Fiz-me passar por Salazar no Tinder e pouca gente percebeu

Se o primeiro grande desgosto de Salazar foi ter caído de uma cadeira, o segundo foi quando não viu a paixão correspondida no engate online.

Disse ter preferências por homens e mulheres, limitei o raio de distância a 30 quilómetros e comecei a dominar a arte do swipe sempre para a direita

Luis Pavao

Não é possível perceber como é que António de Oliveira Salazar seria na era dos encontros online e do Tinder. Por ser um indivíduo austero, conservador e de ideias fixas, talvez não fosse fácil levá-lo a um encontro às cegas — principalmente se o tema de conversa fosse parar à Guerra do Ultramar. Mas talvez fosse mais fácil prever como é que reagiriam as pessoas do século XXI ao ver o ditador português no engate por esta internet fora.

A ideia não é nova e foi originalmente aplicada pela revista “Vice” quando um dos seus jornalistas fingiu ser Estaline no Tinder e conversou com pessoas que nunca desconfiaram de que estavam a falar com um perfil falso. A MAGG decidiu tentar a mesma experiência, mas assumindo a identidade de Salazar.

Por ser uma figura histórica de grande relevância na cultura portuguesa, era impensável que esta tentativa chegasse sequer a conseguir algum match. Os primeiros 20 minutos na plataforma de engate provaram precisamente o contrário, mas já lá vamos.

Antes disso, era importante criar um perfil que não só não fosse muito óbvio mas que, ainda assim, permitisse aos mais atentos identificar a pessoa com quem estavam a falar. Para isso, pedi ao designer da MAGG que desse alguma cor a uma das fotografias de Salazar quando este ainda era jovem e “charmoso”.

Para o nome escolhi somente António, assumi que tinha 32 anos e revelei que tinha estudado na Universidade de Coimbra, tal como Salazar entre 1910 e 1914.

Na descrição, apenas isto: “No dia em que abandonar o amor, quem voltar os meus bolsos do avesso só encontrará tristeza”, numa alusão clara a uma das frases que lhe é muitas vezes atribuída — onde “amor” deve ser substituído por “governo” e “tristeza” por “pó”.

O perfil de Tinder de Salazar

Disse ter preferências por homens e mulheres, limitei o raio de distância a 30 quilómetros e comecei a dominar a arte do swipe sempre para a direita. O objetivo era determinar quantas pessoas eram capazes de iniciar uma conversa sem se aperceberem que, do outro lado, estava um ditador.

Cerca de 20 minutos depois de criado o perfil, veio o primeiro match. Chamava-se Joana (nome fictício), tinha 30 anos e foi ela quem teve a iniciativa de começar a conversa.

“Olá, António. Gostei da tua descrição. É para alguém em especial?”, perguntou com um emoji a piscar o olho e como que a dar a entender que não tinha desconfiado de nada.

“Sim, a essa liberdade matreira e utópica que leva corações e ergue cravos”, respondi convicto de que seria o suficiente para levantar suspeitas. Até porque ninguém fala assim, verdade? Perdão, talvez Salazar falasse assim mostrando-se cada vez mais desadequado ao tempo em que vive. Um pouco como os nossos pais quando descobrem os emojis no WhatsApp.

Aparentemente, foi o suficiente para ganhar uma fã stalker. É que, por nunca ter usado o Tinder na vida, desconhecia que a plataforma ia atualizando a minha localização em tempo real e que isso era visível para as pessoas com quem estava a conversar.

Enquanto caminhava pela Alameda, em Lisboa, Joana estava a menos de um quilómetro e ofereceu-me boleia. “Já vi que andas a menos de um quilómetro de distância. Estamos mesmo em sintonia, não é?”, comentou.

Quando uma das pessoas quis controlar Salazar

Cinco segundos depois, voltou ao ataque: “Estás quase dentro do meu carro. Já andei uns cinco quilómetros e tu estás sempre a menos de um quilómetro. Queres boleia, António?”. Por momentos, senti-me observado, como se o Big Brother tivesse regressado. A minha ansiedade estava ao rubro.

Recusei mas lancei o isco, dando a entender que frequentamos os mesmos sítios. A resposta não podia ter sido mais apática: “Talvez não. Lisboa é grande…”, e nunca umas reticências soaram tanto a tampa. Mas uma notificação depois, a esperança voltou. “Mas podemos frequentar”, rematou com um novo emoji a piscar o olho.

Enquanto a conversa com Joana decorria com aparente normalidade, a que se pode esperar quando alguém acha mesmo que está a falar com um António real, Maria (nome fictício) enviava um olá tímido noutra janela de chat. “Tudo bem?”, perguntou.

Caros leitores, embora o Tinder seja todo ele um admirável mundo novo para mim, perguntar a alguém que não conhecem de lado nenhum como é que ela está, é técnica de engate do século passado — e, por isso, de evitar. “Tudo ótimo e com a Maria?”, respondi com a mesma originalidade da pergunta.

Quando Salazar levou uma tampa no Tinder

“Estás a tratar-me por você porquê?”, respondeu incomodada mas justifiquei-me com os “velhos hábitos de cavalheirismo” de um homem conservador. “O cavalheirismo é como a liberdade. Uma utopia deliciosa, não concordas?”, disse. Ainda hoje não tenho resposta. Maria seria o segundo desgosto de Salazar, depois de uma queda de cadeira da qual nunca recuperou e que o obrigou a afastar-se do governo.

Mas no outro chat, Soraia (nome fictício) contou quase toda a sua vida a Salazar. Que estava na plataforma depois de uma relação muito dolorosa que tinha deixado mazelas, que não procurava nada sério e que tinha perdido a fé no amor.

Pode parecer pouco e irrelevante mas, naquela hora e meia de conversa que trocámos, Soraia expôs-se e deu-se demasiado a uma pessoa que, embora não soubesse, já tinha morrido há quase 50 anos. A uma pessoa que não era real, pelo menos não no contexto em que ela imaginava, e que nunca tentou perceber quem era, de onde vinha ou quais eram as suas motivações.

Quantas pessoas acreditaram que António era real?

Estive no Tinder durante duas semanas e, nesse tempo, falei com mais de 30 pessoas diferentes. Algumas desapareceram depois de enviar o “olá, tudo bem?” habitual. Outras abandonaram a conversa assim que perceberam que não um tipo como o António não é fácil e ia precisar mais do que duas ou três conversas até um encontro.

Dessas 30 pessoas, só duas perceberam que aquela fotografia pertencia a Salazar e brincaram com a situação.

Aquela janela de chat serviu quase como consultório onde pôde desabafar sobre tudo ao ponto de, no final, me ser possível procurá-la no Facebook para descobrir quem era, onde trabalhava e onde vivia.

Fosse eu um informático mal intencionado, e estava feito o ataque de engenharia social [que pressupõe que o elemento mais vulnerável de qualquer sistema é o ser humano] com sucesso.

Houve mais conversas e todas elas chegaram ao mesmo ponto de partilha intensa entre pessoas que não se conheciam de lado nenhum.

“O que procuras, António?”, foi a pergunta que mais vezes li escrita nas várias janelas de chat que fui abrindo ao longo da minha curta estadia no Tinder. Procurei ser evasivo e vago na tentativa de ver até onde era possível esticar a conversa e descobri que, não raras as vezes, o “charme” do homem que só queria poder e que se viu vencido por uma cadeira era o suficiente para atrair fosse quem fosse.

Estamos tão carentes, frágeis e com vontade de comunicar que nos damos sem pensar. Mas não é correto afirmar que o problema se resume ao Tinder. Até porque vemos o mesmo a acontecer em qualquer outra rede social — seja ela o Facebook, o Twitter ou o Instagram.

É o efeito janela de chat onde, mesmo que seja a nossa cara a representar-nos, estamos protegidos de qualquer desconfiança, ou qualquer paixão não correspondida. O avatar, ainda que real, cria uma relação de distância entre o que somos e o que projetamos na conversa.

Quando Salazar foi descoberto no Tinder

Apesar da experiência, houve quem percebesse a brincadeira. Uma delas chama-se Mariana (nome fictício) que começou por dizer que tínhamos várias coisas em comum.

“É que também estou de regime”, rematou. “Pensei que ias dizer o amor ao Estado e ao marxismo cultural”, foi a resposta possível que abriu a porta ao remate certeiro de quem sabia perfeitamente com quem estava a lidar.

“É uma ditadura que impus a mim própria e que não ‘pide-r’ [podia] ir melhor”, brincou.

Partilhe
Fale connosco
Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado. [email protected]