pouco e pouco, alterar essa sensação de que o mundo acabou, para algo que é tratável e poderá ser curável, embora tenha o seu tempo de tratamento e os seus efeitos colaterais.

É necessário fazer uma mastectomia em todos os casos de cancro?
Não, consoante o tipo e as características do tumor. Pode-se fazer aquilo que se chama de tirar fragmentos da mama — fazer uma mastectomia parcial. Tentamos sempre tornar essa cisão o mais estética possível.

São vários os efeitos secundários da quimioterapia nas doentes. Tem algum conselho para os familiares ou pessoas próximas lidarem da melhor forma com a situação?
Primeiro que tudo, é importante os familiares acompanharem a doente nalgumas consultas, porque antes de qualquer tratamento de quimioterapia, são sempre explicados todos os efeitos secundários prováveis, consoante a situação ou as drogas que forem usadas. Umas dão mais cansaço, outras mais azia ou vómitos. Algumas delas podem dar queda de cabelo, outras fragilidade dentária.

O que é a hormonoterapia. Pode ser substituída pela radioterapia ou quimioterapia?
São tratamentos diferentes, que se complementam. A hormonoterapia é usada quando os recetores hormonais, quer de progesterona, quer de estrogénios, são positivos. Ser positivo significa que na parede celular tumoral há uns pequenos recetores onde se encontram ou podem receber-se estrogénios.

Há células que têm recetores de progesterona e outras que não tem. Nas que têm, o tumor alimenta-se e cresce um pouco com a presença dessas hormonas. A hormonoterapia é um tratamento que faz com que as células não reconheçam essas hormonas que estão à volta delas. Não reconhecendo, não se alimentam dela. Só é administrada em doentes em que sabemos que nas células tumorais existem esses tais recetores.

No caso dos homens quais são os sintomas de cancro da mama?
Nos homens o cancro da mama é exatamente igual ao da mulher, tem as mesmas características. É mais fácil detetar porque o homem não tem praticamente gordura a nível dos peitorais. Portanto, qualquer pequeno aumento retromamilar é facilmente percetível.

Não se fala muito em sexualidade quando o tema é cancro. Esta é uma preocupação das doentes nas consultas?
Com certeza. Principalmente as que fazem hormonoterapia, porque vai induzir uma menopausa precoce e causar, por exemplo, a diminuição da libido. A quimioterapia também vai fragilizar bastante os órgãos sexuais e há uma dificuldade em ter relações sexuais.

A mulher está mais frágil, o que significa que há toda uma série de sintomas, que fazem com que o apetite sexual desapareça. É extremamente importante que o parceiro compartilhe com a mulher aquilo que se passa. Costumo dizer que a sexualidade não é só ter relações sexuais. É também carinho, amor, afeto, compreensão.

É importante fazer um suplemento vitamínico?
É sempre bom. Quase todas as mulheres fazem suplemento vitamínico e suplementos proteicos. Na consulta de oncologia temos um nutricionista para dar conselhos. Porque, além do que se pode evitar, há também conselhos alimentares para durante os tratamentos, já que, durante estes, a mulher tem mais náuseas, mais vómitos, poderá ter falta de apetite e alteração do paladar.

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Sobre o exercício físico. Há algo que possa ajudar no processo?
Antes de aparecer o tumor da mama, ou em qualquer doença oncológica, o exercício físico é uma mais valia. E fazer exercício não quer dizer que tem de andar num ginásio todos os dias. Porque isto surge em pessoas de mais idade em que por vezes basta uma caminhada diária de meia hora.

No pós tratamento, há sempre uma tendência de a doente ficar com fadiga e náuseas e passado dois ou três dias já está melhor. Nessa altura, é bom fazer uma caminhada de dez minutos por dia — já vai sentir-se melhor.

Este livro deve ser lido por todas as mulheres, ou apenas por aquelas que pensam “O que faço? Tenho cancro da mama”?
Acho que deve ser lido por todas as mulheres, incluído familiares e amigos. Porque muitas vezes, vêm ter connosco para perguntar como é que devem lidar com a doente.