Dominic Yocco, 19 anos, entregou-se à polícia a 11 de setembro, depois de a polícia do condado de St.Louis, no estado do Missouri, nos Estados Unidos, ter lançado um alerta das redes sociais: “Embora nenhuma outra vítima se tenha chegado à frente, alguém que ache que possa ter sido atacada por Yocco deve contactar os detetives.”

Tudo indica que é este jovem o autor de uma série de crimes sexuais. Terão sido cometidos entre novembro de 2016 e julho de 2018 e vitimizaram raparigas menores de idade. De acordo com a polícia, Yocco terá atraído para sua casa seis raparigas (uma delas com 13 anos), através da rede social Snapchat, para depois as agredir fisicamente e violar.

Uma das alegadas vítimas, de 15 anos, disse às autoridades que o agressor a agarrou e violou, mantendo uma arma de fogo junto de si. Outras cinco raparigas — três das quais Yocco deixou inconscientes para depois cometer atos sexuais — relataram à polícia histórias semelhantes.

De acordo com a polícia Tracy Panus, Yocco publicava imagens de supostas festas que estaria a dar, com o objetivo de atrair raparigas. “Ele publicava coisas na sua história [do Snaptchat], o que lhe permitia alcançar estas miúdas. Ele ia buscá-las, levava-as para sua casa, onde as violava, levando-as de volta a casa”, disse Panus, citada pela revista “The Cut“.

A lei contra a violência doméstica é “completa”. Então, porque é que está a falhar tanto?

Quem são estes agressores?

“São casos que também acontecem por cá”, diz à MAGG Bárbara Ramos Dias, psicóloga de jovens e adolescentes. “Não têm este padrão repetitivo, mas ouvi o relato de uma miúda que ia para uma festa, que não era festa nenhuma. Só estava lá uma pessoa. Ela perdeu a virgindade nessa noite.”

Sobre os traços mais transversais aos agressores, a psicóloga indica alguns que são predominantes — quer em pessoas mais jovens, como no caso de Dominic Yocco, quer no caso de indivíduos mais velhos. “Tendem a ser rapazes com muita insegurança. São miúdos que espelham as suas próprias vivências, ou seja, provavelmente já passaram por alguma situação semelhante, por isso, fazem igual outros.”

Regra geral, são pessoas com perturbação antissocial de personalidade. Os crimes que cometem estarão “muito relacionados com o impulso, com a vulnerabilidade”, diz a especialista, acrescentando que também é comum haver uma relação pouco saudável com o álcool ou com outro tipo de droga. A prática de delitos menores, como furtos, também não é menos frequente.

Quando atendemos ao ajustamento escolar, verificamos que possuem uma frequência escolar claramente desfasada do que deveria ocorrer em função da faixa etária, níveis de absentismo elevado”

O perfil comum remete-nos para jovens “de classe média baixa, que evitam a escola, não tendem a ter famílias estruturadas, repetindo os padrões que veem.”

A descrição de Bárbara Ramos Dias corrobora aquilo que é descrito por Ricardo Barroso, professor assistente do Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, autor da tese de doutoramento, de 2012, “Características e Especificidades de Jovens Agressores Sexuais“, aprovada pela Universidade de Aveiro.

Para o desenvolvimento do trabalho, o professor terá estudado uma amostra constituída por 141 rapazes, com idades entre os 12 e os 18 anos, condenados por agressões sexuais, desde “violação, abuso sexual de criança, coação ou importunação sexual”, descreveu o “Público“, em 2012.

A pertubação antissocial de personalidade

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Os critérios para o diagnóstico da Perturbação Antissocial de Personalidade preveem um indivíduo que vá ao encontro das seguintes características (entre outras), segundo o DSM4.

  • “Padrão persistente de desrespeito e violação dos direitos dos outros, ocorrendo desde os 15 anos”
  • A “incapacidade para se conformar a normas sociais no que diz respeito a comportamentos legais como é demonstrado pelos ator repetidos que são motivo de detenção”;
  • “Falsidades, como é demonstrado por mentiras e álibis, ou contrariar os outros para obter lucro ou prazer”;
  • “Impulsividade ou incapacidade para antecipar”;
  • “Irritabilidade e agressividade, como é demonstrado pelos repetidos conflitos e lutas físicos”; “ausência de remorso, como é demonstrado pela racionalização e indiferença com que reagem após terem magoado, maltratado ou roubado alguém.”

Apesar de não ser menor, os crimes que Yocco terá alegadamente cometido decorreram antes de ser maior de idade. Segundo Bárbara Ramos Dias, ainda que, legalmente, um indivíduo atinja o estado adulto a partir dos 18, a diferença entre aquilo que faz nesta altura, face ao que faz aos 19, não é significativa. “O que importa é a maturidade. Uma pessoa que faz isso aos 19, provavelmente também o fez aos 18 ou aos 17.

“A um nível demográfico e familiar foi possível verificar, numa primeira fase, que a maioria dos sujeitos reside num contexto suburbano inserido na área metropolitana de Lisboa e pertence a agregados familiares de classe média e média-baixa”, diz, no trabalho, Ricardo Barroso.

“A ligação destes jovens ao seu contexto familiar é marcada, num número significativo de casos, por várias descontinuidades e afastamentos desde os primeiros anos de vida, sendo educados pelos progenitores com estilos parentais que oscilam entre a permissividade, o autoritarismo e a negligência.”

“Ninguém escolhe ser agredido”. Como deve agir em caso de violência doméstica

Sobre os agregados familiares, Ricardo Barroso avança ainda que estes “apresentam muitas dificuldades em supervisionar e controlar os comportamentos dos filhos ou em lhes impor regras e limites comportamentais.”

Como consequência, a violência física é uma ferramenta frequente para “controlar o comportamento do jovem”. E, tal como disse a psicóloga, “a presença de violência doméstica no contexto familiar é usual em muitos casos.”

Temos de lhes explicar que aquilo que veem nas redes sociais não é sempre o que parece — podem ser predadores sexuais e, por isso, eles devem estar atentos”

Individualmente, o autor do trabalho verificou numa grande parte da amostra, “uma postura tendencialmente agressiva”, com “dificuldades na resolução de problemas e na regulação do seu próprio comportamento”, sendo a relação com a justiça tendencialmente problemática.

O desempenho na escola é mau, sendo que as capacidades cognitivas variam entre média e média-baixa. “Quando atendemos ao ajustamento escolar, verificamos que possuem uma frequência escolar claramente desfasada do que deveria ocorrer em função da faixa etária, níveis de absentismo elevado”. A isto, somam-se comportamentos em contexto geral frequentemente “desadequados, tanto com professores e funcionários, como com colegas.”

As redes sociais são uma ferramenta útil para os agressores?

“Evidentemente que sim”, diz a psicóloga. “Antigamente os violadores eram próximos das vítimas, hoje conseguem estar próximos através das redes sociais.”

Na opinião da especialista, é fundamental que os pais, professores, pediatras e terapeutas tornem as crianças conscientes desta realidade.

“Temos de alertar para isto. Temos de lhes explicar que aquilo que veem nas redes sociais não é sempre o que parece — podem ser predadores sexuais e, por isso, eles devem estar atentos.”

Bárbara Ramos Dias alerta ainda para o facto de muitas crianças estarem dentro deste mundo digital sem maturidade para tal. “Ainda não sabem ver se os perfis são verdadeiros ou falsos. Os pais têm vergonha de falar sobre estas questões, mas é importante abordarmos esta temática cedo. Temos de lhes mostrar que isto existe.”