Viajantes

Há pessoas que não gostam de viajar — e fomos tentar perceber porquê

Acomodações, transportes, bagagens — fazer uma viagem pode não ser tão relaxante quanto parece. Mas ainda que haja quem prefira ficar em casa, a maioria só pensa na próxima viagem.

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De um lado a minoria que prefere ficar em casa. Do outro, todo um mundo por descobrir pelos adeptos de viajar

De um lado a minoria que prefere ficar em casa. Do outro, todo um mundo por descobrir pelos adeptos de viajar

Eu viajo. Tu viajas. Ele viaja. Nós viajamos. Vós viajais. Eles viajam. Este parece ser o verbo que todos gostam de conjugar, certo? Errado.

Para algumas pessoas, viajar é sinónimo de stresse e não corresponde ao “vício” prazeroso de qual muitos falam.

Mas comecemos por fazer um teste: está constantemente a pensar em viagens, está sempre atento às últimas promoções, controla alguns hábitos no dia a dia apenas para juntar mais dinheiro para viajar, fica ansioso quando não viaja e até já pensou em viajar a tempo inteiro? Se responde afirmativamente a todas estas questões, pode achar bizarro que alguém pense de forma diferente e prefira o sossego de ficar do que a incerteza do ir. Mas as pessoas que não gostam de viajar existem, e a MAGG falou com elas.

É o caso de Rosa Freitas que admite que não gosta de viajar: “Acho que sou um bocado comodista nisto. Reconheço. Mas não acho piada nenhuma andar de um lado para lado”, afirma.

Rosa tem 50 anos e só viajou uma vez e foi até à Madeira onde, apesar de realçar que passou uns bons dias, admite preferir o sossego de casa. Não gosta de andar de avião nem de autocarro, mas desde logo esclarece que não é isso que a priva de ir até outros países caso gostasse de o fazer: “Gosto de estar no meu canto, gosto de conhecer sítios perto do local onde vivo, que me permita ir, mas voltar no mesmo dia. Não gosto de estar muitos dias fora.”

Partilha connosco que só a ideia de fazer uma mala a stressa e não considera que viajar seja assim tão incrível — e por esta razão prefere a sua rotina familiar. “Eu percebo quem gosta de viajar e quer conhecer culturas e pessoas novas e há quem tenha necessidade disso para ser feliz, mas sinceramente não sinto falta. As pessoas que eu conheço e com quem me dou no dia a dia já me enchem a vida. Por exemplo, prefiro passear por perto e depois ter pessoas a jantar em minha casa. Dou mais valor a isso do que ir conhecer pessoas que provavelmente só irei falar uma vez.”, defende.

Para Rosa, as imagens que a televisão mostra de outros países são suficientes para conhecer o mundo. Tem uma filha a viver em Londres, mas pede-lhe que venha a Portugal regularmente. Assume que não tem interesse em ir até à capital de Inglaterra e o mais importante é estarem juntas.

As empresas que o levam a viajar pelo mundo quase sem pagar

Tal como Rosa, Flávio Silva também não tem como sonho viajar pelo mundo. Começa logo por afirmar. “Não acho que viajar seja assim tão incrível. Não me considero uma pessoa ambiciosa para conhecer o mundo. Acho que perto [de casa] há sempre muito que conhecer.”

Flávio tem 62 anos e é do Porto.  Nunca teve uma má experiência a viajar e até já conheceu vários destinos europeus, como França, Londres, Malta e Palma de Maiorca — mas tal como Rosa, viajar não é uma das suas paixões. Mas, curiosamente, Flávio conta-nos que adora aviões. Já chegou a parar ao lado do aeroporto do Porto apenas para os ver a levantar e a aterrar. Mas ao contrário do que pode pensar, a este prazer junta-se uma fobia. Dias antes de embarcar dorme mal e na hora de embarcar fica com ansioso.

Acredita que tudo depende da forma como as pessoas crescem: “O facto de os jovens agora saírem mais faz com que fiquem com a mente mais aberta e sintam necessidade de viajar mais. Nunca fui habituado a andar de avião. Então fui-me acomodando à ideia de que não gostava.” Flávio prefere sempre ficar, ao contrário da sua mulher que sempre que tem oportunidade, vai. Flávio revela que quando era solteiro ia até ao sul de Portugal, mas ficava sempre a pensar na sua terra.

E depois, há os que fazem das viagens vida

Aqueles que não gostam de viajar ficam-se por uma minoria basta olhar para o grupo de amigos ou familiares mais próximos para perceber que, seja qual for a altura do ano, a cabeça está sempre no período de férias seguinte e no destino final. E depois há os que levam esta paixão por viajar mais longe e fazem disso vida

3 fotos

“Um Foto, Uma história” é um exemplo disto. Falamos com o fundador, Gabriel Soeiro Mendes que já foi premiado pela Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) pelo “melhor blogue de fotografia de viagem” em 2014, 2015, 2016 e 2018. Em 2017, não baixou a fasquia e venceu o prémio da primeira edição dos Momondo bloggers open world awards.

É fotojornalista e afirma que as viagens são os eventos mais importantes do seu calendário anual: “Trabalho para as fazer, sacrifico muito do meu tempo para as poder financiar. Passaram também a fazer parte do meu percurso profissional, já que muitas vezes publico reportagens sobre as minhas deambulações”, conta.

Quando lhe perguntamos se já refletiu acerca das desvantagens de viajar, o fotojornalista admite que só as encontra na vertente ambiental. Procura ao máximo viajar de comboio, em vez de avião, de maneira a diminuir a sua pegada ecológica.

Begpackers. Mas afinal que moda é esta de pedir dinheiro para viajar?

Gabriel Madeira na página de instagram "Road to Nowhere"partilha algumas fotos das suas aventuras

Instagram

Também Gabriel Madeira, de 21 anos, não imagina a sua vida sem viajar e deixa um conselho a quem está a começar: “Nâo façam muitos planos, o melhor de viajar é o inesperado”.

Gabriel pede boleia de local para local, dorme em hostels, utiliza a plataforma de couchsurfing e desde logo admite que é viciado em viajar.  “Para mim é desafiar-me a mim próprio, aprender e crescer.”

Terminou a licenciatura em Comunicação Organizacional em Coimbra e no Instagram “Road to Nowhere”partilha algumas fotos das suas aventuras.

Considera que nos dias de hoje viajar está mais generalizado precisamente pela partilha de fotografias nas redes sociais e até parece que há uma pressão sobre a sociedade em fazê-lo, no entanto realça que cabe a cada um decidir o que realmente gosta de fazer e “se não é viajar, que não o façam”, aconselha.

Para Gabriel, aquilo que o faz ir de viagem é a adrenalina. “Pode não parecer, mas viajar, pelo menos da forma que o faço, é estar em constante desconforto sem saber o que vai acontecer.”Ainda assim,  estas situações de desconforto e stress na altura não são fáceis nem divertidas, porém as melhores histórias vêm daí.”

O jovem trocou os pequenos ecrãs pelas viagens a tempo inteiro

João Cajuda partilha desta paixão, que acabou já por influenciar os milhares que o seguem no Instagram ou que já tiveram oportunidade de com ele viajar à volta do mundo. É fundador da agência de viagens “Leva-me” e atualmente é um dos blogguers de viagem mais influentes do mundo.

É um apaixonado assumido por conhecer novos lugares e admite: “Poderia dizer que viajar é uma necessidade mas estaria a mentir, viajar é de facto um luxo”. Para João, as viagens são um género de terapia que o faz sentir “mais vivo”.

João Cajuda considera que “viajar está cada vez mais na moda”, embora grande parte das pessoas não esteja disposta a lidar com o lado menos simpático da viagem. “Viajar pode ser stressante, principalmente para quem não está disponível a aventurar-se ou a perder o controlo das coisas. Há sempre imprevistos, malas perdidas, voos cancelados, comida menos boa, casas de banho sujas, horas intermináveis de viagem, etc… a verdade é que se fosse tudo igual mais valia pouparem o dinheiro e ficar em casa”, lembra.

Garante que e viciado em viajar, mas realça que é um vício saudável. “Quando não estou em viagem estou a pensar ou organizar a próxima. Já me habituei a estar constantemente de um lado para o outro e se fico dois meses parado começa-me logo a dar umas comichões.”

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