Estávamos em abril de 2003 quando o ambiente pacato de Bragança foi subitamente interrompido. De um dia para o outro, os maridos começaram a privilegiar as dormidas fora de casa, as dívidas foram-se acumulando e os casos de violência doméstica aumentaram exponencialmente. Em causa, estava a alegada chegada de imigrantes brasileiras, supostamente associadas à prostituição, que deram azo à proliferação de casas de alterne na região.

O caso recebeu a atenção da comunicação social, nacional e internacional, depois de um grupo de cidadãs — que ficaram conhecidas como as Mães de Bragança — terem posto a circular uma petição onde pediam ajuda para salvar a cidade de “uma onda de loucura”.

Na altura, o jornal “Público”, citando a Lusa, publicava um excerto do abaixo-assinado que contava com a assinatura de várias destas “mães” que o entregaram ao governador civil, à Câmara Municipal de Bragança e à polícia.

“Sabemos que desde o início dos tempos que sempre houve prostituição, mas o que está a acontecer em Bragança é uma autêntica onda de loucura, que tem de ser combatida e travada. Não podemos continuar a permitir que Bragança seja conhecida como a cidade número um em vida noturna, droga, consumo de bebidas alcoólicas e em prostituição”, escreveram.

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Sob anonimato, as Mães de Bragança garantiram que aquelas mulheres estavam por toda a cidade e que vários homens já tinham deixado as suas famílias para se juntarem a elas. Ao “Diário de Notícias”, José Machado Pais, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, explica que esta reação aconteceu por dois motivos muito simples.

“Quer pelo surgimento repentino das casas de alterne, algumas das quais davam nas vistas pelas luzes chamativas, quer porque algumas raparigas que nelas trabalhavam se passeavam no espaço público com vestes provocantes. O fenómeno tornou-se visível. A isto juntou-se o facto de o dinheiro que faltava em casa ser estourado nas casas de má fama”, conta.

Esta “onda de loucura”, tal como é descrita na petição, fez aumentar a clientela em salões de beleza, a venda de revistas para mulheres com dicas de sedução e trouxe para o espaço público um tema que, até então, só era discutido em privado.

“Este enfrentamento fez com que temas tabu, como o da sexualidade e o da prostituição, passassem a ser debatidos em cafés, lares de idosos, escolas, cabeleireiros, esquinas de rua… Ou seja, temas interditos ou ausentes das conversas quotidianas passaram a suscitar um vivo debate, desde a legalização da prosituição até aos segredos de alcova para recuperar a fidelização dos maridos traidores”, explica o mesmo investigador.

No entanto, para José Machado Pais, o comportamento das Mães de Bragança foi um “achado surpreendente” porque a revolta “virou-se para um único inimigo: as sedutoras de além-mar”.

A lei contra a violência doméstica é “completa”. Então, porque é que está a falhar tanto?

“Os maridos traidores foram poupados, diria mesmo desculpabilizados. Vim depois a descobrir que algumas mulheres traídas acusavam as sedutoras de além-mar de amarrarem os maridos com drogas, feitiços, macumbas e até um misterioso chá que os punha de cabeça à roda”, revela. A força da tradição terá sido um fator importante para que não se tivessem registado divórcios no rescaldo da polémica.

A verdade é que o desejo destas “mães” foi “alcançado em parte”. Houve um aumento de rusgas a casa de alterne e muitas chegaram mesmo a fechar.

“Só não conseguiram que as brasileiras tivessem sido expulsas e isso era o que declaradamente exigiam no seu manifesto”, embora algumas tenham mesmo acabado por se mudar para Espanha — várias até com os maridos de outras mulheres, que deixavam as famílias para trás.

Cerca de 16 anos depois, a história volta a ser recordada numa nova série de ficção da RTP1 chamada “Luz Vermelha”. A produção, de 13 episódios, com 40 minutos cada, promete ir além do caso mediático e dar a conhecer a vida de algumas das mulheres que se viram envolvidas no confronto.

O elenco é composto por nomes como Margarida Vila-Nova, Afonso Pimentel, João Baptista, Sofia Nicholson, Sara Norte e Joaquim Monchique.

O argumento é de Patrícia Müller e promete cenas de sexo, violência, nudez e prostituição. Talvez por isso, a nova aposta do canal tenha sido colocada no segmento de late night da grelha de programação.

“Luz Vermelha” tem estreia marcada já para esta sexta-feira, 11 de outubro, às 22h30, na RTP1.