Gratificação, gorjeta ou “aquela ajudazinha”. Não há país que diga que não a um dinheiro extra, mas é o montante e a forma de oferecer que dá azo a confusões e não é por acaso que todos os guias de viagem têm um capítulo dedicado ao tema das gorjetas.

Enquanto nalguns países asiáticos a gorjeta pode ser considerada uma ofensa, em cidades como Londres, no Reino Unido, esse valor é expectável e a recusa no ato de pagamento é geralmente consequência de um mau serviço ou simples avareza.

Mas até mesmo em Londres, onde a gorjeta tem o nome de “service charge” (a cobrança por um serviço, em português), o conceito pode ser difícil de perceber. Quem o diz é Jéssica Rocha, 26 anos, que vive há cinco em Londres e onde já trabalhou como empregada de mesa em vários bares e restaurantes — alguns deles bastante conceituados na cidade.

É que a existência de um sistema de gorjeta depende sempre do tipo de estabelecimento. “Nos pubs não existe essa cobrança extra porque não há serviço de mesa. Mas em bares normais, ou em estabelecimentos mais caros, esse extra é sempre cobrado porque a gerência entende que a preparação da bebida já é um serviço”, explica.

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É nesses casos que a taxa pode variar entre os 8% e os 12,5%, sempre devidamente identificada na conta final. Uma refeição de £50 (cerca de 54€) pede uma gratificação de £6,25 (quase 7€) mas, depois disso, há ainda a possibilidade de deixar mais gorjeta para o funcionário ou para a equipa, embora Jéssica reconheça que “já há sítios que não o permitem”.

Apesar disso, o pagamento de uma taxa extra é voluntária e qualquer cliente pode pedir ao manager da equipa para que esta seja retirada da conta. Esse pedido, no entanto, deve ser justificado.

“Quando isso acontece procuramos sempre uma explicação para perceber o que correu mal no serviço. Ninguém pode obrigar ninguém a justificar a recusa no pagamento da gorjeta mas, caso não seja dada nenhuma justificação, o cliente passa a ser mal visto pela gerência.”

E Jéssica já viu de tudo desde que trabalha em Londres. Desde um cliente que recusou pagar a conta e a gorjeta por ter encontrado um pelo púbico na sobremesa (as câmaras de vigilância mostraram que tinha sido colocado pelo próprio), ao momento em que perdeu mais de £300 extras (cerca de 320€) quando um cliente se recusou a pagar a taxa de gratificação incluída na conta.

Aconteceu no Natal, uma altura do ano em que várias empresas de grande dimensão alugam restaurantes só para jantar. “Numa dessas noites, a empresa já tinha gasto mais de 12 mil libras em comida e bebida. O valor final incluiu a taxa de gratificação de £1.560 e o CEO recusou-se a pagá-la. Disse que já tinha gasto muito dinheiro e que, caso pagasse essa taxa, não iria ser repartida por todos os membros da equipa durante o serviço”, recorda.

Mas era mentira, visto que o valor ia mesmo ser dividido por todos os funcionários que estiveram presentes durante o jantar. O manager do restaurante foi obrigado a retirar o extra da conta e os funcionários ficaram sem receber os “mais de £300 de gorjeta”.

Em Portugal, o dilema não é menos confuso — precisamente porque não existe nenhuma forma definida para calcular o valor da gratificação. Seja no café da esquina ou num jantar mais requintado, a gorjeta vai ser depender da boa vontade do cliente, dos seus rendimentos e dos trocos que tiver na carteira.

Ainda assim, há quem se sinta insultado ou desrespeitado por não receber gorjeta após um serviço em restaurante, em hotéis ou enquanto estafeta, explica Vasco Ribeiro, autor do primeiro e único blogue de etiqueta em Portugal, chamado “A Hora da Etiqueta”.

Além do blogue, Vasco Ribeiro é ainda autor do livro "Cortesia, Etiqueta & Protocolo na Hotelaria de Luxo". O especialista em etiqueta prepara-se para lançar o segundo livro

Fotografia cedida por Vasco Ribeiro

“Não duvido que as chefias e os empregados de mesa que pertençam à velha-guarda da hotelaria olhem de lado para quem não deixa uma gorjeta, precisamente porque sempre foi uma prática muito comum”. Mas reconhece que a atitude não é correta.

As origens, o “Reservoir Dogs” de Tarantino e a vontade do freguês

Segundo o jornal “Expresso”, que cita o livro “Tipping: An American Social History of Gratuities”, a origem da prática e do termo é dúbia mas consta que terá surgido ainda na Idade Média.

No século XVI, no entanto, passou a ser hábito “compensar o tempo e o esforço gasto pelo anfitrião” de uma mansão aristocrata durante uma visita e, segundo escreve a mesma publicação, terá sido depois disso que o conceito foi usado pelo povo americano já num contexto pós-Guerra Civil.

No mundo contemporâneo, começou a ser adotado quando se percebeu que a profissão de empregado de mesa era mal remunerada e “mal reconhecida na área do turismo, hotelaria e restauração”, explica Vasco.

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Por isso, a gratificação, independentemente do valor que era deixado, tinha como objetivo fazer jus ao nome: agradecer o serviço que era prestado à mesa. Os anos passaram e o dilema acentuou-se. Em parte porque, enquanto clientes esperamos sempre ser bem servidos —  independentemente da possibilidade de ser deixado ou não um valor extra.

A problemática foi abordada no filme “Reservoir Dogs” de Quentin Tarantino numa cena que tem tanto de banal como de relevante. E começa quando a personagem de Steve Buscemi se recusa a deixar gorjeta pelo café. “Não acreditas em dar gorjeta? Fazes ideia do que estas raparigas [as funcionárias do estabelecimento] ganham?”, pergunta uma das personagens.

A resposta é implacável: “Não venhas com essa conversa. Se não ganharem o suficiente podem sempre despedir-se. Não deixo gorjeta só porque a sociedade me diz que o devo fazer. Sou capaz de o fazer se realmente se esforçarem muito mas, no que me diz respeito, estão só a fazer o trabalho delas.”

A ideia, ainda que cruelmente exposta no filme, vai ao encontro da posição de Vasco, que defende que nem todas as situações implicam sempre a oferta de um valor extra à conta final. “Depende apenas e tão só da boa vontade do cliente, porque aquilo que pagamos pressupõe sempre que tenhamos de ser bem servidos.”

Mas admite que em situações especiais, como aquelas em que as expectativas são largamente superadas, se justifique esse extra. E não tem dúvidas de que não faz sentido falar-se em valores insultuosos quando o tema é a gorjeta ao final de cada serviço, já que cada cliente “dá o que pode e o que quer” consoante as suas possibilidades.

“Um cliente mais humilde pode dar uma gorjeta generosa e arredondar a conta em apenas 5 cêntimos ou pouco mais do que alguns euros”, e diz que por uma questão de etiqueta e boas maneiras, o empregado deve aceitar e agradecer. Até porque não é uma prática instituída ou com um valor estabelecido.

Ao contrário de outros países, em Portugal o valor é dado consoante “a vontade do freguês” e tem muito que ver com a “consideração individual de cada um”.

Gorjeta em dinheiro físico ou por multibanco?

Visto que em Portugal não existe um valor extra adicionado à conta, é o contexto que dita o desfecho. Embora dar gorjeta juntamente com a conta e pagar por multibanco possa ser mais fácil, prático e moderno, dar o mesmo valor mas em dinheiro físico pode ster vantagens para o funcionário — isto se não tiver de a dividir com a restante equipa do estabelecimento.

Além de ser o método mais tradicional, o facto de os trocos pesarem na carteira também pode ser um bom incentivo para os deixar como gratificação ao final do serviço. No entanto, Vasco diz que não há uma maneira certa e uma errada e que o simples facto de querer agradecer com um valor monetário já é importante.

Até mesmo quando aplicado aos novos serviços de entrega de comida, como a UberEats ou a Glovo, que já permitem aos utilizadores deixarem gorjeta aos estafetas.

“Os estafetas são pessoas que exercem a sua profissão com brio e dedicação. E não deixa nunca de ser meritório esta tipologia de serviços que se tornaram tão necessários e que nos facilitam a vida ocasionalmente ou diariamente”, conclui.