Estávamos a 25 de junho de 2011 quando Angélico Vieira, cantor e ator de “Morangos Com Açúcar”, perdeu o controlo do carro que conduzia. O despiste aconteceu na autoestrada A1, perto de Estarreja, como consequência do rebentamento de um pneu.

O ator foi assistido no local pelas equipas médicas que, após as primeiras manobras de salvamento, garantiram a sua estabilidade para que fosse levado em segurança para o Hospital de Santo António, no Porto. Três dias depois, os vários exames para analisar os estímulos cerebrais de Angélico possibilitaram às equipas médicas declarar o seu estado clínico como irreversível.

A 28 de junho, o cantor foi declarado em estado de morte cerebral e as máquinas que o mantinham vivo foram desligadas às 23h40. O ator viajava do Porto para Lisboa, onde estava planeado que apresentasse o single “O Quanto Gosto de Ti”, uma das canções que viriam a fazer parte do seu segundo disco.

No dia seguinte à sua morte, Hugo Pinto, um dos ocupantes do carro, garantiu ao “Você na TV!” que, e ao contrário daquilo que estava a ser dito na comunicação social, “o Angélico levava cinto de segurança” e que não iam com pressa — contrariando os rumores de que o cantor conduzia em excesso de velocidade.

“Tínhamos saído do Porto há cerca de meia-hora, mais ou menos. E um dos motivos para termos saído de noite foi para irmos devagar, para não estarmos com pressa. Uma das coisas que queria aqui frisar é que o Angélico levava cinto de segurança, ao contrário do que dizem e do que têm dito”, explica.

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E continua: “O Angélico não bebe álcool. O que se passou foi um erro mecânico no automóvel porque o eixo da roda traseira partiu, e foi isso que nos levou ao despisto. Apercebemo-nos de um grande estrondo na parte detrás do carro que, depois, se começou a descontrolar. O Angélico só disse para a gente se segurar.”

A morte de Angélico, que foi considerado um ícone da cultura pop portuguesa pela forma como marcou uma geração, abalou o País. Mais de oito anos depois, a sua morte continua a estar envolta em polémica ao ponto de opor, em tribunal, Rita Pereira e a família de Angélico ao dono do stand do carro que o cantor conduzia.

Em causa está a alegação de Filomena Vieira, mãe do ator, de que o carro que o filho conduzia pertencia a um stand da Póvoa de Varzim, no Porto, e tinha sido emprestado, em mau estado e sem seguro. Segundo escreve o “Jornal de Notícias”, citando a Lusa, um dos responsáveis pelo stand manteve sempre a mesma versão dos factos: que o carro não lhe pertencia e que teria sido vendido a Angélico Vieira.

No entanto, Filomena Vieira garante que o alegado contrato de compra e venda foi feito depois do acidente — através da falsificação da assinatura do ator.

O início do julgamento

Em setembro de 2019, altura em que o caso começou a ser julgado em tribunal, a mãe de Angélico garantiu que o responsável pelo stand nunca pediu uma indemnização pela destruição do veículo “porque tinha problemas de consciência, uma vez que o carro estava em más condições.”

A posição do Ministério Público é de que os arguidos, Augusto Fernandes, o responsável do stand, e a ex-mulher, “quiseram afastar qualquer responsabilidade que pudesse recair sobre a sociedade pelo empréstimo do veículo sem seguro.”

A acusação diz que a falsificação do contrato de compra e venda do BMW 635 permitiu à sociedade apoderar-se de outros dois carros que o cantor tinha deixado no stand — um Ferrari e um Audi que seriam usados como troca. Em causa estão os crimes de burla qualificada, abuso de confiança e falsificação de documentos na forma agravada.

A versão de Filomena Vieira foi corroborada esta quarta-feira, 9 de outubro, por Rita Pereira. A atriz foi ouvida pelo Tribunal de Matosinhos através de uma chamada em videoconferência. Segundo escreve o jornal “Correio da Manhã”, a atriz afirmou que o cantor não tinha interesse em comprar o BMW e que os outros dois que tinha deixado no stand eram para venda e não para troca.

“Já no hospital, o Augusto contou-me que tinha emprestado o carro ao Angélico”, terá dito em julgamento. Segundo a mesma publicação, a atriz explicou ainda que se voltou a aproximar do cantor, com quem namorou durante vários anos, meses antes do acidente.

Esta quarta-feira, o Ministério Público voltou a pedir a condenação de Augusto Fernandes e da sua ex-mulher. A sentença vai ser conhecida a 29 de outubro.