No mundo do desperdício zero, não há quem não a conheça. Afinal, ela já evitava o desperdício quando o desperdício ainda não era uma questão. Bea Johnson é francesa, vive nos Estados Unidos, mas corre o mundo a passar a mensagem de que se pode viver com menos.

Criou um modelo baseado em cinco “erres”: refuse (recusar), reduce (reduzir), reuse (reutilizar), recicle (reciclar) e rot (decompor, relativo à compostagem) e garante que o “não” é a palavra mais importante para quem quer desperdiçar menos. “Estamos habituados a aceitar tudo o que nos dão, principalmente se for de graça”, admite. Mas Bea há muito que aprendeu a dizer que não à caneta grátis, ao saco plástico e à comida que venha embalada ou servida sem ser em loiça verdadeira. Só assim é capaz de colocar num frasco o lixo produzido pela família durante um ano.

Acredita que a mudança tem que ser progressiva para que se transforme numa forma de vida e garante que, agora que vive com menos, não sente falta de nada no seu estilo de vida anterior.

A guru do zero waste e autora do livro “Desperdício Zero” vem a Portugal falar de desperdício à Eco Cascais, um evento de sustentabilidade criado para ajudar quem quer começar a levar uma vida mais minimalista. Antes, falou com a MAGG e conta o que traz na mala: pouca roupa (o seu armário só tem 15 peças), um sabonete multifunções e alguns snacks, não vá o voo servir a refeição em pratos descartáveis.

Alguém que queira começar uma vida com menos desperdício, deve começar por onde?
Eu aconselho a seguir a metodologia dos cinco “erres”. Mas o foco deve estar na primeira premissa, ou seja, recusar. Estamos habituados a dizer que sim a tudo, a aceitar tudo o que nos dão, principalmente se for de graça. Canetas grátis numa conferência, o saco de plástico grátis no supermercado, amostras de champô dos hotéis, a comida que nos servem no avião. Somos uma espécie de robô que aprendeu a dizer que sim a isto tudo. É por isso que é mais fácil evitar o desperdício na rua do que em casa.

O “não” é uma palavra poderosa para quem quer evitar o desperdício.
Sem dúvida. Mas há que saber dizer que não. Eu costumo dizer: ‘Não obrigada, não preciso” ou “Não obrigada, sou minimalista”. Não façam como os meus filhos que simplesmente se viram e dizem “Não”. (risos)

É fácil levar este estilo de vida com duas crianças?
Eu ainda hoje me surpreendo com os meus filhos. As crianças são o principal público do consumo, estão sempre a ser estimuladas a querer, a ter. Mas eles cedo aprenderam a recusar aquilo que não precisam.

Estas mulheres juntaram-se para ensinar o mundo a desperdiçar menos

Como foi feita essa transformação?
As coisas não aconteceram da noite para o dia. Não acordámos e dissemos: “A partir de hoje vamos ser zero waste”, aliás nem havia esse conceito na altura. Não havia ninguém a fazer isso e, por isso, não havia propriamente um modelo a seguir.

Mas qual foi o gatilho para mudar de vida?
Em 2006, mudámos de casa para uma mais pequena e, por isso, tivemos que fazer uma triagem do que levaríamos. Acabámos por nos livrar de 80% das nossas coisas e percebemos que éramos mais felizes assim. Ganhei muito mais tempo para estar com a família, para ver televisão, para aproveitar a casa.

Ainda bem que menciona isso, porque há quem diga que não tem tempo para evitar o desperdício.
Isso é uma ideia tão errada, mas eu não julgo. Afinal, a forma como vivemos é-nos imposta pela família, pela cultura, pelo sítio onde nascemos. É como uma religião ou uma dieta. Fazemos sem questionar. Mas acreditem: quanto menos coisas tens em casa, menos tens que arrumar, que limpar, que reparar e mais tempo ganhas para o que é importante.

Existem preconceitos relativos ao estilo de vida sem desperdício?
Sim. O da falta de tempo é um deles, mas também a ideia de que é mais caro e que só os hippies o fazem. Bom, definitivamente viver sem desperdício não é coisa de hippies. Eu não sou hippie e consigo. (risos)

Quanto ao dinheiro, gasto menos 40% do que gastava antes e no que diz respeito ao tempo, descobri que fiquei com muito mais disponibilidade para fazer o que me faz feliz. A vida passa a ter como base experiências em vez de coisas e passas a dar mais atenção ao ser do que ao ter.

Como foi passar a levar uma vida sem desperdício sendo a primeira pessoa a fazê-lo?
Não havia um livro, um blogue, nada. Comecei a fazê-lo com o meu marido, a pensar no futuro dos nossos filhos e foi uma coisa gradual. Começamos a poupar na eletricidade, na água e depois passámos também a reduzir a quantidade de lixo que produzimos. Mas no início, fomos bastante extremistas.

Em que sentido?
Fui um pouco longe demais em algumas coisas. Por exemplo, tentei o “no poo”, uma técnica com a qual se lava o cabelo sem champô. Usamos uma mistura feita com bicarbonato de sódio, vinagre a água e depois de seis meses a fazer isso, acabei com as raízes muito oleosas e um cheiro horrível. Um dia, sentei-me ao lado meu marido no sofá e ele diz-me: “Estou cansado que cheires sempre a vinagrete” (risos).

O que é que usa para lavar o cabelo agora?
Na altura passei do “no poo” para champô que pudesse fazer refill na loja, evitando assim a compra de mais um frasco. Agora, lá em casa temos um sabonete que dá para tudo: mãos, corpo, cabelo e o meu marido usa para barbear. Assim evitamos logo quatro embalagens: champô, sabonete de mãos, gel de banho e creme de barbear. Este é só um exemplo de que o zero waste simplifica a tua vida. Ser zero waste é simplificar, não complicar. Se tudo for feito com esforço, não vai durar e nunca se vai transformar um estilo de vida.

Qual foi a coisa mais difícil da sua transformação?
Foi encontrar um equilíbrio. Uma das coisas erradas associadas a este estilo de vida é que é tão feito em casa e eu própria caí nesse erro. De repente, eu fazia em casa o meu pão, o meu queijo, a minha manteiga, o meu sabonete.

O clique só me deu quando fui passar férias a casa da minha mãe, que tem um estilo de vida normal, e percebi a forma simples como ela vivia. Foi aí que tive noção de que me estava a esforçar demasiado. Quando cheguei a casa, livrei-me dos comportamentos extremos. Em vez de fazer o meu pão, passei a levar o meu saco de casa para trazê-lo da padaria e em vez de fazer o meu queijo, levo meu tupperware para encher no supermercado.

Este é também um estilo de vida mais saudável?
Sim. Além de não comprarmos processados, porque quase tudo vem embalado, até a limpeza da casa é sem químicos. Eliminámos todos os detergentes e limpamos a casa com uma mistura de vinagre branco e água. Admito que no início tinha medo de, com isto, estar a pôr a saúde da minha família em risco, por não estar a usar os produtos mais fortes e aparentemente mais eficazes. Mas não, foi o contrário. É raro alguém ficar doente lá em casa. Além de que é muito mais barato. Isto são tudo coisas que os nossos avós faziam, mas que nós perdemos por estarmos numa sociedade de consumo.

Quais são as principais diferenças do seu dia a dia, quando comparado com pessoas que não seguem uma vida sem desperdício?
Nenhuma! As pessoas acham que eu vivo sempre preocupada com a quantidade de lixo que faço, mas não. Eu acordo, vou tomar banho e aí em vez de usar champô, amaciador e gel de banho, uso apenas um sabonete para tudo. Depois vou tomar o pequeno-almoço, normalmente cereais que compro a granel, leite que compro em garrafas reutilizáveis e fruta que compro com sacos que levo de casa. Depois sento-me no computador a trabalhar e, se sair de casa para comer, escolho um restaurante que sirva a comida em loiça verdadeira, sem ser de plástico. É por isso que não como fast food. Ah, esqueci-me da roupa. Só uso peças em segunda mão, e o meu armário tem 15 peças. Eu sei que as pessoas acham que, por isso, não tenho muitas opções, mas selecionei peças multifuncionais. Já fiz a experiência e com essas 15 peças consigo 50 conjuntos diferentes.

Como que conseguiram pôr o lixo de um ano num frasco?
Tudo o que fizemos foi seguir a regra dos cinco “erres”. Recusámos muita coisa e reduzimos os nossos pertences ao essencial. Quanto ao reutilizar, aconteceu com a troca de tudo o que fosse descartável pelo reutilizável. Uso guardanapos de pano em vez de papel, toalhas em vez de individuais de papel, copo menstrual em vez de tampões. Há sempre uma alternativa reutilizável para tudo o que é descartável. Só depois é que chega a reciclagem. Só reciclamos o que não conseguimos recusar ou reduzir. A ideia não é reciclar mais, é reduzir o lixo que temos em casa.

Nolla. O restaurante que só produz 10 quilos de lixo por mês e onde (quase) tudo é reaproveitado

O que é que estava nesse frasco?
Tudo aquilo que não consigo recusar, reduzir, reutilizar, reciclar e compostar. As etiquetas da roupa que me picam e que eu tenho que cortar, por exemplo. Mas também bocados de silicone do lava-loiça, as cabeças das escovas de dentes ou aquele papel onde vêm colados os selos e que são usados nos envelopes, porque não são recicláveis.

Há alguma coisa que tenha saudades do tempo em que não vivia sem desperdício?
Essa é uma pergunta que me faz rir. A ideia é que este lifestyle é de privação e não é, pelo contrário. Há coisas que não compramos, é certo. Mas sentimos falta delas? Não, deixaram de fazer sentido para nós. Dou um exemplo. Nós sempre comemos bolachas Oreo, os miúdos adoram. Agora, como não compramos comida embalada, deixei de comprar e passámos a comer bolachas que compro a granel e que eles até gostam mais. Mas se os meus filhos vão a casa de alguém que lhes oferece Oreo, eles aceitam. Se nos oferecem  comida, não esperamos que as pessoas sejam zero waste, simplesmente aceitamos o seu estilo de vida. Além disso, é muito provável que indo a uma gelataria haja o sabor de Oreo, assim podem matar saudades.

A Bea viaja imenso e está prestes a fazer mais uma dessas viagens, desta vez para Lisboa. O que traz na mala?
A vantagem é que todo o meu guarda roupa cabe numa mala de mão. No meu necessaire levo o meu sabonete multiusos e por isso não uso as amostras dos hotéis e levo bicarbonato de soda num frasquinho para lavar os dentes. No voo é provável que recuse a comida, depende em que classe viajo. Em executiva a loiça é de cerâmica e nesse caso eu como, mas na económica eu sei que é tudo descartável e aí já digo que não.