As últimas 24 horas dos reclusos condenados à morte são planeadas ao minuto

Desde a última refeição, até aos últimos 15 minutos. O final da vida de um recluso é pensado ao pormenor e envolve muita precisão.

Nos Estados Unidos a injeção letal é o método de execução mais utilizado

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Ainda que tenha sido abolida em 21 Estados, a pena de morte é uma prática que se mantém legal e ativa em vários países, tendo até registado um aumento de execuções na Bielorrússia, no Japão, em Singapura, na Coreia do Sul e nos Estados Unidos da América, de acordo com os dados da Amnistia Internacional.

E ainda que este não seja um assunto consensual, o jornal online britânico “Mirror” descreveu passo a passo a preparação dos reclusos nas últimas horas de vida. Se pensa que a execução envolve um processo simples e que acaba em poucos minutos, os detalhes podem surpreendê-lo. “O livro de políticas prescreve um cronograma hora a hora e até minuto a minuto — tudo o que se faz com o recluso, tudo o que se faz na câmara de execução, a forma como se lida com as testemunhas e com a família da vítima”, refere Allen Ault, ex-comissário dos Departamentos de Correção da Geórgia, Mississippi e Colorado, nos Estados Unidos, de acordo com o jornal britânico.

Os reclusos condenados a esta pena passam cerca de 20 anos no corredor da morte (as celas de onde são transferidos para o local de execução) à espera do momento planeado detalhadamente pelas entidades do estabelecimento prisional. Nos Estados Unidos — dos poucos países ocidentais que mantém legal a pena de morte — há ainda 3 mil pessoas nesta situação. Os EUA usa como método principal de execução a injeção letal, mas além deste existe ainda a cadeira elétrica.

Entre os condenados, as identidades mais comuns são assassinos, serial killers e terroristas. O cronograma, aquilo que parece um guião para um filme de terror, tem ainda no elenco pessoas com diferentes papéis: desde os guardas prisionais, passando pelos padres, até aos advogados, todos têm o seu papel.

Perceba como tudo se processa.

20 horas: O recluso é conduzido até à casa da morte

No dia anterior da execussão os reclusos são levados do corredor da morte para a casa da morte, onde tudo acontece

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A preparação começa ainda antes do dia marcado para a execução. No final do dia, às 20 horas, o condenado é transferido da sua cela para o local da execução. Mas antes disso é algemado e revistado, de forma a garantir que não possui qualquer material que possa ameaçar a sua própria vida, ou a dos polícias, de forma a corromper com o plano de execução.

O caminho que os reclusos fazem até à sala de execução representa a última oportunidade de verem a luz do dia. Este é o começo do fim, podendo ser também a única hipótese de algo correr mal e o recluso fugir. É por isso que a preparação ao detalhe é fundamental nesta etapa.

21 horas: Tempo de dormir (ou tentar)

A cama onde os reclusão dormem no dia antes da pena de morte

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Uma cama, um chuveiro e uma sanita. É a isto que têm direito os reclusos na cela que fica a poucos metros da câmara de execução. Devido ao stresse do aproximar da hora, é nesta altura que pode acontecer uma tentativa de suicídio. Mas os reclusos estão constantemente sobre vigia, de forma a impedir que isto aconteça.

4h30 do dia da execução: Hora de acordar

É ainda de madrugada que os guardas acordam os reclusos para resolver quaisquer possíveis petições para suspender a pena de morte ou questões legais e ainda para dar um último adeus à família ou outras pessoas com quem os condenados tenham alguma ligação.

Mas há outro tipo de contactos que podem estabelecer: podem falar com um padre e fazer alguns telefonemas finais.

8 horas: Fim das visitas e teste do equipamento

Às 8 horas são testadas as correias da maca, o telefone e a cadeira elétrica (se usada)

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Depois das despedidas, as últimas palavras trocadas ou caras que o recluso verá são a do padre e as dos guardas. O padre tem aqui o papel de confidente, a quem os reclusos revelam os seus pensamentos.

Enquanto isso, na sala da morte os equipamentos são testados de forma a garantir que no momento final a morte acontece de forma eficaz. Confirmada a eficácia das correias da maca, da cadeira elétrica (caso seja usada) e do telefone, para o caso de haver um recuo na pena de morte decidido em última instância, é o momento de passar para o passo seguinte.

10:30: O último almoço

O almoço é ligeiro, simples, como qualquer comida nos estabelecimentos prisionais, e é servida cedo, porque o dia do recluso já vai a meio — tendo acordado antes do sol nascer.

Não é a última refeição, mas é a primeira ingerida em privado depois de décadas na prisão.

15 horas: O momento para quem é condenado à pena de morte numa cadeira elétrica

Este passo não se aplica a todos os reclusos. Mas aqueles cuja morte é feita com recurso aos choques da cadeira elétrica, têm de rapar o cabelo de forma a que a corrente passe mais facilmente pelo corpo.

15h30: Um novo uniforme para o momento da execução

As horas aproximam-se cada vez mais do momento final. O ritual passa primeiro por um banho e de seguida é dado um novo uniforme prisional ao recluso.

16 horas: a última refeição da vida do recluso

Aqui é dada um última oportunidade para comer algo de que os reclusos tenham saudades. Mas há limitações: dependendo dos Estados, por norma este valor não ultrapassa os 15 dólares (cerca de 13€).

Já foram registados alguns pedidos insólitos, como é o caso do terrorista norte-americano Timothy McVeigh, que pediu duas doses de gelado de menta, ou do serial John Wayne Gacy que pediu 12 camarões fritos, um balde da receita original do KFC, batatas fritas e morangos.

17 horas: Chegam as testemunhas da pena de morte

Pode ser qualquer pessoa: jornalistas, familiares ou mesmo estranhos. A única regra é fazer silêncio enquanto entram na câmara das testemunhas.

Das 18 às 20 horas — Passaram 24 horas desde o início do processo. É o momento da última caminhada

São apenas escassos metros entre a cela e a câmara de execução, mas a caminhada é simbólica. Normalmente são acompanhados por cinco guardas, mas há quem faça o percurso sozinho. Por norma este passo acontece ao final do dia, mas pode variar de Estado para Estado.

Os últimos 15 minutos

A injeção está preparada. O código de conduta estabelece que os médicos não podem ficar para o momento final. Por isso, é uma equipa de especialistas que injeta a substância no condenado.

Nos últimos minutos, as cortinas que separam as testemunhas do condenado são fechadas e este tem direito a fazer algumas declarações finais.

A execução

O momento que tem vindo a ser preparado durante 24 horas e que foi esperado pelo recluso durante anos, está prestes a terminar: o padre coloca a mão sobre o condenado e a sua vida chega ao fim.

A pena de morte é assim cumprida.

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