Entrevista

Vera Holtz. "Uma vida que não tem diferença? Que coisa sem graça"

Aos 12 já sabia que não queria ser mãe. A partir de 2011 assumiu, orgulhosamente, o cabelo branco. Em setembro de 2019 pisa um palco português pela primeira vez.

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"Intimidade Indecente" esteve em cena durante quase cinco anos no Brasil e chega agora a Portugal para uma digressão que vai correr várias cidades

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Crescemos com Vera Holtz na televisão, mas nunca a vimos como ela própria. Em “Desejos de Mulher” era Bárbara Toledo, em “Mulheres Apaixonadas” era Santana Gurgel, em “Avenida Brasil” era a mãe Lucinda. Estes são só três exemplos — ao todo, a atriz soma 39 papéis em televisão, 28 em cinema e 30 em teatro.

Foi numa sala do Tivoli BBVA, em Lisboa, que pudemos ver a atriz sem máscara pela primeira vez. Vera Holtz assume os seus cabelos brancos e adora. Desde os 12 que sabe que não queria ter filhos, apesar do enxoval que a mãe já lhe tinha preparado. Com pouco mais de 20 anos deixa São Paulo para ir viver para o Rio de Janeiro, mudança que, recorda à MAGG, foi “sensacional”. Os valores nesta cidade à beira do mar eram outros e mais liberais, ainda que a mulher já tivesse, por esta altura, “queimado o soutien.” Vê com estranheza os costumes que nos retiram liberdade e que nos fazem depender do outro. Vê na diversidade a poesia da vida.

Vera Holtz está em Lisboa a propósito da estreia de “Intimidade Indecente, a peça da dramaturga Leilah Assumpção, encenada por Guilherme Leme Garcia, que lhe deu a oportunidade de trabalhar em Portugal pela primeira vez. Interpreta a personagem Roberta, a mulher que há 50 anos se separou de Mariano [Marcos Caruso], com quem na história se vai reencontrado várias vezes no correr destas décadas. O género é o de uma comédia romântica, mas a atriz adianta-nos que não se trata só de dar gargalhadas: a história puxa a reflexão sobre aquilo que são os relacionamentos, a família ou o envelhecimento.

“Intimidade Indecente” vai estar em digressão em Portugal até meados de dezembro. Estreia-se esta quinta-feira, 26 de setembro, em Lisboa, seguindo depois para a Póvoa do Varzim, Aveiro, Vila Nova de Famalicão, Leiria, Figueira da Foz, Porto, Coimbra, Estarreja, Vila Real e Albufeira.

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É a primeira vez num palco português.
Sim. O teatro [o Tivoli] é lindo. Foi uma surpresa quando eu vi. O palco é maravilhoso. O nosso cenário também está ficando lindo. Já passei muito por Lisboa, mas trabalhar é a primeira vez, portanto não tenho a menor ideia de como vai ser. O Marcos [Caruso] fala que o público é diferente, que é um pessoal que está muito habituado com a palavra, que é um público que escuta muito, muito recetivo, caloroso com os aplausos no final. Ele relata, mas eu ainda não tive essa vivência, mas estou achando tudo muito especial.

A peça é uma comédia romântica. Além de servir para rir, serve para refletir?
É, pode ser uma comédia romântica, mas também depende do ponto de vista. No palco a reflexão fica por conta de vocês que ficam a assistir. A peça é sobre as relações afetivas, sobre envelhecer, sobre processos de separação. É uma peça que pode agradar pessoas com perceções distintas. Tanto o jovem como a pessoa com mais história se podem identificar, com pontos de vista diferentes.

As mulheres escolhem os parceiros, mas os seus parceiros não admitem a rutura. É muito estranho isso de você querer continuar a manter um domínio sobre alguém, como se fosse um produto”

Qual é que será a reflexão mais valiosa?
Acho que é importante para refletir sobre os relacionamentos, mas também muito sobre a família e a questão do pertença. Acho muito interessante essa reflexão sobre cuidar da sua família, porque há épocas em que as famílias ficam muito polarizadas por diversas questões — não é o facto de estar próximo ou estar distante (você não precisa de estar perto para se sentir acolhida, não precisa conversar todo o dia para ser amado), mas tem uma linha que une as pessoas. Eu acho que há esta perceção. E também é uma reflexão sobre envelhecer.

Ainda há um modelo tradicional de família?
Eu acho que é um processo de evolução. As famílias são funcionais. Hoje em todo o tipo de família e existe um convívio tranquilo com toda a diversidade. Mas a relação é a mesma: a função da família, de alguma forma, é de educar, de acolher e de conduzir. Já não precisa de haver aquelas famílias de escolha, em que os pais escolhiam os parceiros da mulher. Mas mesmo aí elas já cumpriam as funções que precisavam de cumprir. Eu acho que mudou bastante, mas que continua sempre existindo a responsabilidade de encaminhamento dos filhos e o afeto profundo dos núcleos familiares, seja ele qual for.

Nesse ponto a mulher hoje já vive de uma maneira bem mais tranquila.
É, bem mais tranquila. Você já escolhe os seus parceiros. Mas agora enfrentamos outro problema mais sério, que é o feminicídio. As mulheres escolhem os parceiros, mas os seus parceiros não admitem a rutura. É muito estranho isso de você querer continuar a manter um domínio sobre alguém, como se fosse um produto. “Você não me quer mais, então você não vai querer mais ninguém.” É uma crença muito arcaica e estranhíssima — e se repetindo muito, muito, no Brasil.

Ainda há dificuldade em diluir estes posicionamentos homem versus mulher?
Total. Só que não tem diferença. Nada, nada, nada. A educação, o olhar sobre o homem e a mulher tem de ser exatamente o mesmo. Alguns países avançam bastante, outros não — e outros então nem pensam nesse caso.

Que diferenças é que nota com o passar das décadas?
A minha geração é uma geração que já queimou o soutien. Eu peguei o movimento hippie, essa contracultura, totalmente liberal. Eu percebi que alguns pais de algumas amigas minhas falavam: ‘Mas essa moça não usa soutien?. Ela não raspa os pelos?”. Existia umaestranheza de algumas famílias mais conservadoras, mas a gente nem pensava nisso aí. O caminho estava aberto, os modelos não interessavam para a gente — esse modelo padrão de casar e ter filhos —, e criar expectativa num homem para ele resolver minha vida não era uma possibilidade.

Apesar de mamãe fazer o enxoval — e eu sempre fugindo dessa ideia, do lado materno, de reproduzir modelo — papai sempre falou: “Quero todo o mundo livre, independente. Vão se sustentar e depois vocês casam.” Foi muito interessante esse comportamento, bem avançado nesse sentido. Nunca criei expectativas de que um homem me ia sustentar e estranho até hoje quem pensa assim. Nunca me passou pela cabeça eu ter de depender de outra pessoa para decidir minha vida.

Então era hippie. Tem alguma história mais engraçada que possa partilhar dessa altura.
É, fui hippie [risos]. Era uma hippie, mas do interior. Quando fui de São Paulo morar no Rio de Janeiro foi estranho, porque os valores lá eram totalmente diferentes. O Rio era mais liberal, é beira de praia, as mulheres tinham uma relação mais livre com o próprio corpo. Mesmo no sentido da sexualidade eram muito mais liberais. Esse choque para mim foi muito bacana.

Sentiu-se como um passarinho fora da gaiola.
Totalmente. Aliás, eu estava em casa e era aquela a vida que eu queria ter. Fui muito bem acolhida no Rio de Janeiro. Cheguei com 23 anos de idade. Estava havendo muita mudança. Nossa, sensacional.

Mas nessa época muitas mulheres já eram liberais. Minhas tias morreram com 96 anos de idade. Nenhuma delas era careta no sentido de não aceitar minorias, aceitar as diferenças. As famílias eram imensas e num núcleo havia de tudo. Mamãe, no lado Fraletti, teve 14 irmãos. Eu tenho 53 primos e ainda irmãos. Fui criada no meio deles todos. Agora, você imagine a diversidade de comportamento com que a gente conviveu desde cedo. Tem de tudo.

Aos 12 anos já sabia que não queria ser mãe.
Eu falo que eu sou leoninina e o leoninino é um signo que se define muito cedo. Desde muito nova já achava que não queria ter filhos. Sentadinha na soleira da porta, pequenininha, no casarão do meu avô, falei para mamãe: “Mamãe, a senhora não espere netos.” A Mercês, que estava ao lado e que trabalhava lá em casa, falou: “Isso é uma blasfémia, vira essa boca para lá”. E eu disse: “De mim, não.”

É possível ter esta certeza, tão nova?
Eu acho que você estabelece, você inventa um sistema de crença e ele acompanha você o resto da vida. Eu determinei naquele momento um destino e realmente nunca quis ter filho. Já me perguntaram: “Você não se arrepende?”. E eu falo: “Não, de forma alguma.” Encontrei muitas mulheres que não têm esse instinto, que é o que as pessoas falam. Não acredito nisso de mulher ter toda o instinto. Brinca-se muito com essa questão da mulher que não dá frutos. Até à idade de poder ter filhos, sempre perguntavam: “Você não quer ter filhos? Então quem vai cuidar de você?”.

Até os namorados e maridos?
Não. Eles já sabiam com quem estavam lidando, por isso nunca quiseram. Eu tive muitas relações ligadas ao teatro, com atores, diretores. Já é outra cabeça. Não tinham essa coisa formal. Eu acho que o homem paternal, que tem essa vocação, que deseja filhos, pode motivar, induzir a mulher. Eles se encontram num sítio e concordam, o que eu acho bonito. Mas não é o meu caso.

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Cresceu com a ideia de que tinha de ter filhos?
Claro. Eu não tinha enxoval com sete anos de idade? Sempre convivi com isso. É lógico o modelo imposto: a mulher é para procriação, para ficar em casa, para cuidar do território. No fundo, isso é uma coisa económica: quanto mais filhos tiver, mais filhos vão cuidar do património, mais prolongam a família e mais dividem entre eles.

Isto faz sentido? Pode ver-se como certo e errado?
Eu acho que hoje em dia você pode escolher o que você quiser. Se você quer criar uma família, gosta da ideia de estar cercado de pessoas, quer dividir o seu afeto dessa forma, é um direito que você tem. Eu não acredito em certo e em errado, hoje. Eu acredito em padrões, em modelos, em escolhas. Essa diferença de escolha é que dá a beleza da vida. Uma vida que não tem diferença? Que coisa sem graça. A poesia da vida está na diferença. Não julgo absolutamente nada.

Nem sempre a diferença é aceite. Podemos considerar que há uma espécie de manual invisível de regras?
Muitas. Crenças invisíveis. Elas são perturbadoras. Elas nos impedem. E, muitas vezes, nós mesmos é que as criamos.

A gente se vai castrando. Mas eu posso ser o que eu quiser. Eu escolho o que eu quiser ser”

Quais é que são as mais perturbadoras?
Você não poder fazer, você se impedir. “Ai, eu não nasci para isso. Ai, isso não é para mim.” São crenças que nos impedem, que nos moldam o comportamento. A gente se vai castrando. Mas eu posso ser o que eu quiser. Eu escolho o que eu quiser ser.

Há quanto tempo assumiu o cabelo branco?
Há uns sete anos. Eu fiz um filme chamado “Família Vende Tudo”, do Alain Fresnot, e ele queria uma mulher com um cabelo estragado. Ele queria uma raiz branca. E eu falei que não dava tempo. Aí, a gente fez uma decapagem, que é um processo químico em que você tira a tinta. Fica lindo o cabelo. Achei um máximo, aquele cabelo branco. Aí, tivemos que sujar um pouco, para ficar com mau aspeto.

Daí usei cabelo branco numa novela chamada “Três Irmãs” e o diretor também adorou. Aí, nunca mais pintei. Fui convencendo, negociando com os diretores para manter o cabelo assim. Os homens adoravam o cabelo e até falavam para as esposas: “Porque é que você não deixa assim o cabelo branco”. Mas as mulheres detestavam e respondiam: “Você não gosta.” Eles respondiam: “Eu nunca falei isso para você, eu acho muito charmoso.”

Eu nunca gostei de pintar cabelo. Eu pintava porque eu necessitava profissionalmente. É chato. Ir no cabeleireiro de 15 em 15 dias, ficar horas ali parado. É difícil para as mulheres deixarem o cabelo branco. Mas agora está muita gente deixando.

A Sónia Braga fez capa da “Vogue” com o cabelo branco e fala sobre isso.
Exatamente. A Fernanda Montenegro também. É uma maravilha. Cada um que deixe do jeito que quiser. Isso vem muito com essa onda agora do naturalismo. Hoje todo o mundo volta com os pelos, com os cabelos. Isso coincide um pouco com esse momento das pessoas se voltarem a aceitar, não é?

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