O que se sabe sobre os dois tiroteios em massa que mataram 30 pessoas nos EUA?

Os responsáveis eram jovens, brancos e só um deles sobreviveu. Um dos tiroteios está a ser investigado como terrorismo doméstico.

Um dos atacantes terá escrito um manifesto repleto de discurso de ódio e de apoio à supremacia branca

Vice

Os números são impressionantes mas ajudam a explicar o contexto atual dos EUA e as consequências da falta de legislações que regularizem o porte de arma na região. É que no país há cerca de 56 mil lojas e revendedores de armas e desde o início do ano já se registaram 250 tiroteios em massa nos EUA, enquanto que no México, o segundo país com mais ocorrências registadas, contabilizaram-se três.

Os números não mentem e já têm em consideração os mais recentes tiroteios que, no fim de semana de 3 a 4 de agosto, abalaram os EUA em Dayton e El Paso, nos estados de Ohio e Texas, respetivamente.

Sobre o que aconteceu, Donald Trump, presidente dos EUA, disse pouco. Falou em “doenças de foro mental”, defendeu que “o ódio não tem lugar” no país e garantiu que estavam a ser tomadas medidas para travar um problema que se arrasta há demasiado tempo. Já dois membros republicanos do senado associaram os tiroteios em massa à influência dos videojogos nos mais novos.

Em novas declarações à imprensa esta segunda-feira, 5 de agosto, Trump condenou a “supremacia branca” e, segundo escreve o “Observador”, pediu ao congresso norte-americano uma atuação eficiente para garantir que aqueles que “representem um grave risco para a segurança público não tenham acesso a armas de fogo.”

No rescaldo dos dois ataques, que foram levados a cabo por dois homens brancos e de nacionalidade norte-americana, recolhemos tudo aquilo que já se sabe sobre os tiroteios que tiraram a vida a 30 pessoas em apenas 13 horas.

O que aconteceu em El Paso?

O primeiro tiroteio foi ocorreu num Walmart de El Paso, Texas, depois do atirador ter percorrido mais de mil quilómetros entre Allen e El Paso — uma viagem que demora cerca de 10 horas de carro.

O principal suspeito é Patrick Crusius, um jovem de apenas 21 anos que terá escrito um manifesto e publicado online onde alega que é necessário “um ataque armado contra a invasão hispânica ao Texas”.

As autoridades estão a investigar a veracidade do documento, mas a CNN diz que o manifesto é composto por quatro páginas repletas de discurso de ódio onde se apela à supremacia branca.

“O autor fala do receio de que o aumento da população hispânica no Texas transforme o estado num ‘forte democrático’ e garante que defende esta ideologia há vários anos, muito antes de Donald Trump se tornar presidente”, escreve a mesma publicação.

Com um colete à prova de bala vestido, Patrick Crusius matou 20 pessoas e feriu outras 26 durante o ataque. Segundo fontes oficias das autoridades, o jovem ter-se-á rendido assim que viu as forças especiais a entrar no complexo comercial.

Mas embora o nome de Crusius seja o mais comentado nas redes sociais, há um outro que ganhou destaque depois de ter salvo várias pessoas dentro durante o ataque.

Falamos de Glendon Oakley, um soldado norte-americano que se encontrava a fazer compras no Walmart quando uma criança correu até ele e lhe explicou o que estava a acontecer. Segunda recorda à ABC News, primeiro pensou que não passasse de uma brincadeira mas assim que ouviu os primeiros disparos percebeu que a ameaça era real.

Foi nesse momento que tentou salvar o máximo de crianças possível, afastando-as da linha de fogo. Mas diz que o primeiro instinto foi pegar na sua pistola. “Estamos treinados. Quando ouves disparos, tiras a tua arma e pensas depressa. É uma sensação que não consigo explicar”, revela.

“O que fiz foi exatamente aquilo que deveria ter feito. Percebo que seja visto com um herói mas essa não foi a razão por que fiz o que fiz. Mas dói muito porque estou focado nas crianças que não consegui salvar e nas famílias. Sinto que era uma parte de mim e nem conheço as pessoas que morreram”, continua.

A violência e a aparente aleatoriedade do ataque (embora se acredite que tenha sido premeditado) levaram as autoridades a identificar o tiroteio de El Paso como um caso de terrorismo doméstico.

O que aconteceu em Ohio?

Cerca de 13 horas depois, as autoridades recebiam um novo alerta, mas desta vez na zona de Oregon District, na cidade de Dayton, uma zona muito frequentada e com vários bares e discotecas.

Nas imagens captadas pelas câmaras de vigilância espalhadas pelas ruas, veem-se várias pessoas a fugir de um indivíduo armado que, segundo a imprensa, terá começado a disparar dentro do um bar depois de ter chegado ao local munido de arma automática e um colete à prova de bala. Segundo a CNN, morreram 9 pessoas durante o ataque — e uma delas era a irmã do atirador.

“O atirador matou a irmã e feriu o acompanhante mas a as autoridades não acreditam que este tenha tido conhecimento do ataque antes da chegada ao local”, escreve a mesma publicação.

O atirador foi identificado como Connor Betts depois de ter sido abatido pela polícia. Sabe-se que teria cerca de 24 anos e que era “um homem branco.”

Ainda segundo a CNN, as autoridades responderam à ocorrência 30 segundos depois de a primeira bala ter sido disparada, o que terá sido fundamental para que o número de vítimas não fosse maior.

Apesar disso, ainda não foram reveladas as motivações do atacante para ter levado a cabo o tiroteio. A CNN escreve que, depois de identificado o atacante, foram feitas várias buscas em sua casa onde foram descobertos documentos que “mostravam o interesse do atacante em matar pessoas”.

Mas, e segundo várias fontes oficiais, esses documentos não foram suficientes para concluir um motivo racial ou político. “Não temos informação suficiente responder à questão que todos querem ver respondida: ‘Porquê?’. E não temos provas que sugiram que houve alguma motivação”, diz a CNN citando fontes próximas às autoridade de Ohio.

Durante os ataques, houve quem se destacasse mais uma vez pelo seu heroísmo. Foi o caso de Kayla Miller, uma enfermeira que desistiu de fugir das balas para prestar primeiros socorros a uma das vítimas.

Segundo conta à revista “Today”, Kayla fugiu assim que começou a ouvir os primeiros disparos. “Olhei para o passeio e vi vários corpos caídos. Pessoas que tinham sido baleadas. Algumas vivas, outras não.” Mas durante a fuga reparou em várias pessoas feridas, a quem prestou manobras de tentativa de reanimação.

“Estou grata por estar viva e por poder falar com a minha família e amigos. Mas o meu coração está destroçado por todas aquelas famílias. Não é justo”, lamenta.

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